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Por dentro da escola florestal do orangotango, onde a primeira lição é sobrevivência

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Eles foram os sortudos: Robin, Amalia e Eska; três orangotangos órfãos, que não possuem ligação sanguínea, porém são ligados pela circunstancia, foram resgatados de um zoológico localizado na província de Kalimantan Oriental em Bornéu no início de 2017.

Um homem de negócios bem sucedido juntou uma coleção extensiva de animais – ursos, gibões, repteis, aves de rapina – e então se encontra com problemas. Quando o funcionário de Jejak Pulang, centro local de regate a orangotangos, chega ao local, o zoológico já estava sendo desmontado, com animais encaixotados esperando seus destinos incertos.

Eska, que tem 4 anos – pequena o bastante para sentar no colo – e seus colegas macacos percorreram sua jornada de 50 km até a base de Jejak Pulang na vila de Samboja, onde os funcionários haviam trabalhado a noite toda para finalizar as instalações próprias para a quarentena a tempo.

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Dentro de 12 meses, depois das primeiras chegadas, a organização recebeu mais cinco orangotangos órfãos, levando o número da Four Paws Forest School a oito.

Há dois anos, a primatologista Dra. Signe Preuschoft e sua equipe tem ensinado de maneira meticulosa esses jovens macacos como sobreviver na floresta tropical para eventualmente retornarem a selva.

Orangotangos são classificados como criticamente em perigo, seu número diminuiu por conta da destruição de seu habitat e o aumento de conflitos com humanos. Conservacionistas colocam o número que sobrou na selva de Bornéu entre 70.000 a 100.000.

Aproximadamente 350.000 hectares de floresta primária, atravessando a Indonésia, continuam a ser perdidos todos os anos. Mais recentemente, o coronavírus apresentou uma nova ameaça, com a preocupação de que pode afetar os macacos além dos humanos. Damai, de dois anos, antes um animal de estimação, chegou a Forest School esse mês, interceptado antes de ser jogado por seu dono – apesar dos receios de transmissão de Covid – 19.

Contra tais probabilidades, alguns podem questionar o fato do gasto de recursos escassos e energia em apenas alguns indivíduos. Mas em dar os melhores prospectos possíveis de sobrevivência, Preuschoft procura proteger não somente esses poucos sortudos, mas também seu habitat, e as muitas espécies que dependem dele.

Sua esperança é que ao usar a carência dos orangotangos dos seus cuidados como alavanca, ela possa garantir proteção a longo prazo de um fragmento precioso da floresta tropical para sua soltura. Então, eles podem servir como uma “espécie guarda-chuva”, fomentando a biodiversidade de seu ecossistema.

Ela chama essa estratégia de “conservação restaurativa”, a combinação do bem-estar do animal com o objetivo de conservação mais amplo. “Eu me preocupo que esteja sendo muito ambiciosa, mas não sei como fazer funcionar de uma maneira menos complexa” diz Preuschoft. “Se nós florearmos aqui e ali, não será o bastante”.

Preuschoft estudou psicologia em sua terra natal na Alemanha antes de perceber que macacos a interessavam mais do que seres humanos. Ela continuou seus estudos em Utecht e Atlanta, então em 2001 foi posta em Vienna, ajudando chimpanzés de laboratório a se recuperar dos traumas causados.

Ela mora em Kalimantan Oriental desde de 2009, supervisionando as iniciativas de reabilitação de orangotangos da organização internacional do bem-estar animal Four Paws, onde também é a base Jejak Pulang.

Preuschoft geralmente volta a Alemanha para visitar a família algumas vezes por ano, do contrário está totalmente dedicada a seus “filhos e netos” orangotangos. “Eu sigo os macacos” diz ela. Como os humanos, os orangotangos possuem “infâncias” longas, permanecendo próximos de suas mães-até mesmo se amamentam – até seus sete ou oito anos de idade.

