Artigo

As crises e o meio ambiente

Imagem de uma trilha de trem em meio a um campo
Pixabay
A Terra não é um ser morto, inerte e mudo,
senão um eloquente ser vivo, um organismo vivente,
…Hoje nos dedicamos a explorá-la brutalmente,
a desgastar a sua base, a destruí-la por completo.
…Essas catástrofes naturais são a furiosa resposta
da Terra à falta de escrúpulos e à violência humana.
Byung-Chul Han – “Loa a la Tierra”

Nestes tempos que vivemos aflitos pelo confinamento, a incerteza e o medo. Relembramos o Dia Mundial do Meio Ambiente em meio à profunda crise sanitária, econômica e civilizatória, resultado da devastação e degradação do planeta Terra e sua natureza.

A ordem mundial imposta pela noite do neoliberalismo não admite ser outra coisa do que é, esta realidade se impõe de tal modo que só cabe acomodar-se a ela ou construir alternativas antissísmicas.

Imagem de uma trilha de trem em meio a um campo
Pixabay

E são as crises, sobretudo a pandemia do coronavírus, a manifestação do sintoma de que o modelo de sociedade que começou a se impor a nível mundial a partir do século XVII está chegando a sua etapa final, disse Boaventua de Souza Santos em “La Cruel Pedagogia del Virus”.

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Neste livro de ensejo, publicado recentemente na Espanha, Souza afirma que a quarentena causada pela pandemia é, depois de tudo, uma quarentena dentro de outra. Superaremos a quarentena do capitalismo quando formos capazes de imaginar o planeta como nosso lugar comum e a natureza como nossa mãe original, a qual devemos amor e respeito. Não nos pertence. Nós pertencemos a ela.

Este modelo também está levando a humanidade a uma catástrofe ecológica, que se traduz na morte desnecessária de muitos seres vivos na Mãe Terra, nosso lugar comum, tal como defendem os povos indígenas e campesinos de todo o mundo. A espécie humana é uma parte microscópica (0,01 por 100) dos seres vivos que habitam no planeta.

Contra isso, destaco as seguintes ideias: a necessidade de redimensionar a relevância profunda que tem a relação da espécie humana com a natureza, e a segunda, voltar nosso olhar a outras noções de desenvolvimento, que não sejam as quais a modernidade ocidental nos deixou.

I

É importante que, para os tempos que se aproximam e para a nova ordem de convivência social que temos que construir, partamos da ideia inicial que todas as sociedades dependem completamente do meio ambiente, dos serviços ecossistêmicos gerados pela natureza que vão muito além da fixação de carbono nas arvores e a geração de oxigênio.

As filtrações de água e os polinizadores são cada vez mais escassos e anunciam as próximas crises que são as do abastecimento de água e a mudança climática.

É necessário gerar movimentos de difusão sobre esses problemas ambientais e de proteção das últimas defesa da biodiversidade que nos restaram, pois segue avançando a destruição da natureza e a extinção das espécies, cujos resultados são irreparáveis.

Alguns estudos alertam que passarão mais de 300 anos para que voltemos a ter selvas outra vez. Enquanto a perda de espécies é completamente irreversível.

Gerardo Ceballos – na conferência ministrada na semana do meio ambiente em tempos de pandemia, organizada pelo Colégio Nacional e coordenada por Julia Carabias de 1 a 5 de junho de 2020 – indica que nos próximos 20 anos se extinguirão cerca de 500 espécies de animais.

Contra este panorama, é necessário refletir e gerar conhecimento sobre a relação entre a primeira pandemia do século XXI e a deterioração dos ecossistemas planetários.

Pergunta-se sobre a relação de cuidado e contínuo desmatamento, a Defaunação. Quer dizer, a extinção ou diminuição da fauna silvestre com o que estamos vivendo. Assim como a importância de políticas públicas para criar um marco favorável à proteção do meio ambiente.

