Defensor da caça, Alex Atala gera controvérsia ao aceitar convite para live sobre sustentabilidade


Reprodução/Jairo Goldflus

O Instituto Planeta Verde anunciou nas redes sociais uma série de lives com “profissionais sustentáveis”. O primeiro convidado a participar, no entanto, não tem qualquer ligação com a sustentabilidade. O chef Alex Atala, defensor ferrenho e praticante da caça de animais silvestres, dará início ao projeto em uma live que será transmitida no Instagram no dia 13 de julho, às 20 horas.

Além de caçar animais, o chef trabalha com uma gastronomia pautada na exploração animal e que, por isso, está diretamente ligada com a ausência de sustentabilidade. Não é sustentável matar animais silvestres, interferindo no habitat e causando desequilíbrio no ecossistema, assim como não há sustentabilidade no ato de explorar e matar animais domesticados, como bois, porcos e frangos, já que a agropecuária é responsável por desmatar grandes áreas para criar animais, além de poluir a natureza com dejetos e flatulências de efeito estufa produzidos pelos animais, e desperdiçar quantidades exorbitantes de água, recurso natural finito e necessário à preservação da vida no planeta – para se ter ideia, 16 mil litros de água são usados na cadeia produtiva que leva à fabricação de apenas 1 kg de carne.

Para a diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Vânia Plaza Nunes, a escolha do chef para abrir a série de lives reforça a existência de uma visão distorcida do termo sustentabilidade.

“A primeira coisa importante da gente questionar é o nome série de lives ‘profissionais sustentáveis’, o que eles entendem por sustentabilidade? Outra coisa que me chamou atenção é o instituto chamar Planeta Verde, o que isso quer dizer? Será que planeta verde é só você fazer um consumo alimentar de produtos orgânicos ou produtos certificados ou trabalhar com uma coisa elitizada que só quem tem um alto poder aquisitivo vai poder acompanhar? Tem esse equívoco”, afirmou a especialista, em entrevista exclusiva à Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA).

Reprodução/Instagram/Ag. News

Vânia lembrou ainda que os animais costumam ser colocados em segundo plano quando questões ambientais são debatidas, sem que se considere que eles são parte integrante do meio ambiente. “Normalmente toda pauta que nós falamos sobre questões ambientais, os animais ficam como um complemento e não como atores importantes dentro do cenário. Não são os protagonistas, são sempre os coadjuvantes não muito relevantes. E isso tem um ônus, um peso, porque na natureza os animais têm um papel fundamental em manter o equilíbrio da capacidade que a natureza tem de regeneração, de recomposição, de sustentação”, explicou.

Para ela, o termo sustentabilidade foi deturpado e passou a ser usado para agradar o ser humano ao invés de fazê-lo repensar seus hábitos em prol da preservação da natureza e dos animais. “Muito dessa questão de sustentabilidade no Brasil é usada como uma expressão única e exclusivamente para agradar os olhos de quem lê, os ouvidos de quem ouve, e não para a pessoa entender o que de fato está envolvido no termo sustentabilidade”, disse.

Em relação à escolha de Alex Atala para a live, Vânia abordou a necessidade de separar a importância do chef para a gastronomia e a questão da sustentabilidade, que não é praticada por ele. A diretora técnica do Fórum Animal disse que Atala “pode ser muito importante do ponto de vista da gastronomia”, mas explicou que “a gastronomia não prima por ser ética e sustentável”.

Para ilustrar a ausência de sustentabilidade e ética por parte da gastronomia – que só prima por tais premissas quando é executada dentro do veganismo -, Vânia citou um programa de televisão no qual a exploração e a crueldade animal foram demonstradas de maneira clara.

Arquivo Pessoal/Revista Trip

“Me lembro do programa do chef Claude Troisgros na Globo, que tem vários chefes. No final da versão passada, os participantes tiveram que fazer um prato com a glândula timo, que é uma glândula que produz anticorpos para os animais quando eles são filhotes. Eles usaram um produto que vinha de um animal jovem que tinha sido morto única e exclusivamente para a preparação daquele prato, como se fosse uma iguaria que normalmente é muito cara, porque é um pedaço pequeno do animal”, contou.

