Artigo

Confinados por aqueles que confinamos

Pixabay

Um aspecto da pandemia pouco explorado é o fato de estarmos confinados devido à forma equivocada como nos relacionamos e confinamos as outras espécies. Vivemos em uma casa comum, entretanto procedemos como se a nossa espécie fosse a única com direitos.

Dizemos e cantamos que “tudo está interligado, como se fôssemos um”, porém somos seletivos e cortamos as interdependências que nos conectam com o mundo natural. Vemo-nos fora e acima da teia da vida. Como bem diz Papa Francisco, “esquecemos que somos Terra” e acrescento, esquecemos que somos animais, animais humanos. Somos, nesse sentido, especistas, expressão cunhada pelo filósofo americano Gary Francione. Nossa ética é tradicional, construída pelo homem e para o homem.

Pixabay

Sabemos que o novo coronavírus, que pode causar infecções respiratórias graves, é uma zoonose, ou seja, uma doença que começou em animais infectados e foi transmitida de animais para as pessoas. A culpa não é dos animais, mas da forma como os manipulamos. Os mercados abertos da China misturam alimentos, animais silvestres e domésticos, vivos ou abatidos na hora, na frente do freguês. Ambiente que favoreceu a contaminação de humanos pelo, agora famoso, SARS-CoV-2, agente causador da COVID-19. Os tradicionais mercados públicos de nossas cidades fazem algo semelhante ao venderem pássaros, galinhas, cachorros e tartarugas em espaços exíguos, insalubres, sujos e de grande aglomeração, junto com verduras, queijos, carnes, etc.

FAÇA PARTE DO #DiaDeDoarAgora EM 5 DE MAIO

Em 2013, um relatório da Organização das Nações Unidades para Agricultura e Alimentação (FAO) já denunciava que 7 em cada 10 doenças surgidas desde a década de 1940 eram de origem animal. A mistura de nossa ação predatória em relação aos ecossistemas, o confinamento de animais em grande escala e as grandes aglomerações nos centros urbanos tornaram o ambiente favorável para a seleção de novas mutações e o aparecimento de novas doenças para as quais não há remédios ou vacinas e nos deixam, a cada dia, mais vulneráveis.

Segundo Yuval Noah Harari, no livro Homo Deus, “durante milênios o Homo sapiens tornou-se o mais importante fator individual na mudança da ecologia global”. Ele traz um dado espantoso sobre a atual composição da biomassa global de animais de grande porte: 100 milhões de toneladas de grandes animais selvagens; 300 milhões de toneladas de humanos; e 700 milhões de toneladas de animais domesticados. Os princípios de organização dos ecossistemas não permitiriam essa bizarrice de uma espécie se multiplicar ad infinitum, sem que processos naturais fizessem a correção. Nossa curta visão e critérios que só enxergam a natureza e as espécies animais com a lente da utilidade e lucro, ao contrário, dá o nome para isso de desenvolvimento e progresso. Precisamos nos atentar para o confinamento de animais pela indústria da carne, que abate bilhões de animais por ano. Ou que o rebanho bovino brasileiro tem mais cabeças que toda a população brasileira.

Nesse reencontro com aquilo que alimenta o nosso corpo, deveríamos nos perguntar: de que é feito isso e aquilo? Como é produzido? Ficaremos surpresos ao ver que, da hora que acordamos até a hora que vamos dormir, tudo aquilo que comemos tem algum ingrediente de origem animal. Devemos nos perguntar: é preciso? Esse ato automático de levar o garfo até a boca, para muito além do gosto pessoal, cultura ou tradição, em tempos de pandemia, passa a ser um gesto sanitário, ecológico, político, ético, humanitário, social e, por que não, saudável.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui