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Covid-19 traz a chance de construir um futuro com baixa emissão de carbono

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O ar está limpo e fresco, os peixes reapareceram nas vias urbanas, os pássaros estão frequentando jardins sem podas, os mamíferos selvagens estão vagando pelas cidades, e as emissões de gases de efeito estufa provavelmente cairão 8% sem precedentes este ano. A natureza claramente se beneficiou de vários meses de atividade econômica drasticamente reduzida.

Do ponto de vista da crise climática, essa queda das emissões é surpreendentemente próxima da redução anual de 7,6% nas emissões que os cientistas recomendaram que será necessária durante a próxima década. E, no entanto, nada disso é motivo de comemoração.

“Mais surpreendentes são as indústrias com intensivas emissões de carbono, que confirmam que continuarão a descarbonizar apesar da pandemia”

A resiliência da natureza é temporária e durará apenas enquanto o isolamento for imposto. Mais importante ainda, a redução de gases de efeito estufa não é o resultado da descarbonização da economia, mas a consequência, não intencional, da paralisação econômica que trouxe consequências humanas dolorosas e custos enormes para a vida e os meios de subsistência.

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Isso não é abordar a crise climática. A redução ponderada dos gases de efeito estufa deve ser intencional, não circunstancial, deve ser sustentada, não temporária. Acima de tudo, deve levar à melhoria do bem-estar humano, não ao sofrimento humano ou econômico.

Existe uma segunda ligação inadvertida entre a crise climática e a pandemia do coronavírus que talvez seja menos examinada. Os pacotes de recuperação projetados e implementados pelos governos para resgatar a economia global podem subir até US$ 20 bilhões nos próximos 18 meses. A escala desse estímulo moldará os contornos da economia global na próxima década, se não mais.

Esta é exatamente a década em que os cientistas climáticos alertaram que as emissões globais precisarão ser reduzidas pela metade para alcançar uma trajetória sustentável. No meio da crise causada pela pandemia, há uma oportunidade: garantir que os pacotes de resgate não recuperem apenas a alta economia de carbono de ontem, mas ajudem-nos a construir uma economia mais saudável, com pouco carbono, alta resiliência e centrada no bem estar do ser humano.

O argumento de reconstruir nossas economias de acordo com as metas ambientais tem amplo apoio público. Uma pesquisa recente da Ipsos Mori mostra que 71% da população global entende que a mudança climática é uma crise tão séria quanto a Covid-19, e 65% acha que a primeira deve ser priorizada na recuperação econômica. Isso não apenas nos países industrializados que podem mais facilmente esverdear suas economias; 81% dos cidadãos da Índia e 80% das pessoas do México também eram fortemente a favor de uma recuperação econômica verde e saudável.

Uma das primeiras instituições a pedir essa abordagem dupla foi a Agência Internacional de Energia, que publicará um relatório este mês detalhando políticas que os governos poderiam adotar para traçar o curso de recuperação, enquanto descarbonizam suas economias. Enquanto isso, o Fundo Monetário Internacional não está apenas aconselhando que os pacotes de estímulo fiscal sejam baseados em medidas ecológicas, mas também recomendando a eliminação dos subsídios de combustíveis fósseis, e a tributação do carbono.

Um número crescente de líderes corporativos também está exigindo que os pacotes de estímulo do governo tenham linhas verdes atreladas. No Reino Unido, a chamada de um grupo de grandes líderes empresariais ao governo para adotar uma recuperação verde foi respondida pela declaração do primeiro-ministro, de que o compromisso do Reino Unido em entregar zero emissões líquidas “permanece inalterado”.

Na Europa, 180 líderes empresariais, formuladores de políticas e pesquisadores insistiram com urgência, explicitamente, que a UE a crie o pacote de recuperação em torno do “Green Deal” (Acordo Verde). Enquanto isso, o governo espanhol lançou recentemente um projeto de lei que proíbe todos os novos projetos de carvão, petróleo e gás, estabelecendo a direção do esforço de recuperação do Covid-19. No Canadá, mais de 320 signatários, representando mais de 2.100 empresas, assinaram contrato para apoiar uma recuperação resiliente.

Talvez mais surpreendentes são as indústrias com intensivas emissões de carbono, que confirmam que continuarão a descarbonizar apesar da pandemia, incluindo BP, Shell, Daimler e Rio Tinto. Em outros lugares, oito grupos de investimento, incluindo o BNP Paribas Asset Management, o DWS e o Comgest Asset Management, pressionam as empresas a manter seu foco na descarbonização enquanto lidam com as consequências da recessão. A Net Zero Asset Owner Alliance, um grupo de investidores institucionais que representam mais de US $ 4,6tn em ativos sob gestão (AUM), permanece comprometida com uma “mudança irreversível para uma economia resiliente, líquida-zero e inclusiva”. E a BlackRock, a maior administradora de ativos do mundo, com US $ 7,4 bilhões de dólares americanos, prometeu punir os diretores de empresas que não gerenciarem os riscos ambientais em 2020.

Mas nem tudo são boas notícias. Para todos os atores corporativos que demonstraram compromisso em tornar a economia mais ecológica, muitos não aderiram a esses valores. Alguns usaram a crise como uma oportunidade para reverter compromissos ambientais ou promover projetos e leis controversas. As empresas de plástico nos EUA fizeram lobby para reverter as leis de “plástico de uso único”, enquanto três estados criminalizaram protestos ambientais.

Na Europa, os fabricantes de automóveis estão pressionando para diminuir os padrões de emissões; globalmente, as companhias aéreas estão pressionando para parar de usar 2020 como um ano de referência, e a China anunciou que afrouxará a legislação ambiental para impulsionar a recuperação pós-coronavírus.

É o momento de levantar vozes em todos os lugares e lembrar aos líderes sua principal responsabilidade: proteger seus cidadãos e colocar o bem-estar humano no centro do processo de tomada de decisão. Parte disso já está acontecendo. Organizações representando mais de 40 milhões de profissionais de saúde de 90 países em todo o mundo acabaram de publicar uma carta aberta aos líderes do G20 e seus principais consultores médicos em apoio a uma “recuperação saudável”, onde as emissões de carbono seriam massivamente reduzidas.

As crises são um momento de ruptura e mudança. Em meio à pandemia, enfrentamos uma escolha entre recuperar a economia global intensiva em carbono que nos colocou no caminho da degradação ambiental, ou acelerar a transição para um futuro que prioriza a saúde das pessoas e do planeta.
Hoje, esse futuro pode estar mais próximo ao nosso alcance do que era no início de 2020.

* Christiana Figueres foi chefe da convenção da ONU sobre mudança climática que alcançou o acordo de Paris em 2015, e é coautora de “The Future We Choose” (O Futuro que Escolhemos).


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