Rodolfo Dirzo, na mesma semana do meio ambiente, refletiu sobre um feito dramático e comprovado; disse que vivemos a era do Antropoceno, um conceito que se refere a uma nova idade geológica na qual a atividade e a presença da espécie humana conseguiu modificar e impactar, desfavorecendo os sistemas ecológicos do planeta.

O desmatamento, a defaunação, a contaminação global, e a mudança climática são algumas das marcas mais evidentes do Antropoceno. É o ser humano o principal detonador das pandemias, fenômenos em que pela primeira vez na história da Terra apenas uma espécie conseguiu modificar as condições do planeta inteiro. Não coloquemos a culpa da pandemia na fauna, se queremos encontrar um culpado temos que nos olhar no espelho: somos cada um de nós.

Por sua parte, escreve o filosofo Byung-Chul Han em seu livro mais recente: o desaparecimento de rituais, afirma que “a pandemia é a consequência da intervenção brutal do ser humano. Os efeitos da mudança climática serão mais devastadores que a pandemia. A violência que o ser humano exerce contra a natureza está se voltando contra ele, com mais força. Nisso consiste a dialética do Antropoceno: na chamada Era do Ser Humano, o mesmo está mais ameaçado do que nunca.”

Na introdução à metafisica, Heidegger apresenta um panorama preocupante sobre a destruição da terra, ao alertar que: “A decadência espiritual da Terra avançou tanto que os povos estão em perigo de perder suas ultimas forças intelectuais, as únicas que permitiram ver e apreciar tão somente como a tal decadência (entendida em relação com o destino do ‘ser’). Essa simples constatação não tem nada a ver com um pessimismo cultural, ainda que certamente tampouco com o otimismo, porque o escurecimento do
mundo, a ruína dos deuses, a destruição da terra, a massificação do homem, o ódio que desconfia de qualquer ato criador e livre, alcançou uma dimensão tal que categorias tão infantis como o pessimismo ou otimismo se voltaram ridículas já há muito tempo”.

Na relação do homem com a natureza, disse Badiou na “Acerca del Fin”, tem a Terra como pátria, no sentido de raiz, de lugar do qual constitui a união com o ser. Pátria natural ou natureza como pátria.

II
Quando falo de voltar ao olhar a outras noções de desenvolvimento e progresso, refiro-me a abandonar a ideia ocidental do conhecimento e da cultura, a descolonizar o pensamento e a reconhecer a importância de incorporar os saberes de civilizações antes da colonização.

Nos povos originais não existe um término equivalente que traduza o conceito de natureza nos términos ocidentais. Porém, existe uma energia dada a continuidade dos espaços da vida, isto é, a esfera onde se movem e coexistem as dinâmicas existenciais, o espaço percebido ou não onde as coisas acontecem. É também um símbolo sagrado.

Disse Enrique Leff em “Aventuras da Epistemologia Ambiental”. Da articulação das ciências ao dialogo de saberes, que tem que deixar fluir a seiva de um pensamento que abra novas conexões para que reguem o território de uma epistemologia ambiental, que construa os caminhos do impensável pela racionalidade modernizadora, e permita escutar as rimas harmônicas que surgem da palavra, dos mundos diversos para provocar
um dialogo de saberes tão necessários nos tempos de globalização e modernidade.

Ao longo dos anos os povos descendentes das grandes civilizações como a Maia, foi conservado e resguardado os saberes tradicionais sobre a flora e a fauna e é hora de aprofundar o diálogo de saberes interculturais, sobre tudo em estados nos quais a diversidade étnica, cultural e natural é abundante, como são Chiapas e Oaxaca.

Espero que depois que melhore a pandemia não tenhamos amnésia histórica, que não enterremos nosso ouvido às causas que estão originando essas crises, que enfrentemos o rosto sombrio desse passado/presente doloroso e que juntos contenhamos a desintegração da nossa morada, que nos reconciliemos com a natureza e entendamos que também é um ser vivo, que o protejamos junto com todas as espécies vivas com as que coabitamos no planeta Terra.

Será possível realizar?


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