Transporte marítimo

Dia de luta contra a exportação de bois vivos combate a crueldade animal

A data tem o objetivo de conscientizar a sociedade sobre a crueldade imposta aos animais por meio da exportação

Bois mantidos no navio NADA, em 2018, com os corpos repletos de fezes e urina (Foto: Magda Regina)
Bois mantidos no navio NADA, em 2018, com os corpos repletos de fezes e urina (Foto: Magda Regina)

Hoje, 14 de junho, celebra-se o “Dia Internacional contra a Exportação de Gado Vivo”. A data visa combater uma das mais cruéis práticas de exploração animal. No ano passado, um movimento internacional liderado pela ONG Compassion in World Farming mobilizou 41 países, inclusive o Brasil, em torno deste dia.

A data tem o objetivo de conscientizar a sociedade sobre a crueldade imposta aos animais por meio da exportação. Transportados em navios durante semanas, os bois são amontoados em ambientes pequenos e insalubres. Em contato com os próprios excrementos, eles sofrem com a falta de ventilação, alimentação e hidratação adequadas e não dispõem de espaço para deitar e descansar. Eles também não recebem assistência veterinária e estão sujeitos às intempéries climatológicas. Muitos não suportam a insalubridade e morrem antes da chegada ao país de destino.

Os protestos foram iniciados em 2017. Na época, 30 países participaram. O Brasil faz parte dessa iniciativa desde 2018, quando 33 nações foram mobilizadas. No ano passado, as manifestações brasileiras foram coordenadas pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, em parceria com ONGs de 12 cidades participantes.

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Diretora de Educação do Fórum, a geógrafa Elizabeth MacGregor explicou à Agência Brasil que “a questão do bem-estar animal é zero” nas exportações e que essa atividade é economicamente ruim para o Brasil, porque representa apenas 1% do que é produzido pela agropecuária brasileira. MacGregor lembrou que todos os países que importam bois vivos também realizam a importação de carne embalada.

Os únicos beneficiados pela exportação são os empresários que vendem esses animais. Os maiores prejudicados são os bois e o meio ambiente – parte dos excrementos dos animais e até mesmo os corpos daqueles que morrem durante a viagem são jogados no mar, alterando negativamente o ecossistema marinho. “Ambientalmente é péssimo. [Os navios] vão cheios de outras substâncias que afetam o meio ambiente”, disse MacGregor.

Em relação à questão econômica, MacGregor explicou que a exportação de boi vivo não é taxada e, por isso, não produz riqueza ao Brasil. Segundo ela, “o couro vai de graça” para o importador e a exportação não gera empregos aos brasileiros, mas o faz nos países compradores, como a Turquia e o Líbano.

E se a forma como os animais são mortos no Brasil já é cruel, nos países que importam os animais é ainda pior. Isso porque eles os matam ainda conscientes, condenando-os a dor inimaginável.

Segundo a diretora do Fórum Animal, a exportação não é benéfica ao Brasil “tanto na questão econômica, como na questão da imagem do país que, no momento, parece estar sendo deixada de lado”.

Para MacGregor, ainda não foi colocado fim a essa prática por conta dos valores gerados pela venda dos bois. Em 2018, com mais de 700 mil animais exportados vivos, US$ 470 milhões foram gerados ao Brasil, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. No entanto, esse valor representa míseros 7% da receita proveniente da exportação de carne e derivados, que supera US$ 6 bilhões anuais.

Apesar da resistência do Brasil em acabar com as exportações de animais, há países contrários à prática. A maior parte deles está situada na Europa e, segundo Elizabeth MacGregor, essas nações são contra essa atividade por serem detentoras de conhecimento.

Os animais vertebrados, conforme comprovado pela ciência, são sencientes – ou seja, sofrem ao sentir dor física e psicológica. “Têm capacidade cognitiva, então raciocinam, têm sentimentos e desde a década de 1970, a ciência do bem-estar animal usa parâmetros científicos e objetivos para analisar tecnicamente como os animais estão sendo tratados”, explicou.

No entanto, esse conhecimento ainda não chegou a todos, “como tudo no mundo”. Mas tem se alastrado cada vez mais. Prova disso é o aumento da adesão de países ao movimento que celebra o dia de luta contra a exportação de bois vivos. “O movimento é global mesmo”, disse MacGregor.

E, segundo ela, embora o pior transporte seja o marítimo, a diminuição do número de horas que os animais ficam em caminhões também é defendida na Europa. No mundo todo, inclusive no Brasil, animais explorados para consumo passam horas em carretas. Amontoados, sem espaço para descansar, em meio aos próprios excrementos e passando fome e sede, eles sofrem durante o transporte.

O movimento internacional contra a exportação, iniciado em Londres pela Compassion in World Farming, reuniu 600 pessoas à época e contou com o apoio da ONG ‘World Wide Fund for Nature’ (WWF), do Banco Mundial (BIRD) e da Organização Mundial da Saúde Animal (OIE) – entidades que alertam para o impacto negativo da pecuária ao meio ambiente, considerado o maior dentre todas as práticas nocivas à natureza. Desmatamento para fazer pasto, poluição de mares, lagos e oceanos – pelos dejetos e corpos dos animais -, gases de efeito estufa produzidos pelos animais e desperdício de água (16 mil litros para fabricar 1 kg de carne, por exemplo) estão entre os problemas ambientais causados pela agropecuária. “A flatulência dos bois é gás metano”, salientou a diretora do Fórum, que se baseou em relatórios. “Tem todo um embasamento técnico e de órgãos internacionais, não só de ONGs”, disse.

MacGregor lembrou que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) também alerta sobre o impacto da pecuária ao meio ambiente. “O Brasil tem mais boi do que gente”, afirmou a diretora do Fórum Animal. Segundo ela, a questão é “seríssima em todo o mundo”.

No que se refere aos maus-tratos, a médica veterinária Vânia Nunes, diretora técnica do Fórum Animal, explicou que a crueldade está presente desde o transporte das fazendas para os portos. “Extremamente estressante para os animais”, concluiu.


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