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Rodovia do plástico: a terrível verdade sobre o lixo oculto nos oceanos

Resolver o problema de lixo em nossos oceanos se tornou bem mais complexo do que coletar garrafas de plástico nas praias, relata Laura Trethewey, do "The Guardian"

Imagem de peixe nadando no oceano com uma luva de plástico ao seu redor
Pixabay
Imagem de peixe nadando no oceano com uma luva de plástico ao seu redor
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Nós chamamos a competição de “Quem achou o objeto mais estranho?” Até então, os achados do dia foram um capacete, uma bateria de lítio coberta de adesivos assustadores pedindo para devolvê-la ao exército, e um dinossauro de brinquedo.

O dinossauro estava quente do sol e começando a se decompor. O oceano tinha suavizado o brinquedo e degastado suas margens. Pedras e areia tinham se fixado em sua superfície. Tinha perdido uma de suas pernas traseiras. Em um lado, era cinza escuro; o sol tinha descolorido o lado oposto para branco.

Era a segunda manhã da viagem com a “Ocean Legacy” (Legado do Oceano), um grupo do Canadá que coleta e recicla plásticos encontrados nos oceanos. Nós passamos o primeiro dia caminhando pela praia Mquqwin, na Columbia Britânica, pegando garrafas, boias, troncos flutuando na costa e galhos – e me pareceu que a poluição não era tão devastadora quanto o esperado.

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Online, eu tenho visto imagens de atóis remotos na Polinésia cobertos de plástico. Pensei que teria começado a chorar ao ver galhos enrolados por garrafas de detergente, como se fosse uma árvore de Natal apocalítica. Não foi assim; era mais difuso, mais diluído pela natureza.

Mais de 50% do que “Ocean Legacy” coleta ao longo da costa oeste do Norte e pela América Central é espuma, um plástico tufado feito principalmente de ar e polietileno – um hidrocarboneto líquido que é provavelmente cancerígeno. Um pedaço de espuma leve, volumoso fica bem acima da linha da água e tem uma área superficial grande para que o vento a leve à costa.

Garrafas de plásticos são os próximos objetos mais encontrados. Feitas de tereftalato de polietileno (PET), a garrafa é mais densa do que a água do mar e afunda assim que é perfurada. Na experiência da “Ocean Legacy”, as pessoas são estranhamente boas em colocar a tampa da garrafa de volta, então mais garrafas flutuam para a costa do que se espera.

O que estávamos coletando na praia essa manhã eram objetos leves: itens descartáveis, como  canudos, sacolas plásticas, copos, garrafas. Cidades por todo o mundo estão banindo sacolas plásticas e encorajando copos reutilizáveis invés de descartáveis; são itens descartáveis que são visivelmente jogados nas praias e ficam flutuando na superfície do oceano.

Isso me fez pensar sobre o que mais poderia ser banido ou regulado se pudéssemos ver todo o plástico pesado e o material que nunca chega em terra firme. A praia não estava coberta de plástico, e perto do meio-dia o dinossauro de brinquedo ainda era a descoberta mais estranha.

Chloé Dubois, da “Ocean Legacy”, disse que era possível que o dinossauro poderia ser de uma vítima do tsunami de 20 metros que atingiu o Japão, em Março de 2011. A onda de recuo sugou 5 metros de toneladas de detritos para a água: mais da metade da quantidade anual de detrito plástico que acaba chegando no oceano chegou no Pacífico em um só dia.

Um ano se passou, e os detritos começaram a aparecer ao longo da costa oeste da América do Norte: uma bola de futebol, uma de vôlei, e então, uma moto Harley-Davidson, ainda intacta dentro de um recipiente de isopor. Milagrosamente, o dono da moto foi encontrado através da placa da motocicleta, e a Harley foi enviada de volta para o Japão.

