Descoberto o primeiro vazamento ativo de metano no fundo do mar da Antártida

Bruna Araujo
julho 28, 2020

Pixabay

O primeiro vazamento ativo de metano do fundo do mar na Antártida foi revelado pelos cientistas.

Os pesquisadores também descobriram que micróbios que normalmente consomem o potente gás de efeito estufa antes que ele possa chegar à atmosfera só apareceram em pequena quantidade e só após cinco anos, permitindo que o gás escape para a atmosfera.

Acredita-se que grandes quantidades de metano sejam armazenadas sob o fundo do mar por toda a Antártida. O gás pode começar a vazar à medida que a crise climática aquece os oceanos, uma perspectiva que os pesquisadores disseram ser “inacreditavelmente preocupante”.

A razão para o surgimento do novo vazamento de metano no fundo do mar permanece um mistério, mas provavelmente não é o aquecimento global, já que o Mar de Ross, onde foi encontrado, ainda não se aqueceu significativamente. A pesquisa também tem relevância para os modelos climáticos existentes, que atualmente não explicam o atraso no consumo, pelos micróbios, do metano escapado.

O vazamento ativo foi visto pela primeira vez em 2011 por mergulhadores que o encontraram por acaso, mas os cientistas demoraram até 2016 para retornar ao local e estudá-lo em detalhes, antes de iniciar a pesquisa em laboratório.

“O atraso [no consumo de metano] é a descoberta mais importante”, disse Andrew Thurber, da Universidade Estadual de Oregon, nos EUA, que liderou a pesquisa. “Não é uma boa notícia. Levou mais de cinco anos para os micróbios começarem a aparecer e, mesmo assim, ainda havia metano escapando rapidamente do fundo do mar.”

A liberação de metano de estoques subaquáticos congelados ou regiões de permafrost é um dos principais pontos de inflexão que preocupa os cientistas, isso ocorre quando um impacto particular do aquecimento global se torna invencível.

“O ciclo do metano é, com certeza, algo com o qual nós, como sociedade, precisamos nos preocupar”, disse Thurber. “Eu acho inacreditavelmente preocupante.”

Ainda se sabe muito pouco sobre o ciclo do metano antártico, mas a boa notícia, disse ele, é que o novo vazamento forneceu um laboratório natural para mais pesquisas.

Por que a formação do novo vazamento é desconhecida? “Esse é um mistério para o qual que ainda não temos uma resposta”, disse Thurber. “Está ao lado de um vulcão ativo, mas não parece que veio disso.”

A profa. Jemma Wadham, da Universidade de Bristol, no Reino Unido, que não participou do estudo, disse: “A Antártida e seu manto de gelo são enormes buracos negros em nossa compreensão do ciclo do metano da Terra – são lugares difíceis de se trabalhar

“Achamos que é provável que [haja] quantidade significativas de metano sob o manto de gelo”, disse ela. “A grande questão é: quão grande é o atraso [na chegada de micróbios que consomem metano] em comparação com a velocidade com a qual novos vazamentos de metano podem potencialmente se formar, considerando a diminuição das camadas de gelo?”

A pesquisa, publicada na revista Proceedings of the Royal Society B, relata a descoberta do vazamento de metano em um local de 10 metros de profundidade conhecido como Cinder Cones em McMurdo Sound. Antártida.

É um trecho de 70 metros de comprimento de tapetes microbianos brancos, e um segundo vazamento foi encontrado durante a expedição de 2016.

“Encontramos o vazamento de metano em um local onde se mergulhava desde a década de 1960 e ele tinha acabado de se tornar ativo”, disse Thurber. O cientista disse que não havia bolhas de metano. “A maior parte do metano, em muitos vazamentos, realmente sai no que chamamos de fluxos difusos. Então é apenas dissolvido na água.

A fonte do metano provavelmente são depósitos de algas em decomposição enterrados sob sedimentos, e acredita-se que estes depósitos tenham milhares de anos. Na maior parte dos oceanos, o metano que vaza do fundo do mar é consumido por micróbios no próprio depósito ou na coluna de água acima. Mas o lento crescimento de micróbios na região de Cinder Cones, e a pouca profundidade deste local, significa que é quase certo que o metano esteja vazando para a atmosfera.

Thurber disse que os primeiros micróbios a crescer no local foram de uma cepa inesperada. “Provavelmente estamos em um estágio sucessório, onde pode levar de cinco a dez anos até que uma comunidade de micróbios se adapte totalmente e comece a consumir metano.”

O vazamento ativo generalizado de metano foi relatado na ilha subantártica da Geórgia do Sul em 2014, uma novidade para o Oceano Sul. “Mas essa é realmente uma área oceanográfica diferente do continente antártico”, disse Thurber.

Wadham disse que os cinco anos em que a região de Cinder Cones foi estudada é um período muito curto de tempo. “Então seria bom ver o que acontece com esse vazamento no futuro. A descoberta também faz você se perguntar se essas características são mais comuns do que pensamos ao redor da Antártida, mas raramente são descobertas.”

No entanto, é improvável que os pesquisadores possam retornar à Antártida em breve. O continente está atualmente livre de coronavírus, mas o risco de infecção interrompeu os planos para a expedição.


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