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A psicopatia social e as válvulas de escape dos sistemas

Reprodução | Metro
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Antes de qualquer coisa, gostaria que ficasse claro que a intenção deste artigo não é fomentar o ódio contra qualquer povo (coisa que, aliás, repudio em absoluto, mesmo quando encontro diferenças radicais entre o “meu mundo” e os “outros mundos”). Sem dúvida, não podemos mesmo generalizar qualquer crítica sem incorrermos em erros grosseiros de avaliação, mas é claro que há casos em que é possível detectar numa cultura (e o mais justo a dizer que é possível detectar em todas elas) práticas opressoras e cruéis inteiramente naturalizadas, seja em relação aos humanos, seja em relação aos animais. Seria realmente uma tarefa digno de Sísifo elencar todas elas, embora no que tange aos animais, a questão é sempre mais greve (porque, se já é difícil se contrapor às tradições injustas e desrespeitosas no âmbito da vida humana, imagina quando se trata da exploração animal, sempre tão mais invisibilizada).

Seja como for, para os que hoje reconhecem (e esse número vem aumentando consideravelmente) que os animais são as vítimas mais silenciosas de uma rede de opressão que se inicia com a subjugação absoluta da natureza e termina na sujeição da própria humanidade, não é possível desconsiderar o que está acontecendo agora na China (já conhecida por ser o palco de uma das festas mais sangrentas e cruéis do mundo, a festa de Yulin – na qual se pratica um verdadeiro massacre de cachorros, do modo mais cruel e frio que se possa imaginar). Sim, neste momento em que vemos ocorrer a morte de milhares de chineses vitimados pelo coronavírus, um novo surto de crueldade contra os animais domésticos surge para nos lembrar que, mesmo em meio ao sofrimento extremo, os seres humanos ainda podem ser muito cruéis; ou talvez seja em função mesmo de seus sofrimentos que eles sempre busquem (chineses e não chineses, isso vale para todos) suas compensações deslocadas ou apenas seus bodes expiatórios.

Sim, sobre festas cruéis, é fato que existem muitas pelo mundo afora; e o próprio Brasil tem seus rodeios e vaquejadas, e também muitos animais são mortos brutalmente aqui e em outros países, seja por psicopatas comuns, que se comprazem em matar, seja por um contingente de humanos devidamente insensibilizados para não sentirem mais qualquer piedade, sendo estes os que engrossam as filas de trabalhos, por si só, indignos, e poderíamos citar dentre eles os dos matadouros e dos frigoríficos (que fique claro, no entanto, que não estou aqui para julgar o trabalhador, embora acredite que alguns não consigam fazer tal “trabalho”, mesmo na mais extrema necessidade; estou aqui para dizer que o trabalho de matar e, na maior parte das vezes, com requinte de crueldade, e não sem alguma diversão, não pode ser chamado de digno, e menos ainda podemos chamar de sensível quem gosta desta tarefa e ainda encontra alguma razão para rir da posição degradada dos animais, que sofrem e gritam de dor). Não é fácil esquecer do funcionário de uma fazenda leiteira americana chutando o rosto (eu chamo de rosto, porque não entendo a diferença entre rosto e cara), e queimando, com prazer, e várias vezes, o bezerrinho que nasceu. É disso, afinal, que trata este breve artigo: da psicopatia social, da produção de humanos frios, impassíveis, sem qualquer empatia, para servir ao seu país ou, simplesmente, aos poderosos. Quem, afinal, pode negar que os poderes precisam deste contingente, seja para fazer o trabalho sujo de um mundo que vive da exploração animal e humana, seja para ir às guerras e matar outros seres humanos sem sentir qualquer culpa?

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Sim, com exceção dos animais carnívoros, que matam por uma questão de extrema necessidade de sobrevivência (eles nunca matam por prazer ou diversão, ou por razões puramente mesquinhas), matar não é algo verdadeiramente natural em nós. Sem dúvida, nossa espécie, corrompida pela possibilidade de dominar a natureza inteira, com sua privilegiada inteligência (infelizmente, muito mais usada para usurpar do que para fazer o bem), decidiu, ao inventar suas primeiras ferramentas, “matar para viver”, como afirma o grande historiador das religiões Mircea Eliade. E isso atingiu a humanidade no seu cerne, que começou matando os animais indiscriminadamente e terminou matando a própria espécie. Eis que a cena final do filme “2001: Uma odisseia no espaço”, do cineasta americano Stanley Kubrick, é emblemática quando se trata de mostrar o momento exato em que o animal humano se transforma no “homem”, na “forma-homem” tirânica, onde o desejo de dominar se sobrepõe a qualquer sentimento de compaixão no ser que se acredita o senhor da Terra, o escolhido entre as espécies para governar o mundo. Decerto, as realizações da inteligência humana são incríveis, mas a barbárie manifestada pelo ser dito racional não tem sido menos incrível.