Desde o ocorrido os caçadores de tesouros têm viajado ao Japão para encontrar outras pessoas que tenham perdido tudo, exceto esses bens preciosos; o “Japan Love Project” posta imagens online de itens, na tentativa de retornar esses objetos aos donos. Eu me pergunto se a “Japan Love” talvez consiga reunir o dinossauro com seu dono.

“Ocean Legacy” estima que um terço do que é coletado é do terremoto do Japão; uma concessão japonesa financiou uma expedição para Mquqwin. Para oficialmente qualificar como detrito do tsunami, o material deve vir com algo rastreável, como números de série ou com nome de lugares – uma tarefa difícil para algo que passou meses no mar. “Uma evidência quase judicial”, como um dos voluntários colocou.

Dubois achava que minimizar a quantidade de detritos “oficiais” do tsunami dessa maneira também minimizava a questão do plástico oceânico – e montou uma narrativa maior, que países em desenvolvimentos distantes causaram a poluição de plástico.

Cerca de 167.000 fragmentos de plástico rodam em apenas um quilômetro quadrado de água, e uma pesquisa referência de 2015, publicada no jornal “Science”, mostrou que China, Indonésia e alguns outros países do sudeste Asiático são responsáveis por liberar a maior parte desses fragmentos. Os Estados Unidos, com sua grande população litorânea e alto consumo de plástico, foi o único país desenvolvido no top 20.

O oceano é como se fosse uma rodovia para detritos plástico, e toda nação com litoral tem uma entrada de acesso. Independente do seu local de origem, quando o plástico entra em contato com o oceano, é um problema de todos.

A temperatura tem o principal papel em relação à quebra do plástico, em trincheiras subaquáticas geladas, o oceano pode conservar o plástico por completo por um tempo indeterminado. Porém, quando chega à terra, o plástico se despedaça nas rochas ou rasga se na areia esfoliante, quebrando-se em fragmentos. O sol aquece os pequenos pedaços, tornando-os frágeis até que eles se quebram em pedaços ainda menores.

Isso é quando as toxinas dentro do plástico têm maior chance de lixiviação para o meio ambiente. Estudos mostram que as toxinas da espuma degradada são de uma a quatro ordens de magnitude mais altas na areia do que na água circundante.

No mar, as correntes cruzadas encontram-se, giram e lentamente puxam o plástico para os redemoinhos. Viajando por correntes, o plástico pode ir da costa leste dos EUA até o Ártico. Algumas pessoas que viajam pelos oceanos relatam ver grande cadeias de plástico flutuando na superfície; outras não veem nada. Plástico oceânico pode ser tão minúsculos que fica suspenso na coluna de água e só é visível sob microscópio.

Como podemos lidar com um problema que parece invisível e muda a cada dia ou hora? Essa mudança de posição constante faz parecer que o plástico oceânico não é um problema.

Alguns ignoram a severidade do problema porque ainda pensam no plástico como quimicamente inerte. Bebemos em copos de plástico, aquecemos comida em plástico, e guardamos vários tipos de produtos químicos em plástico.

Se plástico mantém sua forma no calor e não dissolve quando em contato com produtos químicos, ele não deve ser prejudicial nos oceanos, certo? Quando animais ingerem pequenos pedaços de plástico, eles não irão simplesmente excretar este pedaço e continuar sua vida? Isso mostra que o plástico oceânico é mais uma questão de lixo que uma ameaça para o ecossistema.

Laboratórios por todo o mundo, contudo, estão estudando o experimento gigante e incontrolável de plástico que desencadeamos no oceano. No meio ambiente e ao longo do tempo, o plástico começa a enfraquecer, e suas cadeias químicas se quebram, liberando perigosos aditivos. Coisas como retardantes de fogo, amaciadores, estabilizadores e milhares de outros aditivos que ajudam os itens de plástico cumprirem sua finalidade.