“Então existe um equívoco quase esquizofrênico entre entender o que é sustentabilidade e escolher uma pessoa com esse tipo de formação. E ele ainda por cima pratica a caça, que é absolutamente condenável, que acarreta sofrimento, dor, crueldade, num animal que está ali, no ambiente natural, vivendo a vida dele aparentemente em segurança e subitamente passa a ser alvo de um perseguidor sem nenhum sentido, sem nenhuma necessidade, porque não existe justificativa para a caça, nem do ponto de vista da alimentação, nem do ponto de vista da sustentabilidade ou do controle de animais que fazem parte atualmente da fauna exótica brasileira”, completou.

A luta da especialista contra a caça de animais é baseada não só na defesa do direito à vida, inato a todo ser vivo, mas também em estudos que provam a insustentabilidade dessa prática e sua ineficácia no controle populacional de espécies.

“Existem centenas de milhares de trabalhos mostrando que a caça é uma prática cruel que não contribui em nada para qualquer tipo de ação de preservação, de conservação, de controle populacional, e as pessoas vivem insistindo nela, então acho que esse é um ponto importante a ser questionado, que paradoxo é esse? Que você tem uma pessoa como essa, que é uma pessoa famosa, mas que tem um hábito absolutamente questionável de caçar? Essa violência de acabar com a vida do outro só pelo prazer”, disse Vânia.

Na opinião da diretora técnica, Atala parece querer “passar uma imagem de que é uma pessoa correta sob o ponto de vista da cozinha”. “Ele já teve programa inclusive com a Bela Gil, usando produtos da floresta amazônica. Acredito que ele busca estar próximo de pessoas que estão crescendo dentro do cenário nacional realizando uma gastronomia de fato sustentável, com responsabilidade e que não é cruel, que não causa a morte, que trabalha princípios de equilíbrio com a natureza e com todas as formas de vida. Então, ele tenta fazer essa aproximação, mas por outro lado quer manter hábitos que não são justificáveis, nunca foram e especialmente agora, que a gente tem a ciência avançando, trazendo conhecimento e informação sobre a não necessidade do consumo de proteína animal para a nossa subsistência”, concluiu.

Arquivo Pessoal/Revista Trip

O professor de Direito Daniel Lourenço, que leciona nas instituições UFRJ, Ibmec e PPGD da UniFG/BA, também questionou a escolha de Alex Atala para abordar questões relacionadas à sustentabilidade.

“Sou em princípio absolutamente contra a censura, o cancelamento ou a restrição à liberdade de expressão. Em outras palavras, o chef Alex Atala pode se manifestar livremente e falar o que bem entender, onde ele quiser e da forma que quiser. Faz parte do jogo democrático. Nesse ponto específico, a única ressalva que deve ser feita é a de que ele não é autoridade epistêmica ou prática sobre o tema. Cabe a quem discorda, criticar o que ele vier a falar”, disse o professor à ANDA.

Assim como Vânia, o docente apontou que o conceito de sustentabilidade que permeia a sociedade brasileira é superficial e que a escolha de Atala para a série de lives é uma das provas disso.

“O problema maior, que se torna mais visível com esse episódio e que me chama mais atenção é o fato do convite ter sido feito por uma das instituições mais prestigiadas na área ambiental no país, que congrega professores e pesquisadores renomados, especialmente no âmbito do Direito Ambiental”, afirmou.

“Simbolicamente isso revela que o conceito de sustentabilidade presente no senso comum ambientalista é superficial, raso. Não leva em conta, de maneira efetivamente comprometida, a necessidade de repensar a relação homem-natureza, homem-animal. Falar sobre sustentabilidade tendo como pano de fundo a morte e a instrumentalização de animais e da própria natureza é um paradoxo insuperável. Sustentabilidade, para quem?”, questionou.


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