Sob ameaça

Maior branqueamento de corais da história preocupa pesquisadores no RN

Apesar de não matar o coral, o branqueamento o deixa mais suscetível à morte, colocando o ecossistema em risco

Foto: Natalia Roos/Arquivo Pessoal
Foto: Natalia Roos/Arquivo Pessoal

O processo de branqueamento dos recifes de corais na região de Rio do Fogo, no Rio Grande do Norte, registrado nos últimos meses, foi o maior da história. A mudança dos tons dos corais de terrosos para branco tem preocupado os pesquisadores.

“Registros anteriores, de 2010, mostraram que 70% da área monitorada tinha sido afetada. Hoje constatamos um impacto superior a 80%”, contou ao G1 o biólogo e pesquisador Guilherme Longo.

O branqueamento dos corais, de acordo com o especialista, ocorre por conta do aumento da temperatura da água. O que preocupa os pesquisadores, porém, é a frequência e a intensidade das ondas de calor.

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“Essas ondas são fenômenos naturais que podem acontecer por vários motivos, como a intensificação da corrente quente ou pela alteração das correntes marítimas. O problema é que antes isso acontecia duas ou três vezes por década e agora ocorre praticamente todos os anos”, explicou.

“Percebemos uma magnitude impressionante no processo de branqueamento e um dos maiores indicadores foi uma espécie que costuma ser extremamente resistente, mas também branqueou”, completou.

A esperança é que as condições naturais sejam retomadas. Mas, para isso, é preciso que a onda de calor se dissipe. Segundo o pesquisador, não há muito o que fazer além de minimizar impactos que podem ser controlados. Dentre eles, a poluição dos recifes, o turismo e a pesca. “Quando a gente consegue regular esses impactos, deixamos os corais na melhor condição possível para lidar com fenômenos globais”, disse.

Foto: Natalia Roos/Arquivo Pessoal

“É muito preocupante, mas não consideramos que seja o fim. Vamos acompanhar de perto para entender quais corais vão se recuperar, afinal, cada espécie tem uma capacidade diferente de recuperação”, explicou.

O branqueamento é o processo de expulsão de algas por parte dos corais. Mas isso não ocorre sem razão. Os corais abrigam migroalgas de maneira natural e, além de fazer fotossíntese, elas fornecem nutrientes para esses animais.

“Parte da nutrição vem da alga e a outra parte da captura de pequenos animais e partículas da água. São essas as duas fontes de alimento dos corais”, explicou Guilherme. “Quanto maior a temperatura da água, mais vezes as microalgas se multiplicam no corais, fazendo mais fotossíntese, o que gera uma produção intensa de oxigênio. Isso começa a incomodar o coral que, para não se prejudicar, expulsa as algas. Dessa forma, ele perde basicamente metade da nutrição”, completou.

Essa expulsão altera a coloração dos corais, o que explica o nome desse processo ser branqueamento. “A cor do coral depende da densidade das microalgas. Quando ele perde as algas, o tecido, que é super fino, fica transparente e expõe o esqueleto”, disse.

Foto: Natalia Roos/Arquivo Pessoal

O branqueamento, no entanto, não mata o animal, mas o deixa mais suscetível à morte. “Branqueamento não é sinônimo de morte, mas claramente prejudica o animal, que fica susceptível a doenças, sensível a infecções e aos agentes patogênicos e dependente da captura de animais para não morrer de fome”, afirmou.

“O branqueamento dos corais funciona como uma febre: é um sintoma de que algo está errado, mas que se a situação mudar, ele se recupera. Portanto, é reversível”, acrescentou.

Segundo Guilherme, é importante manter a saúde dos corais. “Essas espécies têm função importante em estruturar o recife. Se você perde essa complexidade e deixa o ambiente homogêneo, os peixes podem ser prejudicados, perdendo abrigo e alimento”, disse.

“Pense nos recifes como cidades: os corais são construções. A ausência deles interfere nos serviços oferecidos, afetando diversas camadas como o turismo, por exemplo”, comparou o pesquisador.

Foto: Divulgação/De Olho nos Corais

Estudo

Junto de outros pesquisadores de várias universidades brasileiras, Guilherme traçou o histórico dos animais marinhos para buscar respostas sobre a recuperação e a perspectiva para conservação dos corais do Brasil.

“Nosso objetivo é entender se os recifes do Brasil estão prontos para mudanças no clima e fenômenos globais. Para isso reconstruímos o passado dos corais, há 150 anos, com pesquisas em museus e entrevistas com pescadores. Também analisamos as vertentes do futuro, utilizando modelos matemáticos e simulações em laboratório”, explicou.

Além disso, os especialistas monitoram as espécies. “Analisamos colônias específicas com frequência e fazemos vídeos bem detalhados que depois, no laboratório, se transformam em um modelo tridimensional. É como se fosse uma tomografia da colônia que nos permite quantificar com precisão a saúde do coral”, acrescentou.

Foto: Divulgação/De Olho nos Corais

Os pesquisadores também criaram um projeto por meio do qual moradores e turistas podem fotografar os corais e divulgar as imagens nas redes sociais. “A costa brasileira é muito extensa e os estudos não devem se limitar à área de monitoramento, por isso criamos um projeto de ciência cidadã chamado ‘De olho nos corais’, disponibilizado no Instagram”, contou.

“Dessa forma conseguimos analisar a saúde dos corais em outras regiões e garantimos um monitoramento amplo”, comentou.

Para Guilherme, a participação da comunidade é essencial. “O envolvimento das pessoas nessa causa é importantíssimo e nesse sentido o turismo se faz peça fundamental. Além de fomentar a economia local e incentivar projetos de pesquisa, as pessoas têm a chance de conhecer esse ecossistema e a fragilidade dele”, disse. “Esse conhecimento gera uma mudança no comportamento das pessoas. É o famoso conhecer para conservar”, concluiu.


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