Quando um jovem macaco chega a Jejak Pulang, as circunstâncias de sua separação, ou o tempo que foram mantidos cativos, geralmente não são claros. Gerhana chegou com oito meses de idade, próxima da morte por conta de desnutrição, mas já sabendo beber água direto da garrafa. Kartini, com pouco mais de um ano, era completamente da selva, se recusava a comer qualquer alimento que não fosse colhido da floresta. “Tivemos que adestrá-la para salvar sua vida”, diz Preuschoft. “Às vezes é um absurdo – você tem que ensiná-los coisas que você espera que nunca tenham que aprender”.

Sob supervisão em uma área florestal de 100 hectares (247 acres) protegida pelo governo, os orangotangos são ensinados como procurar comida, construir ninhos, navegar pelas coberturas da floresta, e outras habilidades de sobrevivência.

A estratégia do Jejak Pulang é “orangotizar os humanos, não humanizar os orangotangos”, o que significa treinar todos os funcionários a subir em árvores (por arboristas profissionais), tecer ninhos com galhos e conhecer as frutas da floresta.

“Leva anos até todos os cuidadores acumularem o conhecimento essencial”, diz Preuschoft. Esse equilibro – os orangotangos devem aprender com os humanos, mas somente as lições certas – pode ser desafiador para alcançar.

Katini desenvolveu recentemente uma aversão a comer larvas ricas em proteínas, o que sugere a Preuschoft que um cuidador uma vez traiu seu próprio nojo: “se sua mãe tem fobia de aranhas, você também não vai gostar de aranhas”.

Os quatro “bebês” também aprenderam a dar comida simplesmente por receberem sua comida, colocando pedaços (“geralmente aqueles que eles menos gostam”, observa Preuschoft) direto na boca de seus cuidadores.
Eles nunca aprenderiam a fazer isso com uma mãe macaco, ela diz. “É um gesto muito amigável, parte da linguagem dos seres humanos que eles adotaram”.

Mas a identificação com humanos do que com outros macacos pode ser fatal na selva. Depois de Kartini ser adestrada para aprender, ela então terá de se tornar selvagem novamente.

Quanto mais os bebês crescem, a interferência dos cuidadores é minimizada para encorajar sua independência. E para medir seu progresso é tido como referência os macacos selvagens. Somente Robin- o mais velho dos três achados- foi julgado como despreparado para soltura.

“Isso não significa que ele não pode aprender a ser um orangotango, significa que ele não pode nunca desaprender as coisas que chamamos de ‘humanizadas’”, diz Preuschoft. O risco de ele se sentir atraído a voltar a civilização seria muito grande. Anos atrás, Preuschoft foi chamada três vezes para resgatar um orangotango em um campo madeireiro. Ele foi socializar com os humanos, ser alimentado, e até tomar café. Na terceira vez que foi buscá-lo, ele estava com a mandíbula quebrada.

“É uma afinidade perigosa”, diz ela. “A similaridade que nos intriga, e tenho certeza que intriga os orangotangos da mesma forma – é a coisa que coloca suas vidas em perigo”.

As ameaças a sua sobrevivência podem parecer assustadoras às vezes, admite Preuschoft, desde o consumismo e perda da conexão com a natureza a perigos mais imediatos, como limpeza de terras para minas e estradas, plantações e caça predatória.

Mais desafios estão por vir. Ano passado, o governo anunciou seu plano de realocar o centro burocrático da Indonésia, de Jakarta para a relativamente selvagem Kalimantan Oriental – e com ele mais estimadamente 1.5 milhões de civis.

Agora, o coronavírus forçou medidas de precaução adicionais, como a lavagem dos alimentos dos orangotangos, estocagem de materiais de limpeza e separação de seus cuidadores em grupos menores – diminuindo as chances de passar o vírus para os animais vulneráveis.

Contato humano com orangotangos na Forest School sempre foi estritamente limitado a suas mães substitutas, por conta do risco de transmissão entre espécies. Mas “os mais novos ainda precisam do contato amoroso e conforto quando estão assustados”, diz Preuschoft. Uma semana depois de sua chegada, Damai já desenvolveu uma forte conexão com sua veterinária na estação de quarentena.