Em terra, plástico e seus aditivos são, na maioria, não tóxicos, exceto quando descobrimos que são. Um aditivo, bisfenol A, tornou-se conhecido para novos pais, que agora compram mamadeiras sem esse material químico que imita o estrogênio. Bisfenol A também tem conexão com doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2.

Poluentes como PCBs, os quais foram banidos há anos, ainda estão presentes nas colunas de água, onde eles se prendem ao plástico oceânico. Quando animais ingerem o plástico,  porque está coberto ótimos nutrientes, ele entra para a cadeia alimentar. Eventualmente, isso vai retornar aos humanos.

Um estudo concluiu que humanos comem cerca de 37 pedaços de partículas artificiais a cada ano a partir do sal, a maioria do tamanho de um grão grande de areia. Um relatório de 2019 da Universidade de Newcastle, na Austrália, calculou que, em média, uma pessoa ingere uma quantidade de plástico do tamanho de um cartão de crédito toda semana, principalmente por beber água. “O plástico não conhece fronteiras”, diz Dubois.

Pelo anoitecer, meu progresso diminui para um tropeço. O sol era implacável, cada parte de pele exposta parecia ter envelhecido e secado, como um pedaço de carne. Mackenzie Brunsch, outra voluntária do “Ocean Legacy”, pediu que a seguisse: “Por aqui”. Eu a segui até uma pilha imensa de troncos, e caímos em um pântano quieto e exuberante, cercado por juncos da cintura. O estrondo e assobiar das ondas recuaram; o deslumbrante pôr do sol acabou. Havia apenas a sombra verde e tranquila – e estava absolutamente coberta de plástico.

Aqui estava a destruição que imaginava encontrar quando eu cheguei em Mquqwin. Eu estava parada na catedral da natureza, uma linda luz solar filtrando através de um dossel verde, cercado por samambaias, arbustos e árvores cobertas de musgo verde-elétrico. O plástico atapetou o chão.

Garrafas de plástico, boias de plástico, isopor em todo lugar, como se alguém tivesse feito um Photoshop e colocado lixo em cima da floresta. Eu não precisava mais procurar por plástico. Eu me agachei, estiquei minhas mãos, e joguei plástico nos meus braços. Essa era somente a primeira camada. Quando eu me afastei de uma tora, e encontrei outra camada de plástico e depois outra camada, tudo isso estava desintegrando lentamente em um pântano abaixo. Eu puxei pedaços lamacentos e encharcados de isopor, finas garrafas e escorregadias boias. Um voluntário jovem nos seguiu até o mato e desapareceu na vegetação rasteira. Ele retornou com 5 sacolas de lixo completamente cheias.

A Mackenzie me disse que isso não era nem o pior que ela já tinha visto na sua viagem. Alguns dias antes de eu chegar, ela limpou uma praia cheia de pequenos pedaços de plásticos. Grande parte da poluição visível que o “Ocean Legacy” coleta em Mquqwin se dissipa em pedaços inteiros que são pelo menos reconhecíveis como um jarro de leite ou uma garrafa de refrigerante. Porém, essa praia estava coberta por pedaços maiores que uma unha. “Ocean Legacy” segue as diretrizes de limpeza da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica e coleta qualquer coisa maior que uma tampa de garrafa, então Mackenzie se abaixou e começou a peneirar plástico da areia. Três horas depois, ela continuava no exato lugar onde começou.

Eu comecei a puxar um pedaço de espuma em ruínas do chão da floresta, apenas para perceber que um rebento havia se enraizado nos pallets de espuma. Um voluntário me contou sobre um matagal que ele achou cheio de cogumelo nascendo através da cobertura plástica. Outra emergiu da floresta, segurando no alto um pedaço de espuma coberto por marcas profundas de garras – um poste de arranhar de um filhote de urso, talvez. Dubois me falou sobre um ninho de lobos que ela achou construído com espuma, um isolador de primeira classe. Essas eram as boas exceções. Tão comumente a interação entre plástico e animal termina ruim – para os animais. Depois de assistir o infame vídeo de uma tartaruga marinha com um canudo de plástico enfiado no seu nariz, ela nunca foi capaz de olhar para um canudo do mesmo jeito.

