Estudo

Novo vírus gerado pela exploração de porcos para consumo pode desencadear pandemia

Uma nova cepa do vírus influenza foi encontrada em porcos na China. A doença tem uma eficiente capacidade de infecção e transmissão pelo ar, segundo cientistas

Foto: Tommaso Ausili. World Photo
Foto: Tommaso Ausili. World Photo

Cientistas chineses encontraram no país um novo vírus da gripe em porcos explorados para consumo humano. Eles alertaram para o risco de uma nova pandemia mundial surgir já que o vírus, semelhante ao da pandemia de 2009, tem características que facilitam o contágio humano.

A exploração animal está intimamente ligada ao surgimento de vírus capazes de adoecer e matar seres humanos, inclusive em larga escala – como mostra o coronavírus, que surgiu em um mercado de venda de animais vivos e mortos na China e já matou mais de meio milhão de pessoas no mundo, sendo mais de 58 mil no Brasil.

O estudo chinês, publicado na última segunda-feira (29) na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS, na sigla em inglês), da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, expôs ao mundo a existência de uma nova cepa do vírus influenza, denominada G4 EA H1N1.

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O novo vírus da gripe apresenta traços do vírus encontrado em aves eurasiáticas e possui uma linhagem tripla composta por genes aviários, humanos e suínos. Os pesquisadores concluíram, após pesquisa, que o vírus G4 EA H1N1 entra em contato com receptores do tipo humano, multiplicando-se em alto nível nas células epiteliais das vias aéreas humanas. Ainda segundo os cientistas, a doença tem uma eficiente capacidade de infecção e transmissão pelo ar.

“Essa infecciosidade aumenta muito a oportunidade de adaptação de vírus em humanos e suscita preocupações pela possível geração de vírus pandêmicos”, explicaram os cientistas à BBC News.

A linhagem do vírus, que cruza genes de outras espécies, prova ainda que a imunidade preexistente em humanos não é capaz de proteger o organismo contra o G4 EA H1N1.

Foto: Igualdad Animal

Os pesquisadores submeteram 338 trabalhadores que tiveram contato com os porcos a exames sorológicos e o resultado é preocupante: 10,4% deles testaram positivo para o novo vírus da gripe.

Os porcos, segundo os cientistas, “são hospedeiros intermediários para a geração do vírus da gripe pandêmica”. Por isso, observar o vírus nesses animais “é uma medida fundamental para avisar o surgimento da próxima gripe pandêmica”.

“No momento, estamos distraídos com o coronavírus e com razão. Mas não devemos perder de vista novos vírus potencialmente perigosos”, disse Kin-Chow Chang, um dos autores do estudo, em entrevista à BBC.

O pesquisador abordou ainda a importância de não ignorar a existência do novo vírus da gripe, porque ele poderia sofrer uma mutação ainda maior e se espalhar entre humanos com facilidade, gerando uma pandemia mundial.

Em junho de 2009, a Organização Mundial da Saúde (OMS) admitiu a existência de uma pandemia da chamada gripe suína após a doença se espalhar pela América do Sul, Europa e Austrália. O surto durou até agosto de 2010, quando especialistas da OMS reconheceram que o vírus foi controlado, passando a se comportar como outras doenças localizadas. No Brasil, foram registrados 50.482 casos e 2.060 mortos pelo vírus influenza.

Com 50% de taxa de mortalidade, gripe aviária é identificada na China

A pandemia atual de coronavírus e o possível futuro surto de gripe suína, alertado pelo estudo chinês, não são as únicas preocupações. Em fevereiro, uma cepa altamente patogênica da gripe aviária, o H5N1, gerou um surto na província chinesa de Hunan.

(Foto: Reprodução/Mercy For Animals)

Com taxa de mortalidade de 60%, segundo a OMS, a doença apresenta sintomas como tosse, diarreia, febre, dor de cabeça, coriza, dor de garganta e dores musculares. No entanto, não foram confirmados até o momento casos de humanos contaminados pelo surto da H5N1, que atingiu as aves.

Com taxa de mortalidade superior a 50%, a gripe aviária mata mais do que a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), também conhecida como pneumonia atípica, que tem taxa de 10%. Para se ter noção da gravidade da situação, o coronavírus, que tem se alastrado rapidamente e matado milhares de pessoas, tem taxa de mortalidade de 2%.