Os macacos mais velhos, Amalia e Eska, já são praticamente independentes, optando por dormir algumas noites por semana na floresta e caçando sua própria comida. Antes da pandemia, Preuschoft esperava que eles se “formassem” no começo desse ano na “Forest Academy”, vivendo com alguma supervisão na área protegida onde eventualmente seriam soltos.

Esse monitoramento se estenderia até Preuschoft ficar satisfeita com os macacos sendo totalmente autossuficientes. “Nós gostaríamos de ter certeza que quando eles desaparecerem, eles saberão o que estão fazendo”.
Preuschoft diz que a “soltura aos poucos” é embasada na literatura cientifica que mostra que os orangotangos se desenvolvem gradualmente. “Para mim, a soltura é um processo, não um evento”.

Dos aproximados 2.000 macacos que são reintroduzidos a selva em Bornéu desde meados de 1960, o destino da maioria não é conhecido, tendo em vista que rastreá-los além de seus dois anos de soltura é difícil e caro.
Alguns ainda são atraídos para os humanos quando retornam a selva, acredita Preschoft. Ela vê suas medidas de sucesso não somente para devolver orangotangos a selva, mas para “maximizar sobreviventes, e maximizar a felicidade deles durante o processo”.

O foco de Preschoft no bem-estar do indivíduo é considerado polêmico por alguns colaboradores do tão chamado modelo preventivo de conservação, que foca na proteção de ecossistemas atualmente intactos.

“A diferença é na importância que cada indivíduo tem- este é o conceito que tentamos amalgamar”, diz Preuschoft. “Nós usamos a biografia individual para que as pessoas saibam o que a extinção de uma espécie significa”.

Se reabilitação e reintrodução fazem parte da proteção de uma espécie, elas são muito pouco consideradas. Um argumento utilizado em apoio delas é que a extinção é um processo que deixa o animal órfão, abandonado, ou em necessidade de ajuda imediata; e muitos veem as alternativas – deixa-lo para morrer, eutanásia, ou cativo para o resto de sua vida – como inaceitáveis.

“Devemos lembrar que extinção significa sofrimento”, diz Preuschoft. “Significa mutilação, doenças, viver com medo, morte, presenciar a morte de um filho”.

Mas mesmo que não existisse a questão da chegada dos orangotangos órfãos, Preuschoft acredita que já é tarde para considerar salvar o habitat dos orangotangos sozinha.

Em 2007 o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, The Last Stand of the Orangutan, reportaram que a espécie possui “um risco de extinção na selva extremamente alto no futuro próximo”.

Nada mudou, diz Preuschoft. “O que isso nos diz é que somente medidas preventivas não podem salvar a espécie. Isso não é uma justificativa – mas um dever”.

Seu senso de compromisso com os macacos que passaram por seus cuidados pode estender décadas, ela concorda – até mesmo por todas suas vidas. Já que Preuschoft prevê a possibilidade de interver e talvez tornar a caprichosa Amalia em avó (“ela não tem mostrado um comportamento muito maternal”).

Por enquanto, o desafio é garantir um local de solturas. Preuschoft identificou uma área de 25 hectares a aproximadamente 200 km da Forest School, próximo à fronteira com Kalimantan Central, onde ela espera que seja protegida. “No clima atual, qualquer hectare que protegemos é um benefício”, diz ela.

É um “trabalho horrível”, ela complementa, “coletar indivíduos e ajudá-los” ainda que a espécie continue a ser extinta. “Não me deixo iludir. Não penso que vou impedir que o dilúvio aconteça sozinha”. Mas ao entregar animais competentes a selva, ela diz, “nós passaremos a tocha para os conservacionistas que trabalham para preservar o habitat – ‘agora é com vocês’”.

“O importante é, nós temos esperança. Não sou super humana- não poderia fazer isso se não tivesse esperança”.


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