Os canudos são relativamente pequenos em comparação com os danos causados pelos chamados equipamentos fantasmas. Acredita-se que 10% do plástico no oceano é de equipamentos de pesca que foram abandonados ou perdidos, que muito depois que qualquer pescador acabou de usar, continua coletando recompensas. Todos os tipos de animal, de pássaros a tartarugas marinhas e grandes e pequenos invertebrados, são presos em redes que estão flutuando ou mortos por armadilhas abandonadas. Quando o animal morre, inicia-se  uma terrível série de eventos, como a carcaça atrai mais animais que estão à procura de uma refeição fácil.

Em 2014, a Proteção Animal Mundial estimou, conservadoramente, que equipamentos fantasmas matam 136.000 focas, leões marinhos e baleias todo ano. Peguei minha última sacola de lixo cheia, sabendo que tinha muito mais plástico espalhado pelos 40.000 hectares da Península Mquqwin, e que tinha muitas outras toneladas de plástico a longo do litoral e em vias navegáveis por todo o mundo. Eu me senti muito cansada.

Na era da negação das mudanças climáticas, muitos cientistas e ativistas constantemente confrontam uma descrença deliberada sobre o estado ameaçado do oceano hoje. Cientistas inicialmente duvidaram do marinheiro britânico Charles Moore, que reportou sua descoberta do Great Pacific Garbage Patch na metade dos anos 90. Chris Jordan, um fotógrafo de Seattle, famoso pelas suas imagens de um albatroz dissecado com seu estômago cheio de tampas de garrafas e pedaços de plástico, ele tem sido acusado de ter encenado seu trabalho, e agora ele posta vídeos de início ao fim de suas dissecações. Estragos ambientas são geralmente muito lentos, muito dispersos, muito distantes para instalar algum senso de urgência no cético e desinteressado. Mesmo quando esses impactos são condensados em estatísticas pesadas e diagramas ou comunicados por rigorosos estudos documentados com evidências em vídeos, pessoas podem simplesmente optar por acreditar em sua própria verdade particular.

No mês seguinte à minha visita, o time da “Ocean Legacy” teria transportado mais de 25 toneladas de detritos plásticos de volta ao continente. Muitas operações de limpeza colocam a maioria do que acham em um aterro, mas o time da Dubois ia reciclar e reutilizar todo seu transporte. O processo custaria meses de planejamento e coordenação, sem mencionar seis semanas de coleta e o trabalho de mais de duas dúzias de pessoas para desenrolar plástico do litoral. Todo dia, a mesma quantidade de plástico e mais era despejada no oceano – cerca de 20 caminhões basculantes. Como é desanimador perceber que todo o seu trabalho está sendo desfeito antes mesmo de terminá-lo. Será que ela já se sentiu frustrada por todo o seu esforço talvez não salvar o oceano? “Eu não fico frustrada por isso”, ela fala, “mas o pensamento é assustador. Torna-se mais assustador quando você pensa em todo o planeta. Existem provavelmente milhões de praias ao longo do mundo passando pelo mesmo problema que a Península Mquqwin.”

Podemos continuar a descartar plástico por séculos antes de acabar com todo o espaço disponível, ela aponta. Isso mostra o quão bom o oceano é em esconder nossos segredos. Comparado com a acidificação e o aquecimento, a poluição por plástico é um dos problemas mais visíveis que o oceano enfrenta porque quase todo mundo, todo dia, descarta algum pedaço de plástico. Isso torna difícil eliminar, mas também mais visível e acessível. Nós temos uma grande chance ao confrontar esse problema – porque o plástico está nas mãos de todos.

Eu guardei o dinossauro de brinquedo no meu bolso.


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