Saúde animal

Uso de água sanitária e álcool no chão pode causar dermatite em animais

O uso de álcool em gel nas patas dos animais também não é indicado. O recomendado, após passeios na rua, é passar sabão neutro, retirá-lo com água e depois secar

Pixabay/Ihtar
Pixabay/Ihtar

O uso de água sanitária e álcool em excesso no chão e em móveis com os quais animais têm contato pode levar ao surgimento de dermatite nos cães e gatos. O alerta é feito por veterinários.

Ted, o gato tutelado pela fisioterapeuta Ludmila Paulino, 31 anos, foi uma das vítimas. Com a chegada do coronavírus, muitos brasileiros reforçaram as medidas de limpeza. Ludmila foi uma delas. Por conta disso, Ted ficou mais exposto à água sanitária e desenvolveu uma doença de pele e passou a se automutilar. O diagnóstico veio após consulta na clínica Ama Pets, em Salvador, na Bahia.

“De fato, nós estávamos limpando o chão várias vezes ao dia com água sanitária e usando álcool em algumas superfícies. Alguns desses locais ele tinha o costuma de deitar”, contou Ludmila ao portal Correio 24 Horas.

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“A mudança de rotina e o excesso de limpeza geraram esses problemas. Além dos medicamentos e banhos com shampoo específico, passamos a usar os produtos com mais critério”, completou.

Um levantamento feito pelo jornal concluiu que, durante a quarentena, aumentou entre 25% a 30% o número de animais que precisaram de cuidados médicos após contato com produtos de limpeza. Os dados foram levantados através de relatos das principais clínicas veterinárias de Salvador.

As dermatites têm surgido por conta do contato de animais com superfícies higienizadas com água sanitária e desinfetante em excesso, mas também pelo uso indevido de produtos como álcool para limpar as patas dos cães após passeios.

“Eu tenho visto coisas bem esdruxulas. O tutor tava lavando a pata do animal com água sanitária pura, sem enxágue. Água sanitária tem um poder químico absurdo mesmo enxaguando. Aquilo vai ressecar a pele, provocar irritações e coceiras”, explicou ao Correio o dermatologista veterinário Raphael Bezerra.

Produtos de limpeza, usados no piso ou diretamente no animal, podem gerar, além de irritações e dermatites bacterianas ou fúngicas, intoxicações. Os animais também podem se lamber ao ter contato com essas substâncias químicas. “A umidade e a boca com bactéria podem causar fungos, por exemplo”, disse Rafael. Nos atendimentos que fez no último mês nas clínicas Amigo Pet e AlphaPets, o veterinário registrou um aumento de cerca de 30% nos atendimentos relacionados a problemas causados por esses produtos.

A veterinária Miucha Furtado, da Ama Pets, acredita que umas das explicações o aumento nos casos tem relação com a diluição errada dos produtos. “Os animais tem apresentado muita alergia, muitos problemas de pele por conta do contato com o chão da casa. Esses produtos não eram usados com tanta frequência. Além disso, as pessoas não fazem o uso da forma mais adequada”, explicou.

A veterinária Vanessa Reis, da clínica Semeve, também notou aumento nos atendimentos. “Esses produtos podem causar alergias em animais sensíveis a essas substâncias e o o uso inadequado favorece às bactérias, fungos. São microorganismos que já existem na pele do animal, mas, pelo ressecamento, isso acaba exacerbando e causando essas dermatites. Tivemos relatos de problemas causados pelo álcool líquido, inclusive”, disse.

Quadros de vômito e diarreia podem ser verificados em caso de intoxicação – o que pode acontecer quando o animal lambe a si ou o chão. “Principalmente no caso do gato porque o gato costuma se lamber muito”, afirma Dra. Miucha.

Alessandra Monnet, médica veterinária que trabalha na Pet Care a Domicílio, atendeu pelo menos dez casos de problemas de pele nos últimos 30 dias, conforme relatou ao Correio. “Alguns tutores de pacientes meus apresentaram lesões dermatológicas por uso de água sanitária. Na anamnese foi perguntado e todos haviam introduzido o produto na limpeza diária da casa, o que não acontecia com tanta frequência antes”, contou.

Para não adoecer os animais, cuidados precisam ser tomados. Segundo a veterinária Miucha Furtado, “limpeza não significa cheiro” e, por isso, usar uma quantidade de água sanitária suficiente para continuar sentindo o cheiro do produto após dilui-lo em água é errado.

O veterinário Marcus Fróes, do HPet, recomenda que os tutores sigam protocolos de laboratórios para desinfecção de materiais infectados. Sendo assim, o profissional indica que, ao limpar o chão de casa, a pessoa dilua 10 ml de água sanitária em 1 litro de água.

“Os próprios produtos de limpeza trazem nos seus rótulos um excesso desnecessário na hora dessa diluição. Essa é uma questão de mercado para vender mais. Meu conselho é que se use 10 ml de água sanitária para cada litro de água”, reforçou o veterinário especialista em dermatologia.

Para proteger o animal, é importante que o tutor passe um pano úmido no chão, após a limpeza, para tirar o excesso do produto químico. “Depois que você resolveu a assepsia, passa um pano só com água para tirar os resíduos”, orientou a Dra. Alessandra Monnet.

As famílias também podem optar por desinfetantes vendidos pelo mercado de produtos veterinários, que não são tão nocivos aos animais, como o HerbalVet. Os especialistas também indicam água e sabão neutro para limpar as patas dos cães após passeios.

“Não pode passar álcool gel de jeito nenhum. O álcool desidrata a pele do animal, isso causa um ressecamento que pressupõe a formação de alergia. Ele deixa a pele do animal mais sensível. Não pode passar nem um pouquinho. A melhor forma é água e sabão neutro, se a pessoa tiver condições de secar bem as patinhas. Porque se você não seca devidamente, a pata do animal fica úmida e você pode gerar outro problema de pele com fungos e bactérias. Se não puder secar, você tem a opção de usar o lenço umedecido para pet, que tem uma concentração maior de antisséptico do que o de humano”, orientou Miucha Furtado.

O posicionamento é reforçado por Alessandra Monnet. “As pessoas estão utilizando álcool 70 (mesmo que seja álcool em gel) para higienizar as patinhas. Não pode de forma nenhuma! Eu sou contra”, concluiu a veterinária.


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