Zoonoses: uma reflexão sobre nossa relação com animais não humanos


Desde a antiguidade o ser humano relacionou o surgimento de certas doenças e epidemias com a presença ou influência de animais que pressagiam maus agouros. Cobras e sapos são tidos, popularmente, como transmissores de cobreiros ou herpes; corujas e morcegos pressagiam a morte e as superstições ligadas à fauna são muitas e variadas. Das dez pragas do Egito, anunciadas por Moisés (Isaías VII—18-19), cinco são animais: rãs, piolhos, moscas, pestes dos animais e gafanhotos (ÁVILA-PIRES, 1989). Há mais de mil anos os povos orientais associavam as epidemias de peste bubônica à presença de ratos. O desconhecimento da biologia causou atrasos na solução de alguns problemas, somente a aceitação generalizada da teoria microbiana ou biológica das infecções, esclareceu a natureza do “princípio viral” ou “viroso”, abriu caminho à investigação epidemiológica e ecológica das zoonoses. Estas revelaram o papel dos vetores e hospedeiros alternativos e os ciclos biológicos complexos de doenças que passaram a se chamar Zoonoses.

Foto: Andrew Skowron

Zoonoses são doenças transmitidas pelo contato direto (picada de mosquito) ou indireto (contato com as fezes) de um animal. De todas as doenças infecciosas/parasitárias humanas, 75% são provenientes de animais (CLEAVELAND, 2001). É importante salientar que existem zoonoses causadas por todos tipos de seres vivos: vermes, insetos, protozoários, bactérias e vírus. As zoonoses virais são as que tem nos causado maiores dores de cabeça devido ao surgimento de doenças, surtos e epidemias.

Vírus são considerados seres vivos acelulares, pois são possuem uma célula. Por isso precisam estar sempre dentro de outra célula, parasitando-a. Os vírus são muito pequenos e relativamente simples. Além disso, eles são extremamente específicos para um tipo de célula. Por exemplo: o vírus da AIDS ataca os linfócitos T (células de defesa) do ser humano, já o vírus da dengue ataca células que formam as paredes dos nossos vasos sanguíneos.

Como citado anteriormente, os vírus são seres relativamente simples, o que torna seu material genético suscetível a sofrer mutações mais facilmente, geralmente estas mutações fazem com que ele perca sua capacidade de infectar sua célula alvo. Porém, o contrário pode ocorrer: uma mutação pode fazer com que o vírus passe a atacar células de outro ser vivo (FIGURA 1), em um processo chamado Transbordamento (CONFALONIERI, 2010).

Diariamente entramos em contato com milhares de vírus que atacam por exemplo os vegetais que comemos no almoço. Contudo, por estes vírus terem uma especificidade para um determinado de tipo de célula vegetal, é muito improvável que ele sofra uma mutação e passe a atacar uma célula animal, as quais possuem inúmeras diferenças em relação às células de uma planta. Porém, estas chances aumentam quando estamos lidando com seres vivos com características celulares parecidas com as nossas. Imagine milhares de porcos confinados em enormes galpões, (sim, são assim que eles são criados para o consumo humano), agora imagine que alguns deles estão com uma determinada gripe causada por um vírus específico para porcos, obviamente. Porcos confinados em um lugar fechado, um vírus que se espalha pelo ar: em pouco tempo boa parte desta população de porcos estará contaminada com este vírus. Imagine a quantidade de vírus sofrendo mutações e se espalhando pelo ar; a possibilidade de um deles sofrer uma mutação que possa transbordar do porco para o ser humano aumenta, não é mesmo?

No período de 2005-2009, 12 casos de infecção humana por esses vírus foram identificados nos EUA. Em abril de 2009, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) identificaram dois casos de infecção humana com o vírus influenza A de origem suína de características singulares (NOVEL, 2009). No século passado, outras duas pandemias aconteceram em 1957 causadas por vírus A (H2N2) e em 1968 (A- H3N2) (MORENS, 2009).

O contato humano com animais domésticos ou silvestres, para consumo ou devido ao desmatamento, têm cada vez aumentado as possibilidades de surgimento de novas doenças e pandemias (FIGURA 2). Veja alguns exemplos de doenças provenientes do contato humano com outros animais:

Ebola: O aparecimento de casos de Ebola em humanos tem sido associado a animais selvagens, como primatas não humanos, cabritos e morcegos, que são consumidos como fonte de proteína na África. Alguns fatores têm aumentado o contato entre morcegos e outros mamíferos, como mudanças climáticas, desflorestamento, caça entre outros (BAUSCH; SCHWARZ, 2014). Além destes, outros animais podem hospedar o vírus do Ebola sem apresentar sintomas, como cachorros e gatos, por exemplo (HAN et al., 2016) etc.

AIDS: Cientistas confirmam que o vírus HIV que atinge os humanos realmente veio dos chimpanzés selvagens, naturais de Camarões (BRASIL, 2006). O contato íntimo desses animais com os nativos africanos, quer por arranhaduras ou mordidas, quer pelo hábito dessas populações de ingerir como alimento a carne de macaco mal cozida, contendo em seus tecidos e fluidos (sangue, secreções), causou o transbordamento do vírus dos chimpanzés para os humanos (VERONES, 1991).

