Artigo

Veganismo estratégico, pragmático ou, simplesmente, capitalista? Falácias e idealismos confrontados

Divulgação
Divulgação

Antes que se pense que este artigo tenciona fazer alguma defesa cega do comunismo contra o capitalismo, deixo claro que, no que tange à exploração dos animais, os dois sistemas são especistas, ou seja, os dois ignoram os direitos mínimos à vida e à liberdade dos animais não humanos. Na prática, e mesmo na teoria, com exceção do próprio movimento vegano, não há muitos que realmente se preocupem com a tirânica relação que estabelecemos com os outros seres que habitam conosco o mundo, de modo que, ainda que seja impossível não achar injusto e cruel transformar vidas em mercadorias, ou seja, “mercadorizar vidas”, como o capitalismo faz sem qualquer pudor e piedade, seria, no mínimo, falacioso se eu dissesse que algum pensador emblemático da esquerda se mostrou realmente sensibilizado com isso.

Em poucas palavras, vemos, por quase todo o mundo humano, o animal sendo tratado como mero recurso, objeto, coisa; com exceção apenas de alguns segmentos religiosos de algumas culturas. E, certamente, não estou falando aqui da religião do amor, por mais paradoxal que isso possa soar, porque, ao contrário do que se deveria esperar de uma religião que prega o amor ao próximo, o próximo se restringe apenas àqueles que se parecem conosco, e, por vezes, só os que se parecem demasiadamente, deixando de fora outros (a história nos mostra isso). Mas não é uma prerrogativa só do cristianismo o especismo; quase toda religião é especista; são raríssimas as que veem a exploração e a morte de um animal como um crime que se comete contra a vida.

Bem, mas este é só um preâmbulo para que passemos à problematização deste novo segmento do veganismo, que, ao que tudo indica, veio para fincar suas raízes, e não sem produzir, fissuras de proporções gigantescas no seio do próprio movimento. Vamos tentar entender por que não se trata só de uma forma de abordar diferenciada, de um ponto de vista melhor ou pior, mas de um desvio real (e talvez mortal) no que tange às práticas e à própria filosofia de vida que se expressa no retumbante “não” à crueldade e à opressão que o veganismo sempre representou.

FAÇA PARTE DO #DiaDeDoarAgora EM 5 DE MAIO
Divulgação

Sim, veganismo estratégico quer dizer, em poucas palavras, veganismo pragmático e, como todo pragmatismo, ele não se preocupa com a vivência interior de um sentimento moral ou ético, mas apenas com avivar os interesses para que uma ação seja praticada. Isso quer dizer, em poucas palavras, traduzindo para o que pode acontecer com o crescimento deste “estratégico veganismo”, que, em breve, não se tratará mais de uma transformação pessoal e íntima, absolutamente filosófica sob todos os pontos de vista, que luta para libertar os animais do jugo humano, e libertar o próprio homem de sua própria tirania, mas, sim, de uma discussão banal sobre qual empresa pode nos dar o melhor sabor da carne ou de qualquer produto que deixamos de consumir por vontade própria, E, mais do que tudo, deixamos de consumir para fazer pressão e obrigar as empresas a repensarem suas atividades e se tornarem éticas. O boicote feito a elas sempre foi a mola-mestra que moveu o movimento. E parece que vinha funcionando bem, pois as grandes empresas já começavam a sentir a perda de mercado.

Explicando melhor: ser vegano, para alguém que hoje está sendo chamado de idealista (em contraposição aos “realistas” estratégicos), não comer carne é apenas o primeiro passo numa luta muito maior, que aponta para a abolição de toda escravidão, humana e animal. E usamos o termo escravidão animal não em desrespeito à escravidão humana, mas tomando o próprio horror dela como base do que fazemos aos animais, também eles tratados como meras coisas, desprovidas de sentimentos, de dor, de desejo de viver. Isso significa realmente que, uma vez desperto do torpor de uma educação que nos insensibilizou, devemos fazer frente, mesmo que de forma pacífica (mudando as próprias práticas e costumes), à exploração dos animais, até porque, ao fazer frente a ela, fazemos frente à exploração humana também, pois os exploradores de vidas são sempre os mesmos: o que mudam são as vítimas.

Neste sentido, como entender uma forma de veganismo que entende o explorador de vidas, ou seja, aquele que vive da opressão de vidas, como um possível aliado ou amigo? Sim, porque a ideia do veganismo estratégico é a de fazer parcerias com estas empresas exploradoras na produção de novos e mais saborosos produtos veganos, sob a alegação de que isso poderia não apenas estimular novos adeptos, mas também tornar melhor e mais agradável a vida dos veganos que, no entanto, sempre tiveram como ponto primordial não fortalecer a “indústria da morte” (que estão dentre as menos éticas que existem, e isso se estende ao humano também). Muitos provaram, por experiência própria, que tudo é uma questão de hábito e que o corpo não só vive melhor sem a carne (ou qualquer produto de origem animal), mas vive muito melhor, física e eticamente falando.

