Abusos

Ex-funcionário de matadouro denuncia más condições de trabalho: ‘eu ouvia colegas chorando de dor’

A exploração animal e humana caminham lado a lado, tornando pessoas e animais vítimas de um sistema cruel

REUTERS/Paulo Whitaker/Imagem Ilustrativa
REUTERS/Paulo Whitaker/Imagem Ilustrativa

O ex-funcionário do maior matadouro da Alemanha denunciou, em entrevista ao jornal Deutsche Welle, as más condições de trabalho as quais foi submetido. Dentre as situações de abuso as quais foi submetido, estão horas extras exaustivas e não remuneradas e alojamentos lotados. Ouvir colegas chorando de dor à noite também fazia parte da rotina.

A exploração animal e humana caminham lado a lado. Abusos e até trabalho escravo são situações recorrentes em matadouros, não só na Alemanha, mas em todo o mundo. Em uma pesquisa rápida no Google, denúncias e condenações de matadouros brasileiros que expuseram seus funcionários a condições deploráveis são encontradas aos montes.

Em 2007, funcionários do matadouro Bertin, em Campo Grande (MS), denunciaram quatro vezes que estavam sendo forçados a executar jornadas excessivas de trabalho. Eles trabalhavam 15 horas diárias para dar conta de matar 1,8 mil bois explorados para consumo. A Seara, marca conhecida do consumidor brasileiro, foi condenada em R$ 25 milhões para recuperar trabalhadores lesionados.

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No ano passado, a Justiça condenou um matadouro de Pirapozinho, no interior de São Paulo, a pagar aos funcionários mais de R$ 4,5 milhões por danos morais, coletivos (R$ 400 mil) e individuais (R$ 5 mil para cada um dos 824 trabalhadores). A condenação se deu após eles serem coagidos em relação ao voto nas eleições presidenciais. “Violação do direito fundamental do trabalhador à livre orientação política”, afirmou a Juíza Kátia Liriam Pasquini Braiani, da 2ª Vara do Trabalho de Presidente Prudente.

Uma das mais famosas marcas brasileiras no ramo do comércio de carne, a JBS é alvo de diversos processos trabalhistas. Em um deles, a empresa foi processada em R$ 5 milhões por abusos e violações trabalhistas em Mato Grosso.

Os matadouros também lideram o ranking de acidentes de trabalho no ramo alimentício do país, com média diária de ocorrências acima de 50 vítimas. Além disso, um levantamento feito pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – órgão que não existe mais, por ter sido extinto pelo presidente Jair Bolsonaro – mostra que a agropecuária é a principal responsável pelo trabalho escravo no Brasil.

A negligência com os trabalhadores desse setor é tamanha que eles foram, em várias partes do Brasil e do mundo, focos centrais de coronavírus. Sem cuidado com os funcionários, as empresas foram responsáveis pela contaminação de muitos deles.

Só no Rio Grande do Sul, pelo menos 12 matadouros registraram surtos de Covid-19. Em maio, de acordo com um boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Saúde, foram confirmados 250 casos entre funcionários do setor, que expôs cerca de 20 mil trabalhadores à doença. No Brasil todo, segundo estimativas divulgadas em maio pelo Ministério Público do Trabalho, 21 matadouros tiveram casos confirmados de coronavírus.

Em outros países não foi diferente. Nos Estados Unidos, 93 trabalhadores de matadouros morreram após contrair a doença. Na Alemanha, ao menos quatro matadouros registraram surtos de coronavírus, incluindo o estabelecimento do Grupo Tönnies no qual trabalhava o homem que concedeu entrevista ao jornal Deutsche Welle sob condição de anonimato. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

DW: Muitos relatórios sobre as condições de trabalho na indústria da carne falam de horas extras não remuneradas. O senhor passou por isso? Quanto tempo durava um dia de trabalho?

Ex-trabalhador do Tönnies: Trabalhei dois anos no Tönnies como terceirizado. Raramente acabávamos o trabalho nas oito horas acordadas. Muitas vezes eram 12 ou até mesmo 13 horas. Anotávamos as horas extras, mas, no final, elas não apareciam no holerite.

DW: Como eram as condições de trabalho?

Era muito frio e úmido, e as esteiras andavam muito rápido. Ouvi colegas chorando no alojamento à noite porque estavam com dores terríveis, suas mãos estavam inchadas. Mas a gente se apoiava e dizia: “aguenta firme.”

Um amigo meu vivia me pedindo para trazê-lo junto. Ele queria trabalhar na Alemanha de qualquer jeito, e eu lhe disse: “traga dinheiro suficiente para pagar uma passagem de volta para casa”. Foi um bom conselho, porque depois de um único dia no Tönnies, meu amigo não aguentou e voltou à Romênia.

DW: Havia fiscalizações regulares?

Quando os fiscais vinham, a velocidade da esteira era diminuída, tornando o nosso trabalho mais leve. Mas era sabido quando haveria fiscalização. Por que não se fiscaliza sem avisar antes? Aí os fiscais poderiam ver qual era realmente a situação.

DW: Como operário, o senhor foi instruído para tais fiscalizações?

Disseram para não falarmos nada: “quando a fiscalização chegar, digam que não falam alemão.” Apesar de alguns de nós falarem.

DW: A empresa exerceu algum tipo de pressão sobre o senhor?

Sim. Quando estávamos doentes, era muito ruim. Os supervisores gritavam que não deveríamos aparecer com atestados médicos. Uma vez, quando eu estava bem resfriado, o que acontecia facilmente por trabalharmos no frio, gritaram comigo, e isso bastou para mim. Foi quando eu parei.

DW: Os superiores diretos eram alemães ou vinham do Leste Europeu?

O chefão era alemão, mas o encarregado da linha de montagem era romeno, porque tinha de traduzir. A maioria dos trabalhadores não falava alemão. Esses supervisores eram na sua maioria romenos que tiveram a sorte de ter aprendido alemão na escola. Recebiam ordens de seus superiores para se certificarem de que as pessoas não apresentassem atestados médicos para não trabalhar.

DW: Quais eram as condições no seu alojamento?

Alguns dos alojamentos em que fiquei eram muito limpos, mas nem todos. Era sempre muito apertado, às vezes moravam 10, 12 ou até 14 pessoas num único apartamento. O aluguel era de 200 euros por mês por pessoa. Os edifícios pertenciam às empresas terceirizadas. Um empresário romeno, por exemplo, comprou um edifício inteiro com a ajuda de um empréstimo no banco e depois alugou os apartamentos aos trabalhadores. Mas não é justo colocar tantas pessoas num único apartamento!

DW: Então o senhor vê as empresas terceirizadas como o principal problema?

Sim. Um amigo meu é empregado diretamente por um frigorífico alemão e não enfrenta problemas. Ele não tem medo quando vai trabalhar. Ninguém grita com ele, ninguém o insulta. Esperamos que o projeto de lei para acabar com a terceirização no setor seja aprovado no Bundestag.

DW: O senhor tem contato com antigos colegas que ainda trabalham para o Tönnies?

Sim, com dois colegas que estão agora em quarentena. Eles contaram ter recebido comida e água suficientes. Mas estão muito apreensivos, não sabem como as coisas vão continuar. Um deles tem tido problemas de saúde há muito tempo, mas ele diz estar bem – pelo menos por enquanto.


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