Doçura e vulnerabilidade

Um ashram para o beija-flor: o refúgio para o menor pássaro do mundo em Trinidade

Theo e Gloria Fergusson criaram um jardim com design especifico para atrair beija-flores – e centenas de visitas diariamente.

Pixabay
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Aos pés da propriedade de Theo e Gloria Fergusson encontra-se uma árvore algodão de seda gigante. Uma espécie encantada remanescente das fabulas infantis, seus membros gigantes e varicosos se abrem para cima, em direção a uma marquise de folhas que arranham o céu. Oito adultos de braços dados teriam dificuldade para completar um círculo em volta dela, prova do tempo que ela tem guardado os limites do vale de Maracas em Trinidade.

Poderia ser que essa árvore era uma mera muda quando os indígenas moravam aqui e nomearam esta terra de Iere, ou “Terra do Beija-Flor”. Estavam tão encantados por essas lindas criaturas que criaram um mito para proteger os pássaros, os quais eles acreditavam representar as almas de seus mortos. De acordo com a lenda, o lago Pitch Lake, localizado em La Brea– uma crescente maravilha betume no sudoeste de Trinidad, agora um patrimônio mundial da Unesco – foi lar dos índios Chima.

Entretanto, a tribo induziu a ira dos deuses por se alimentarem de beija-flores em um banquete de celebração. Em sua fúria, os deuses abriram a terra e convocaram o lago ácido para consumir o vilarejo e seu povo.
Os Amerindians e seus mitos não poderiam proteger os beija-flores para sempre. A população dospássaros e seus defensores foram quase dizimados quando os primeiros colonizadores Europeus chegaram as ilhas 500 anos atrás. A plumagem incrível dos beija-flores, exemplificadas por nomes
como garganta-rubi, queixo-esmeralda e queixo-safira azul, foi altamente avaliada nas cortes da Europa do século 19, onde suas penas foram usadas como joias. O comercio de milhares de pássaros só foi parado com a introdução do Tratado das Aves Migratórias de 1918. Levaram décadas para a população de beija-flores da ilha se recuperar – sendo que algumas espécies desapareceram de vez.

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Hoje, as ilhas gêmeas de Trinidade e Tobago possuem 19 espécies dessa pequena criatura, cada uma tem o tamanho do dedão de um adulto. Os beija-flores são encontrados exclusivamente nas Américas e esse vasto continente possui aproximadamente 345 espécies, a maior parte localizada
nos Andes. O jardim exuberante dos Ferguson, as sombras da árvore de seda, se enche de centenas de beijaflores todos os dias. Quinze espécies foram vistas no jardim, incluindo uma nova descoberta em outubro de 2019, o esmeralda-de-garganta-brilhante. Ao entrar no espaço, um oásis tropical, flores, o ar bate com as asas frenéticas dessas pequenas criaturas, que esvoaçam, se ampliam e cintilam entre seus alimentadores como uma miniatura de arco-íris.

Os Ferguson foram tão abençoados com esses visitantes que eles nomearam seu lar de 34 anos de Yerette, Amerindiano para “lar dos beija-flores”. Quando Theo Ferguson era um jovem crescendo em Grenada, a beleza dessas “fadas do mundo natural” relembrou ele, como outros garotos de sua idade, ocasionalmente jogava pedras neles quando estava entediado. Somente mais tarde, ao seguir uma carreira longa como cientista e palestrante de agricultura na Universidade de West Indies no campus de Saint Augustine que ele começou a realmente ver os
pássaros.

Eu entrei em uma fase profunda de introspecção em minha vida. Eu fui para a África do Sul em 1999, quando Nelson Mandela era presidente, com esperanças de levar experiência técnica para aquele país, mas tive um despertar bruto quando cheguei lá. Apesar de terem um governo negro, um
presidente negro, eles não estavam prontos para as habilidades de um negro, porque pessoas como eu não eram vistas como capazes de contribuir com muito”, diz ele.

Fergusson retornou a Trinidade e “fui em uma busca por uma melhor compreensão de mim mesmo em relação ao mundo natural em que vivo. O matagal é um ótimo lugar para passar um tempo em silêncio e fiquei muito próximo a natureza, tirando fotografias de pássaros. Eu descobri a beleza de um mundo totalmente novo que antes não enxergava”. Trinidade e Tobago é rica em pássaros: o guará, a garça branca e o flamingo são apenas alguns dos pássaros deslumbrantes que habitam as ilhas, mas foram as performances dos beija-flores, quando vistas pelas lentes da câmera, que deixaram Ferguson extasiado.

“Você não pode ver esses comportamentos a olho nu e quando você vê os pássaros pelas lentes, você vê comportamentos que são inimagináveis, você vê sua agilidade no ar. Você vê a especificidade de cada pássaro. Cada pássaro possui sua própria personalidade”, diz ele. “Minha admiração pelo povo indígena dessas ilhas cresceu porque eles foram capazes de ver a
mágica dessas criaturas que eu não via pela maior parte da minha vida. Eles viam os pássaros como uma conexão do mundo espiritual com a terra, e eles os presentearam com um status especial.