Divulgação

Mas eis que, de repente, nos trazem o gosto da carne de volta (sim, é excepcionalmente parecido) e alguns poderiam até alegar que não há um problema maior nisso, posto que muitos veganos buscam alimentos com sabores semelhantes ao que estavam habituados. Eis a primeira falácia de todas, se não prestarmos atenção nas premissas e nas conclusões. Sim, em tese, ninguém pode dizer que comer um pedaço de queijo vegano é um crime; ou que comer uma linguiça de uma empresa ética é algo que prejudica o movimento. Deixamos de lado, por enquanto, por não caber nas dimensões deste artigo, o debate sobre algumas posições mais puristas, que pregam uma vida mais simples, mais frugal, sem alimentos industrializados, na tentativa de se libertar da lógica exploradora até nos seus mínimos detalhes. Sim, neste ponto, a associação é direta com os movimentos de esquerda, mesmo que a maior parte dos movimentos de esquerda não nos vejam, a nós veganos, como muito próximos deles (por conta de um especismo endógeno que também existe neles). Mas, sim, deixemos de lado esta questão, por enquanto, porque, independentemente de qualquer coisa, o veganismo não pode mesmo ser dissociado, em primeiro lugar, de um enfrentamento, de uma resistência política que inclui, neste caso, a produção de uma humanidade realmente mais humana (no melhor sentido deste termo).

Sim, é impossível, como disse mais acima, aceitar a cruel mercadorização das vidas feitas por aqueles que só conhecem cifras e lucros. E não há dúvidas com relação a isso no capitalismo; a meta é clara: lucro acima de tudo. Mas parece que os chamados veganos estrategistas acreditam que não. Bem, não farei deste escrito um ataque agressivo aos veganos pragmáticos, mas não deixarei também de apontar o quanto eles estão servindo ao capitalismo e às grandes empresas exploradoras da vida animal, tornando-as ainda mais poderosas. Quero crer que eles não lucram nada com isso, porque, neste caso, estaríamos falando, sim, de um dinheiro muito sujo, porque da mesma mão que vem a tal carne vegetal perfeita, vem o porrete que desce nas pobres cabeças e lombos dos animais.

Difícil crer que os veganos estratégicos sejam assim tão ingênuos ou meramente idealistas. Sim, porque se de boa-fé alguém acredita realmente que a indústria da morte se converterá em indústria da vida, porque descobriu que dá algum lucro, só pode se tratar de alguém mais idealista do que quem luta pela abolição, sem fazer alianças. Afinal, o lucro tinha que ser infinitamente maior e não existir o tal contingente imenso de resistentes que continuará preferindo a carne verdadeira (e não a “falsa”, como já ouvi alguns dizendo; aliás, já ouvi também algo digno de nota, do tipo: “se o vegano gosta tanto de carne, deveria parar com a hipocrisia, e comê-la sem culpa”). Enfim, tudo isso é para dizer o seguinte:

1 – As grandes empresas exploradoras da vida animal criaram, junto com os veganos realistas, um cavalo de Troia excepcional. Os tais veganos (quem sabe?) se julgam mais inteligentes e acreditam que vão fazer ruir por dentro o especismo ou a mera tirania humana; mas o cavalo de Troia é das empresas, que agora podem posar de boas-moças enquanto continuam a exploração animal.

2 – As empresas que violam a vida animal seguirão cada vez mais fortes, porque serão também alimentadas pelo dinheiro vegano; que fantástico, não?

3 – Os argumentos do veganismo estratégico são fracos e facilmente derrubados, se não pegam o vegano pela boca; como, por exemplo, a ideia de que devemos dar força a alimentos ou produtos veganos, independente de quem os faça. É um argumento capcioso, porque é até compreensível comprar produtos de uma empresa que caminha para o veganismo e já está substituindo sua produção (exatamente pela pressão que sempre exercemos), mas defender que nós, veganos, podemos e devemos comprar os produtos das empresas menos éticas do planeta, e só porque elas nos oferecem um produto vegano saboroso, é se curvar pela barriga.

4 – Ceder ao argumento do sabor, como sendo vital, é jogar por terra a luta real pela abolição de toda a escravidão animal; é fazer do veganismo realmente uma dieta, algo muito insignificante e pueril. Talvez alguns até tenham boa intenção (desde que não recebam por isso) e talvez alguns veganos até comprem ocasionalmente o produto, mas este cavalo de Troia está pronto para render toda a “cidade” e fazê-la trabalhar para ele. A comida, repetimos, é só uma parte do veganismo. O bloqueio, o boicote, deve ser a todas as empresas que lucram com os abusos e com a crueldade.

