Crueldade

Animais são explorados em testes de vacina contra a Covid-19

Três formulações da vacina estão sendo testadas em camundongos submetidos a sofrimento pela ciência

Pixabay/Tiburi
Pixabay/Tiburi

Animais estão sendo explorados em testes científicos de uma vacina contra a Covid-19. O estudo entrou em uma fase denominada pré-clínica, na qual os pesquisadores fazem experimentos com camundongos, espécie comumente explorada e submetida a sofrimento pela ciência.

O projeto é realizado Faculdade de Medicina da USP e pelo Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Após a fase pré-clínica, a vacina será testada em humanos. No momento, três formulações da vacina estão sendo testadas nos camundongos. Diversas outras também estão sendo formuladas, segundo cientistas envolvidos no projeto.

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Exploração animal

Camundongos – e qualquer outro animal – existem por propósitos próprios. Eles não estão no mundo para servirem aos desejos humanos, tampouco para serem submetidos a sofrimento para solucionar problemas de saúde das pessoas.

A situação se torna ainda mais antiética quando observamos que o vírus surgiu justamente por conta da exploração animal. Especialistas fazem alertas há tempos sobre a relação entre explorar, aprisionar, submeter a local insalubre e matar animais para consumo e outras práticas. Essa matança, porém, continua, assim como a devastação da natureza, que também contribui para que esses vírus, antes mantidos em florestas com ambientes equilibrados, cheguem aos humanos.

Prender animais em gaiolas, furá-los com agulhas, injetar neles substâncias – que muitas vezes os adoecem – e matá-los, direta ou indiretamente, é cruel. Quando se faz isso para solucionar um problema de saúde gerado pela exploração imposta aos animais pelos humanos, a crueldade é dobrada. Já que é inaceitável que se explore um animal para tentar resolver uma questão gerada justamente por uma exploração animal anterior.

Além disso, especialistas alertam para a ineficácia desses testes. Em entrevista à Veja, o médico norte-americano Ray Greek afirmou que a pesquisa científica com animais é uma falácia. 

“A falácia nesse caso é de que devemos testar essas drogas primeiro em animais antes de testá-las em humanos. Testar em animais não nos dá informações sobre o que irá acontecer em humanos. Assim, você pode testar uma droga em um macaco, por exemplo, e talvez ele não sofra nenhum efeito colateral. Depois disso, o remédio é dado a seres humanos que podem morrer por causa dessa droga. Em alguns casos, macacos tomam um remédio que resultam em efeitos colaterais horríveis, mas são inofensivos em seres humanos. O meu argumento é que não interessa o que determinado remédio faz em camundongos, cães ou macacos, ele pode causar reações completamente diferentes em humanos. Então, os teste em animais não possuem valor preditivo. E se eles não têm valor preditivo, cientificamente falando, não faz sentido realizá-los”, explicou o médico.

O especialista, que não é ativista pelos direitos animais e milita exclusivamente em defesa da evolução da ciência, apresenta uma alternativa eficaz aos testes em animais.

“Deveríamos estar fazendo pesquisa baseada em humanos. E com isso eu quero dizer pesquisas baseadas em tecidos e genes humanos. É daí que os grandes avanços da medicina estão vindo. Por exemplo, o Projeto Genoma, que foi concluído há 10 anos, possibilitou que muitos pesquisadores descobrissem o que genes específicos no corpo humano fazem. E agora, existem cerca de 10 drogas que não são receitadas antes que se saiba o perfil genético do paciente. É assim que a medicina deveria ser praticada. Nesse momento, tratamos todos os seres humanos como se fossem idênticos, mas eles não são. Uma droga que poderia me matar pode te ajudar. Desse modo, as diferenças não são grandes apenas entre espécies, mas também entre os humanos”, disse à revista Veja.

“A única maneira de termos um suprimento seguro e eficiente de remédios é testar as drogas e desenvolvê-las baseados na composição genética de indivíduos humanos. Para se ter uma ideia, a modelagem animal corresponde a apenas 1% de todos os testes e métodos que existem. Ou seja, ela é um pedaço insignificante do todo. O estudo dos genes humanos é uma alternativa. Quando fazemos isso, estamos olhando para grandes populações de pessoas. Por exemplo, você analisa 10.000 pessoas e 100 delas sofreram de ataque cardíaco. A partir daí analisamos as diferenças entre os genes dos dois grupos e é assim que você descobre quais genes estão ligados às doenças do coração. E isso está sendo feito, porém, não o bastante. Há também a pesquisa in vitro com tecido humano. Virtualmente tudo que sabemos sobre HIV aprendemos estudando tecido de pessoas que tiveram a doença e por meio de autópsias de pacientes. A modelagem computacional de doenças e drogas é outra saída. Se quisermos saber quais efeitos uma droga terá, podemos desenvolvê-la no computador e simular a interação com a célula”, completou.


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