Exploração animal

Estudos e especialistas têm exposto, há décadas, a relação entre exploração animal e o surgimento de vírus. Conforme explicou a veterinária e consultora da ANDA, Dra. Rita Leal Paixão, “milhões de animais encarcerados em péssimas condições favorecem a propagação dos micro-organismos que acabam por ultrapassar a barreira das espécies”.

A especialista abordou não somente o coronavírus, que atualmente tira milhares de vidas humanas pelo mundo, mas também outras doenças, inclusive a gripe suína, que teve uma nova cepa descoberta pelos pesquisadores chineses. “A Covid-19, assim como as últimas pandemias e epidemias, gripe aviária, gripe suína, MERs, etc, estão de alguma forma associadas a consumo de produtos de origem animal. É momento de se considerar seriamente o fim de certos hábitos. A exploração animal e a exploração humana caminham no mesmo sentido”, reforçou a veterinária ao incentivar a adoção do veganismo como forma de se opor a essa realidade alarmante.

Foto: Reprodução/World Animal Protection

A afirmação da veterinária é reforçada pelo médico e especialista em nutrição vegetariana estrita Michael Greger, que disse que o crescimento de fazendas industriais que exploram animais para consumo está criando condições para o surgimento de novos vírus mortais e pandemias.

“Se você deseja criar pandemias catastróficas, construa fazendas industriais. Quando você compila milhares de animais cronicamente estressados ​​em instalações internas lotadas e imundas, cria um coquetel para um vírus mortal”, disse Michael Greger em um comunicado enviado ao Plant Basead News.

A exploração de animais silvestres – seja para consumo, diversão sádica por meio da caça ou captura para aprisionamento em cativeiro – e a destruição da natureza também colaboram para o surgimento de vírus com potencial pandêmico. A conclusão, compartilhada por autoridades e instituições como a OMS e a ONU, é de um estudo da UC Davis School of Veterinary Medicine, na Califórnia, que avaliou 142 vírus transmitidos de animais para humanos.

Caçar animais e destruir florestas, segundo a pesquisa, eleva drasticamente a propagação de vírus e outros micro-organismos infecciosos. De acordo com a professora de Epidemiologia da UC Davis, Christine Kreuder, “a disseminação de vírus de animais é um resultado direto de nossas ações que envolvem a vida selvagem e seu habitat”.

O biólogo Frank Alarcón concorda, mas lembra que o contágio humano, no entanto, não se dá apenas por conta da exploração imposta às espécies silvestres. Alarcón reforça que há doenças que contaminam os humanos devido à exploração de animais domesticados e cita como exemplo a gripe aviária, que atinge frangos e pessoas.
Foto: Tommaso Ausili. Trend Hunter
“Uma nova zoonose surge quando um patógeno para uma especie definida encontra condições biológicas perfeitas para saltar até uma outra espécie. Neste novo hospedeiro, o patógeno poderá encontrar um ambiente bioquímico ótimo que lhe permitirá invadir e utilizar-se das engrenagens moleculares das células infectadas”, explicou o biólogo.

O contágio, lembra ele, pode acontecer por conta de práticas que colocam “em contato íntimo e profundo animais humanos e animais não humanos”, como a agropecuária.

“A criação de animais para qualquer fim cria condições artificiais muito propícias para imenso estresse fisiológico e psíquico de animais aglomerados e confinados, grande insalubridade dos trabalhadores que manuseiam esses animais, favorecimento de contato íntimo e profundo de animais aprisionados a organismos que eles jamais encontrariam em circunstâncias naturais. Nos mercados, nas fazendas, nos frigoríficos, tanques, aquários, zoológicos, exposições, animais são reunidos e apinhados em grande número. Todos esses animais encontram-se estressados, doentes, morrendo ou já mortos, sendo muitas vezes misturados indiscriminadamente”, reforçou o biólogo, que concluiu dizendo que o surgimento de novos vírus e pandemias, no entanto, não se restringe à China, onde surgiu a Covid-19, já que “o mundo ocidental inteiro aprisiona, explora e mata animais por motivos absurdos”.


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