Divulgação

É claro que a polícia do veganismo estratégico também vai entrar em ação (aqui faço uma ironia pela tolice, ou mau-caratismo, de alguns que têm chamado os veganos mais tradicionais, que boicotam as empresas não éticas, de “fascistas”; é algo risível, se não fosse tão grave). E esta polícia vai entrar em ação por considerar que somos, eu e muitos outros, idealistas que acreditam em contos de fada, ou seja, que acreditam cegamente numa mudança absoluta do mundo e dos humanos. Digo-lhes, por mim mesma, que, muito pelo contrário, estou desconfiada até de alguns veganos, pelo rumo que as coisas vêm tomando. Eu apenas defendo, e defenderei até o fim, a busca por uma sociedade mais justa e igualitária para todos, animais e humanos, e sem parceria com os que vivem da opressão. Se todos os que lutaram e lutam por isso não conseguirem, ao menos terão produzido o bom combate, pela liberdade e pela vida, e sem se curvarem ou se aliarem aos exploradores.

O veganismo hoje está ameaçado, e não mais pelo confronto com as grandes empresas exploradoras dos animais, mas pela aliança com elas. Aliança feita por veganos que esperam ser aceitos por outros veganos, mesmo quando subvertem um dos princípios mais básicos, não só do veganismo, mas de todo e qualquer movimento que se diga revolucionário e libertário: o de não compactuar com a exploração, o de não se associar com os exploradores. Este veganismo estratégico é político, é econômico, e é até prazeroso para quem o pratica, mas está muito longe de servir à libertação animal. Serve bem mais aos cofres das grandes empresas e de seus proprietários, que devem estar rindo com a possibilidade de um movimento de defesa e libertação animal enriquecê-los ainda mais e, o pior, com um sorriso de contentamento no rosto dos próprios veganos.

* Filósofa, historiadora e, atualmente, ocupa o cargo de Professora Adjunta do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UERJ. É autora dos livros Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze, o pensador nômade (Contraponto) – finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ciências Sociais –, Matéria em movimento – A ilusão do tempo e o eterno retorno (Martins Fontes) e Dicionário filosófico (Martins Fontes). É tradutora de diversas obras de filosofia e ciências humanas e, durante anos, foi resenhista de livros em jornais e revistas de grande circulação do país. No âmbito da causa animal, é fundadora do NEDA (Núcleo de Estudos de Direitos Animais), o primeiro grupo de estudos voltado para esta reflexão na Filosofia da UERJ. Atua, ocasionalmente, como colunista da ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), é vegana e defensora do abolicionismo como o primeiro passo na luta contra a tirania humana. Na área da proteção animal, tem um trabalho independente e, por vezes, em parceria com outros protetores, retirando cães e gatos do abandono das ruas para fins de adoção (tendo ela própria adotado vários deles).

4 COMENTÁRIOS

  1. Me perdoe, mas o que “esquerda e direita” fazem aqui?
    Direita- sistema;
    Esquerda- povo.

    Hoje a ignorância política de grande parte de nossa população não sabe ou tem qualquer idéia disto posto acima…
    A ganância é humana, não interessa o “lado”.
    O livre árbitro também!

  2. Excelente reflexão como sempre! O capitalismo parece ser o sistema de exploração mais maleável que existiu e existe. A estratégia das empresas de assassinato animal demonstra bem esse aspecto. Muito Obrigado por essa reflexão crucial para todos aqueles que lutam de fato pelo respeito à vida em todas as suas dimensões.

  3. As Empresas assassinas estão em êxtase, pois está cheio de veganos defendendo-as, ou seja, podem continuar torturando e matando animais, destruindo o meio ambiente, explorando tudo e todos, humanos e não humanos balizados por pessoas que não comem carne, porém sem qualquer compromisso com a ética e com o conhecimento sobre o verdadeiro abolicionismo.

  4. Confesso que antes de ler o artigo da professora Regina eu tinha um olhar mais brando para o que agora chamam de veganismo estratégico, mas ela me fez refletir sobre algumas contradições que incorporam o discurso pragmático.

    Ao nos aliarmos nós, defensores dos oprimidos, com os opressores , não estaríamos trabalhando para a lógica da opressão? Sendo o discurso da praticidade voltado para a obtenção de um resultado aparentemente eficaz em atingir o objetivo de se aumentar um público de consumidores que busca saciar seu apetite não estaríamos caindo numa redundância que coloca o veganismo meramente como uma dieta? O veganismo não deveria não se envergonhar de anunciar claramente que o propósito do movimento é pela preservação da vida animal? Então ao se associar com empresas que não levantam a bandeira do ‘livre de crueldade’, mas sim a do sabor que garantias existirão de que esse alimento não venha a ser somente mais uma opção no mercado que conviverá com as demais “opções” de comida de origem animal? Lembrem-se que comer carne não deveria ser encarado como opção, mas como tirania e violência, por isso um produto de origem não animal deveria substituir e não ser mais uma alternativa ao lado de outras “escolhas” como algo corriqueiro e tolerável. De longe vejo o movimento tornar-se fortalecido num futuro longínquo se agora o que até então era o.movimento pelos direitos animais se transformar num acanhado lugar ao sol da deliciosa cozinha vegana.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui