Direitos animais

Ser vegano é recusar-se a consumir violência

Veganismo não é sobre pureza ou perfeição, mas sim reconhecer nossas falhas e mudar nossa relação com outras espécies

(Foto: Andrew Skowron)
(Foto: Andrew Skowron)

Há quem afirme que o veganismo é um “ilógico manifesto a um tipo utópico e impraticável de pureza”. Bom, veganismo não é sobre pureza ou perfeição, mas sim reconhecer nossas falhas e mudar nossa relação com outras espécies. Sem dúvida, o objetivo é o abolicionismo animal, ou seja, livrar os animais da exploração e da violência, mas não há imersão em uma suposta realidade ultrarromântica de realização de curto prazo. Veganos têm consciência de suas limitações, e ainda assim aceitam o desafio de fazer o possível para reduzir impacto negativo na vida de outros animais.

Direito de se alimentar de animais

Dentre as críticas ao veganismo, comum também é a defesa de que “as pessoas têm o direito de comer o que quiser”. Esse é um ponto crítico, já que alimentar-se de animais é alimentar-se de violência.

O chamado “direito” do ser humano de alimentar-se de outras criaturas não foi ”concedido” por ninguém a não ser por ele mesmo, logo uma arbitrariedade que consiste em subjugar outros animais sencientes ignorando seus interesses, ou seja, o direito a não sofrer em decorrência da ação humana.

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“Os animais são sujeitos de uma vida? Esta é a pergunta que precisa ser feita sobre os animais porque é a pergunta que precisamos fazer sobre nós”, escreveu o filósofo Tom Regan no livro “Empty Cages”.

Segundo Regan, não podemos declarar que o motivo pelo qual nós enquanto seres humanos temos direitos é porque somos igualmente sujeitos de uma vida, mas outros animais, que são exatamente como nós enquanto sujeitos de uma vida, bem, eles não têm nenhum direito. “Isso seria como se colocar diante do mundo e gritar: ‘Um Volvo não é um carro porque um Volvo não é um Ford!’”.

Quando se defende o ato de matar animais e consumi-los como um direito, há enaltecimento e legitimação da tirania a partir de uma crença capciosa na superioridade, e que na sua pretensão prevê direito à subjugação. Em síntese, é uma defesa de manutenção do status quo, da perpetuação do que já existe e é praticado.

Condenação de quem consome animais

Quem critica o veganismo também tende a dizer que não cabe condenação a quem consome proteína de origem animal. Acredito que depende. Não há necessidade em atacar pessoas, até porque isso também é contraproducente. Porém, de forma conscienciosa, é válido criticar com probidade o nosso papel enquanto espécie e a nossa iníqua relação com os outros animais.

Afinal, as pessoas não costumam refletir sobre o seu impacto na vida de outras espécies, e isto por considerá-las inferiores. Então a conscientização é importante. Afinal, matamos por ano, e não por uma questão de necessidade, bilhões de criaturas que, assim como nós, gostariam de viver, não de morrer. Não há romantismo nisso, mas apenas a constatação da realidade. Ninguém nasce ansiando pelo próprio fim.

Não é incomum também a afirmação de que “muitas pessoas aderem ao veganismo por uma tensão puritana”. Há equívoco nisso. Veganos não são isentos de vícios, não são seres perfeitos, nem se julgam como tal, embora possa haver exceções. Se isso ocorre, é questão de equivocada construção individual, sem respaldo na filosofia de vida vegana. Basta analisarmos a história do veganismo e o trabalho de seus pensadores e teóricos.

Talvez esse tipo de observação faça mais sentido no contexto do vegetarianismo místico do que do veganismo quando alguém faz associação com “puritanismo”, “puritano”, “purismo”, “pureza”, embora sejam palavras que compõem um grande escopo de significados, até mesmo antagônicos em alguns aspectos.

Veganismo é bem prático

O veganismo é bem prático. Basta partirmos da seguinte premissa: “Se posso viver bem sem matar ou tomar parte na morte de outros seres vivos, por que não mudar?”

Críticos do veganismo também gostam de dizer que ser vegano é um estado de privação que culmina em “uma limitada experiência de paladares”. Bom, veganos não vivem em privação alimentar. Temos uma grande riqueza de alimentos vegetais acessíveis à nossa disposição, e são responsáveis por dar também sabor aos alimentos de origem animal.

Afinal, que gosto teria, por exemplo, a carne, sem os temperos de origem vegetal? O que deixa claro que, do ponto de vista alimentar, vegetais são essenciais, ao contrário dos alimentos de origem animal. Até porque a existência de veganos é prova de que ninguém morre sem se alimentar de animais.

“Mas veganos consideram quem come carne como assassino!” Bom, quem entende o veganismo em essência sabe que o consumo de carne é um infeliz fator histórico e cultural baseado no costume – algo que pode ser modificado com a motivação certa e importantes fatores de conscientização e sensibilização.

Ânsia por justiça para os animais

Sim, há pessoas que ficam exacerbadas diante do sofrimento animal, da exploração contumaz, e acabam cometendo excessos em seus discursos, porém não cabe generalizações. Esse comportamento é reflexo de uma ânsia por justiça para animais não humanos.

Quero dizer, há boa vontade nisso, o problema é que pode ter ancorado em uma falha de comunicação imersa nos arroubos da passionalidade. Se você dialogar com um vegano, por mais ofensivo que considere o seu discurso, você vai perceber que se trata de uma pessoa bem-intencionada que busca e sonha com o melhor para os animais e para o planeta.

Comparar veganos com terroristas, como ocorre em alguns estranhos contextos antiveganos, é bastante surreal, levando em conta que não há registros de tirania desse tipo praticada por veganos.

Você não os encontra espancando ou matando pessoas em defesa do que acreditam – o que seria um paradoxo. Nem mesmo os grupos de ação direta costumam praticar ou defender qualquer tipo de violência quando decidem articular alguma ação em benefício de animais não humanos; e porque o veganismo existe exatamente em oposição à violência já tão praticada e legitimada pela humanidade.


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