SARS: A Síndrome Respiratória Aguda Grave, foi motivo de pânico entre 2002 e 2003, causando um número considerável de mortes na China e parte da Ásia. No entanto o reservatório do vírus na natureza não foi demonstrado de forma conclusiva, apesar de muitas evidências envolvendo o civet cat (civeta é um animal muito parecido com um rato) como o mais provável candidato (DONELLY et al., 2004, PERS et al., 2004, POON et al., 2004).

MERS: Um vírus da mesma família dos Coronavírus, que transbordou para seres humanos muito provavelmente pelo contato com fezes de morcegos ou contato direto com camelos (ITHETE et al., 2013, REUSKEN et al., 2013), foi motivo de alarde em principalmente na Coreia do Sul e Arábia Saudita.

COVID-19: Atualmente estamos passando por uma pandemia de mais um vírus da família dos Coronavírus, o SARS-CoV-2. Análises moleculares não conseguem identificar exatamente de qual animal este novo vírus transbordou, porém têm sugerido grande suspeitas que tenha sido de morcegos (ZHOU, 2020) ou pangolins(ZHANG et al., 2020), estes últimos são animais vendidos ilegalmente devido a sua carne e escamas usadas na medicina tradicional chinesa.

CONCLUSÃO

Por fim, após uma análise breve de tantos casos de doenças provindas do contato animal com humanos, faz-se necessário uma reflexão acerca de nossa relação com as outras espécies de animais. É muito claro que a produção desenfreada de animais domésticos para o consumo humano, não só tem trazidos diversas doenças, como as cardiovasculares para nossa espécie, como também tem sido palco de transbordamento de vírus de outras espécies para o ser humano.

O mesmo acontece devido à prática da caça, ou devido ao desmatamento, onde animais silvestres tem se aproximado cada vez mais das cidades, em decorrência à perda de seus habitats naturais.

Parece que os prejuízos não são somente para os animais não humanos, que são enclausurados, caçados, vendidos, mortos, explorados e que tem seus habitats destruídos, as consequências têm caído sobre nossos ombros. A pergunta que vem a calhar é: quem realmente está ganhando com tudo isso?

Gustavo Halfen é biólogo, professor e vegano. Atualmente mora em Curitiba, onde apoia A Onca Defesa Animal e o Subverta Coletivo Ecossocialista Libertário.

REFERENCIAS

ÁVILA-PIRES, F. D., Zoonoses: Hospedeiros e Reservatórios. Cadernos de Saúde pública, Rio de Janeiro, n 5, p. 82-97, mar,1989.

BAUSCH, D. G., SCHWARZ, L., Outbreak of Ebola Virus Disease in Guinea: Where Ecology Meets Economy. PLoS Neglected Tropical Diseases, v. 8, n. 7, p. 8–12, 2014.

BRASIL, Ministério da Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS. Boletim epidemiológico AIDS. Brasília-DF, Ano III, nº 1, p. 3-5, Jan-Jun, 2006.

CLEAVELAND, S.; LAURENSON, M.K. & TAYLOR, L.H. Diseases of humans and their domestic mammals: pathogen characteristics, host range and the risk of emergence. Philosophical Transactions of the Royal Society of London,  356(1411):  p. 991-999, 2001

CONFALONIERI, U.E.C. Emergência de doenças infecciosas humanas: processos ecológicos e abordagens preditivas. Oecol. Aust., v. 14 n. 3, p, 591-602, 2010

DONNELLY, CA, FISHER MC, FRASER C, GHANI AC, RILEY S, FERGUSON NM, ANDERSON RM. Epidemiological and genetic analysis of severe acute respiratory syndrome. Lancet Infect Dis. Nov; v. 4 n. 11, p. 672-83, 2004.

ITHETE, N.L., STOFFBERG, S., CORMAN, V.M., COTTONTAIL, V.M., RICHARDS, L.R., ET AL., Close Relative of Human Middle East Respiratory Syndrome Coronavirus in Bat, South Africa, v. 19, n. 10, out , 2013.

HAN, ZIYING et al. Ebola virus mediated infectivity is restricted in canine and feline cells. Veterinary Microbiology, v. 182, p. 102–107, 2016.

MORENS D. M., TAUBENBERGER J.K., FAUCI, A. S. The persistent legacy of the 1918 influenza virurs. N Engl J Med. v 361, n. 3, p 225- 9. Jul, 2009

PEIRIS J. S., GUAN Y., YUEN K. Y., Severe acute respiratory syndrome. Nat Med. ; v. 10, p. 88-97. Dez, 2004

POON LL, GUAN Y, NICHOLLS JM, YUEN KY, PEIRIS JS. The aetiology, origins, and diagnosis of severe acute respiratory syndrome. Lancet Infect Dis. Nov; v. 4, n. 11, p. 663-71, 2004

REUSKEN, C.B., HAAGMANS, B.L., MULLER, M.A., GUTIERREZ, C., GODEKE, G.J., et al. Middle East respiratory syndrome coronavirus neutralising serum antibodies in dromedary camels: a comparative serological study, v. 13, n. 10, p. 859-866. 2013.

VERONESI R. Tratado de Infectologia. 8. ed. Rio de Janeiro Guanabara Koogan, 1991.

ZHOU, P. et al. A pneumonia outbreak associated with a new coronavirus of probable bat origin, Nature, v. 579,. 270-273,  fev, 2020.

ZHANG, T., WU, Q. & ZHANG, Z. . Pangolin homology associated with 2019-nCoV, BioRxiv, fev, 2020.


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