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Estátua! quando é necessário mover!

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A palavra recorde está associada a um desempenho excepcional que supera os anteriores. O ano de 2020, que ainda mal começou, neste sentido, é extraordinário! Já se superou em muitas provas, entretanto tais feitos não são para comemorar. A Antártica registrou, no dia 13 de fevereiro, a temperatura de 18,3° Celsius, a mais alta da história. No Ártico, também o recorde de 20° Celsius, o que tem levado o Mar de Bering a descongelar em pleno inverno. Por detrás de tais proezas, a ação humana, segundo dados do IPCC.

A emissão de gases de efeito estufa que aquece o planeta, até 2030, precisa diminuir mais de 7% ao ano para que o aumento na temperatura média global seja de apenas 1,5° em relação aos níveis pré-industriais. Se mantivermos o ritmo nas emissões, a previsão dos climatologistas é de chegarmos a um aumento de 3,2°, o que seria não mais uma crise, mas uma catástrofe climática irreversível. Para termos uma noção do que isso significa, a temperatura média global em 2019 foi de 1,1° C acima dos níveis pré-industriais, o suficiente para provocar todos os eventos climáticos extremos que estamos presenciando.

Aqui cabem ações urgentes para alterar os modos de produção e consumo, como a revisão dos modelos de economia, desenvolvimento e progresso. Além disso, ações orientando as tomadas de decisão, a revisão da ética com que lidamos com os mais pobres e seus territórios, os imigrantes ambientais e as outras espécies, animais não humanos com quem dividimos nossa Casa, que lutamos para que nos seja comum.

A discussão polariza e pouco avança quando se trata de saber de quem é a responsabilidade. É dos grandes e poderosos ou dos indivíduos? Ingênuo considerar que uma crise de tamanha monta possa suprimir qualquer setor, pessoas ou nação. Há mudanças estruturais e de alta complexidade que dependem do esforço político e coordenado daqueles que detêm o poder. Oportuno destacar a lentidão nas respostas das grandes conferências internacionais que só contribui para agravar a situação.

Do outro lado, os indivíduos, pessoas simples e anônimas. Já entendemos que algo está fora de ordem e dessa constatação vem um outro recorde, que é da nossa apatia. Como é difícil mexer com estruturas de pensamento, hábitos, tradições e estilo de vida! E sobretudo parar a máquina econômica ou redirecioná-la. Ao nível individual, parece que recebemos o comando da brincadeira: estátua! Congelamos e não mais saímos. Aquele que burla a regra e resolve se mover logo é desencorajado, afinal “não adianta”, é o “sistema”. Ora, o tal “sistema” só muda por pressão do “mercado”, pois depende de consumidores que o irão regular. Ele não é o vilão da história. Almeja apenas o lucro e irá nos entregar exatamente aquilo que o nosso desejo de consumo demandar. Pode ser o abacaxi, carro voador, o aço ou carne de cabrito. O sistema, nesse sentido, não tem moral.

Constatamos que, de forma despretensiosa, milhares de indivíduos estão impactando suas famílias, os amigos, sua escola, seu trabalho, as políticas públicas, o mercado, a mídia e a indústria. Não é algo planejado e nem se tem clareza onde tudo isso vai dar; ainda assim, se movem, porque faz sentido se mover.

Há aspectos da vida social que só teremos clareza na longa duração e vendo do alto; entretanto, o fluxo histórico é feito aqui e agora, conforme elucida o sociólogo alemão Norbert Elias, no seu livro “A Sociedade dos Indivíduos”. Ele afirma que a história vai se construindo a partir das pressões exercidas “pelas” e “entre” as pessoas. Visto de perto, é pequeno o poder de uma pessoa, mas são essas microtensões que preparam o terreno para mudanças estruturais da sociedade ou efetivamente as acarretam. Nunca foi tão importante considerar essa perspectiva.

Precisamos nos perguntar: o que repensar, recusar e não autorizar para que a exploração desmedida da Natureza desacelere? Com quem devemos nos conectar e em quais coletivos devemos nos inserir? Podemos provocar e ajudar a escrever novas manchetes e recordes que sinalizem para nossa mudança de estilo de vida, consumo e valores. Essa escrita começa com o indivíduo, no seu caderno chamado “sua vida”, e irá se entrelaçar com muitas outras histórias até, quem sabe, mudar a história.

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