Quando um pássaro faz algo incrível que traz aquele ‘uau’ em você, eu chamo de momento chi. Dura somente uma fração de segundo, mas você pode capturar esse momento e congelá-lo perpetuamente, é algo muito especial”. Os beija-flores são verdadeiramente uma maravilha biológica: eles são os únicos pássaros que podem flutuar no ar e voar em várias direções – incluindo para trás e de cabeça para baixo.

A velocidade que eles batem suas asas, de 25 a 200 vezes por segundo, eles são capazes de criar vórtices resultando em movimentos espetaculares como suspensão aérea e mergulhos em queda livre. Um verdadeiro milagre em miniatura, o batimento cardíaco desses pássaros é de 200 por minuto, isso em repouso, e mantém o recorde mundial de taxa metabólica mais rápida dos vertebrados no planeta, eles usam o néctar como combustível de 10 a 50 minutos. O tempo de vida geral dos pássaros é de cinco a sete anos, mas eles podem viver até 15 anos.

Para o Ferguson, a fascinação com os beija-flores se tornou uma paixão. Ele e sua esposa, Gloria, se dedicaram para criar um ambiente único que os atrairiam ao seu jardim. “Nós introduzimos flores como hibisco, a verbena, a sanchezia, o pó de arroz (calliandra), a flor caliente, madressilva – há uma
grande variedade de flores que os beija-flores se alimentam, algumas mais populares que outras”, diz ele. “Dez porcento da dieta dos pássaros são insetos, então o jardim é importante para ajudar a gerar o ecossistema que produz alimento para o beija-flor. Nós descobrimos que o beija-flor come
mosquitos e podem diminuir sua população”.

Seguindo o conselho do Centro Natural Asa Wright, Ferguson criou uma bebida de néctar para os beija-flores de açúcar branco misturado com água (açúcar mascavo é venenoso para os pássaros por causa de seu alto teor de ferro) e a distribuiu nos alimentadores pelo jardim. O que aconteceu em seguida foi inacreditável. “Nós achávamos que isso atrairia alguns pássaros a mais, mas eles vieram em grande quantidade; centenas, as vezes milhares. O jardim costumava ter alguns ninhos de beija-flor. Mas o beija-flor adora fazer seu ninho em um lugar quieto, onde eles podem criar os mais jovens sem serem perturbados. Então, não vemos ninhos no jardim mais, mas eles trazem seus filhos para se alimentar”.

O Ferguson se tornou um expert sobre os pássaros. “Agora sou um tipo de veterinário. O pássaro é tão pequeno que nem todos os veterinários conseguem tratar. É tão pequeno que nem é possível colocar uma tala em suas asas. Nós conseguimos tratar aqueles que possuem a asa distendida,
usando um conta gotas para alimentá-los…, mas alguns já estão tão prejudicados que não há nada que possa ser feito por eles”.

São tantos pássaros que Ferguson, agora com mais de 70 anos e dando palestras sobre desenvolvimento de liderança, viu uma oportunidade de combinar duas das paixões de sua vida: natureza e educar outros a construir um mundo melhor. Depois de persuadir Gloria a abrir o jardim
para visitantes – “ela pensou que eu estava louco no começo” – ele ensina os visitantes do Yerette sobre o menor pássaro do mundo e o quão fundamental ele é. “Trinidade possui uma conexão emocional profunda com o beija-flor. Estão entrelaçados com nossa história”, diz ele. “Há registros dos anos 1800 descrevendo Trinidade e Tobago como a Terra do Beija-Flor. É o nosso símbolo nacional- o pássaro está na nossa bandeira, nos aviões, nos selos. Uma das nossas fantasias de carnaval favoritas- Da Terra do Beija –Flor, com o design feito por Peter Minshall em 1974 para sua irmã Serry-Ann Guy – está gravado na memória de nossa nação, um momento essencial para a história do carnaval”.

Alguns funcionários de meio período ajudam o casal, mas o empreendimento é pequeno, por compromisso estrito somente. Após quase uma década abertos, Theo diz que o projeto trouxe para ele e sua esposa grande alegria. O jardim fechou em 16 de março quando as ilhas entraram em quarentena por conta da pandemia da Covid-19 e o casal sentiu falta dos visitantes. Mas reabriu no final de junho e os visitantes estão aproveitando o jardim mais uma vez. “As pessoas tem a natureza como garantida – está lá, mas porque as pessoas não passam muito
tempo na natureza para notar sua luminosidade. Não as atrai tanto quanto as luzes do mundo artificial que elas vivem”, diz Ferguson.

“Quando as pessoas vêm a Yerette, todos os seus sentidos são acionados. Os beija-flores são criaturinhas tão amáveis, eles forçam as pessoas a se ligarem completamente na natureza. Os visitantes o chamam de lugar sagrado, um santuário, uma igreja, um ashram para os beija-flores;
eles possuem uma reverencia por essas criaturas. “Eu realmente acredito que se uma pessoa aparece em Yerette e vê a mágica que nós criamos em
nosso quintal e espalhar a mensagem, nós podemos começar a mudar o mundo a nossa volta e como as pessoas pensam a respeito da natureza uma por uma”.


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