Agropecuária

Covid-19 expõe exploração humana nos matadouros

Pandemia de coronavírus tem lançado luz à realidade de trabalhadores do mundo todo que atuam na indústria da carne, que resiste a paralisar suas atividades

(Foto: iStock)
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Matadouros não estão entre os lugares onde alguém sonhe em trabalhar um dia. Além de ser um ambiente imerso na violência diária contra seres de outras espécies, afinal, não existe nada de pacífico ou bonito na matança de animais para consumo, os funcionários costumam ser mal remunerados.

Trabalhar em matadouro demanda esforços repetitivos e exige que funcionários atuem em ambientes com temperaturas desconfortáveis, o que pode tornar o uso de medicamentos um hábito diário. Se você for um imigrante, a situação pode ser pior.

Embora tudo isso ocorra há muitas décadas, hoje a pandemia de coronavírus tem lançado luz à realidade de trabalhadores do mundo todo que atuam na indústria da carne, que resiste a paralisar suas atividades mesmo em situações em que os funcionários são expostos a um número crescente de riscos de contaminação.

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Milhares de contaminados e situação degradante

No Estados Unidos, por exemplo, só a Tyson Foods, maior processadora de carne do país, chegou a 4585 casos de funcionários contaminados com a covid-19 em seus matadouros no início da semana, o que poderia ter sido evitado. Agora a empresa está sendo denunciada por se recusar a pagar o salário integral dos trabalhadores afastados por causa da doença.

Na Alemanha, só em um matadouro em Birkenfeld, cerca de 200 romenos, contratados como mão de obra barata, contraíram a covid-19 até o final de abril. Desde o início da pandemia, o pastor Peter Kossen vem classificando os matadouros alemães como ambientes de “escravidão moderna”. Além da displicência no ambiente de trabalho, outro motivo é que os imigrantes que atuam nessa indústria são colocados em alojamentos lotados, repletos de mofo e caindo aos pedaços.

Brasil, demora para agir e subnotificação

No Brasil, até hoje os números de contaminados nos matadouros são mantidos ocultos. Uma exceção é o Rio Grande do Sul que fala em 250 casos confirmados na indústria da carne e 20 mil trabalhadores expostos até o final de abril, embora deva haver, como é comum nas estimativas sobre a doença, uma mais do que discrepante subnotificação que foge à realidade.

Em relação a todo o território nacional, sabemos apenas que há 42 matadouros paralisados, de um total de 446, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Uma paralisação tardia que veio somente quando o vírus chegou a um ponto inevitável de proliferação – e em alguns casos por ordem judicial.

A realidade atual já havia sido anunciada. Em março, trabalhadores denunciaram a JBS por negligência em um de seus matadouros na saída para Sidrolândia, em Campo Grande. Os funcionários reclamaram das aglomerações nas linhas de produção, no transporte e no refeitório – quando a empresa ainda não considerava paralisar suas atividades em nenhuma de suas unidades.

Sofrimento dos imigrantes e dos animais

Brasileiros que trabalham em matadouros na Irlanda também têm se queixado da situação. Na quinta-feira (14), o The Guardian publicou que um deles, identificado apenas como Santos, disse que muitos de seus colegas, que continuam sujeitos à contaminação no trabalho e mal sabem inglês, não estão cientes de seus direitos. “Se essas pessoas contraírem o vírus, quem vai ajudá-los? Como eles conseguirão comida?”, questionou.

Outro funcionário identificado como Marco reclamou que não se sente seguro trabalhando em um frigorífico onde atua há mais de dez anos. O veículo também destacou que há unanimidade por parte dos entrevistados em definir o trabalho como “um negócio sangrento e com baixos salários”.

“[Você reconhece como] é horrível matar bovinos, quando você vê como isso é feito. Quando você vê as condições – é um lugar sujo e desagradável, ninguém fica feliz [com isso]”, declarou Florin, um romeno que trabalha em um matadouro na Irlanda há cinco anos.

“Eles matam – atiram, cortam o pescoço, cortam as pernas. Não gosto disso. A vaca é pacífica, emocional. E você vê o sangue, e passam de criaturas vivas para pedaços.” Os trabalhadores também se queixam que como o trabalho é repetitivo e difícil é preciso tomar analgésicos para suportar as consequências da rotina.

Sinclair denunciou mazelas da indústria da carne há 104 anos

A realidade denunciada nos matadouros hoje parece remeter em alguns aspectos ao que foi publicado pelo escritor Upton Sinclair nos Estados Unidos há 104 anos em seu livro “The Jungle” ou “A Selva”.

Na obra lançada em mais de 50 idiomas, a riqueza de detalhes com que Sinclair descreve as más condições enfrentadas pelos trabalhadores e pelos animais explorados pela indústria frigorífica fez com que milhares de pessoas deixassem de comer carne nas primeiras décadas do século 20.

O protagonista da obra é o lituano Jurgis Rudkus, um imigrante que mal sabe falar inglês e vive com a família em um distrito de Chicago dominado por currais e fábricas de carne processada.

Desempregado e levando uma vida miserável, Rudkus aceita um emprego em um matadouro, realidade também vivida por seu pai que morre em consequência da falta de segurança nas linhas de produção.

“O que será de todas essas criaturas?”

Em uma das passagens da página 38 de “The Jungle”, uma imigrante lituana se mostra chocada ao saber do destino de milhares de bois e vacas.

“E o que será de todas essas criaturas?”, diz Teta Elzbieta. “Esta noite, todos serão mortos e fatiados. E logo ali, do outro lado dos depósitos de acondicionamento, há mais ferrovias, e de lá vêm os vagões que vão levá-los embora”, respondeu Jokubas Szedvilas. No total, dez milhões de criaturas sencientes eram transformadas em alimento a cada ano.

Assim como os animais, os trabalhadores também eram tratados como seres inferiores, já que suas vidas se resumiam às longas jornadas de trabalho. Exemplo disso é um adolescente que vencido pela exaustão e pela embriaguez dorme no trabalho, onde se torna comida para ratos na madrugada.

Dor animal e humana interligadas

Upton Sinclair denuncia ainda a falta de higiene nas linhas de produção. Também revela no livro que muitas vezes a carne dos bois se misturava à carne dos ratos que morriam nas linhas de produção.

No livro-denúncia, o sofrimento dos animais e dos humanos estão interligados; um não existe sem o outro num contexto em que na prática o sonho americano não passa de uma distopia velada pela inocente fantasia. Nesse cenário, o maior financiador é o consumidor que alheio à excruciante realidade aceita tudo na passividade.

A omissão do Estado também endossa e justifica a existência dessas práticas. “The Jungle” é uma obra que, em síntese, não apenas flerta com a atualidade, mas diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro à época.


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