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Não podemos nos estender demais aqui, mas o que queremos dizer é que não se trata de julgar uma pessoa, um povo, uma etnia, um modo de ser, a partir dos nossos pontos de vista e das nossas paixões. Mas se trata, sim, e sempre, de partirmos de alguns princípios éticos básicos, que não podem ser desrespeitados em hipótese alguma sem que transforme um indivíduo, um povo, ou mesmo uma cultura em algo perverso, bárbaro, desumano. É uma fronteira que não podemos passar sem nos transformar em um monstro moral. Quando, afinal, naturalizamos a crueldade, ou antes, quando chamamos de “cultural” o que deveria ser chamado de perverso, cruel e indigno, estamos assinando embaixo da nossa própria opressão, pois agimos como marionetes sem reflexão ou, talvez, apenas já tenhamos perdido nossa humanidade sem perceber. Bem-vindos ao “modus operandi” dos poderes tirânicos estabelecidos: eles vão minando nossas alegrias, nossas forças, nossa potência, até nos reduzirem a simples autômatos, como sempre mostraram muito bem Nietzsche, Deleuze ou Foucault.

Quando, afinal, penso na festa de Yulin (o foco, neste momento, é a China e eu já disse a razão) e no atual frenesi coletivo que faz os chineses assassinarem, também agora, a pauladas, a marretadas, os cães e os gatos, com medo de pegarem o coronavírus, e mesmo sem haver nenhuma comprovação de que o vírus possa ser transmitido por eles (que, ainda assim, deveriam apenas ser colocados em quarentena), confesso que minha primeira reação é de horror, raiva (é a paixão que grita primeiro em nós e como ser apaixonado que também sou, minha vontade é de revidar), mas, então, quando o pensamento toma conta, quando os sentimentos mais verdadeiros se aprumam, eu vejo neles os próprios autômatos que nos tornamos. Eu vejo seres infelizes destilando seu ódio introjetado e sufocado; vejo mentes que poderiam ser brilhantes servindo a forças baixas e boçais, porque também não tiveram escolha diante do massacre dos poderes que lhes roubaram as suas vidas e humanidade. E não estou falando aqui de comunismo; isso serve para todos os sistemas, governos e poderes que nos transformam em meros joguetes, em peças de um jogo perverso em que apenas muito poucos realmente se beneficiam.

Em poucas palavras, os frenesis coletivos de violência funcionam como catarses, não sendo nada além de uma válvula de escape, que interessa aos poderes para continuar mantendo dóceis os seus governados. No caso da China, o massacre de Yulin e a chacina de agora não são coisas distintas. Em ambos os casos, por mais que se trate de uma civilização milenar, repleta de belezas culturais e que tem muito a nos ensinar em tantos aspectos, vigora um desrespeito também milenar pela vida dos animais – como, aliás, em quase todas as culturas conhecidas, o que não significa dizer também que não existam muitos chineses tocados por este desprezo e que lutam, e até se expõem à morte, para salvar os animais.

O que quero dizer, por fim, é que não aceito nem o massacre dos animais, nem o massacre das mentes humanas. Mas, antes de qualquer outra coisa, é preciso deter este massacre atual dos pobres cães, inocentes amigos do homem e sempre tão aviltados em sua natureza e vidas; e também dos gatos, odiados durante muito tempo, no próprio Ocidente, por conta das ficções e superstições criadas pelas almas mais amedrontadas e fabuladoras. Quem odeia os animais, de qualquer espécie, e que julga que eles não têm qualquer direito a viver e a serem livres, quem não se importa com a covardia com a qual eles são tratados, ainda não entendeu como participa ativamente de uma lógica que faz de todos nós vítimas e carrascos, colaborando para colocar mais um cadeado na jaula animal, e também na jaula humana que, por vezes, é chamada de “cultura”. Está tudo errado, e antes de tudo, estão equivocadas as convicções a que chegaram alguns intelectuais: a de que “cultural” é uma espécie de palavra mágica que torna tudo lícito e também a de que toda cultura merece respeito irrestrito, mesmo que esteja repleta de elementos cruéis, abjetos e abusivos. A tirania não é menos tirania porque o social a reproduz sem pensar (voltamos ao massacre das mentes!). É pela cultura que também nos tornamos bárbaros, porque a cultura (e aqui volto-me para a minha própria cultura) está impregnada de preconceitos que legitimam e naturalizam a exploração das vidas, humanas e animais. Pela cultura, aprendemos a ignorar a exploração, a não ser quando ela nos atinge. Mas ela nos atinge sempre, mesmo quando apenas nos faz cúmplices destas violações.

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Pelo fim da festa de Yulin e pelo fim da atual matança dos cães e gatos numa China contaminada por um vírus mortal, mas não menos adoecida psíquica e moralmente por seu especismo milenar.

* Regina Schöpke é filósofa, historiadora e, atualmente, ocupa o cargo de Professora Adjunta do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UERJ. Tem Pós-Doutorado em Filosofia pela PUC-PR, Doutorado em Filosofia pela UNICAMP, Mestrado em Filosofia pela UFRJ, Mestrado em História Medieval pela UFF, tendo feito sua graduação em filosofia na própria UERJ. É autora dos livros Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze, o pensador nômade (Contraponto) – finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ciências Sociais –, Matéria em movimento – A ilusão do tempo e o eterno retorno (Martins Fontes) e Dicionário filosófico (Martins Fontes). É tradutora de diversas obras de filosofia e ciências humanas e, durante anos, foi resenhista de livros em jornais e revistas de grande circulação do país. No âmbito da causa animal, é fundadora do NEDA (Núcleo de Estudos de Direitos Animais), o primeiro grupo de estudos voltado para esta reflexão na Filosofia da UERJ. Atuou (e ainda atua ocasionalmente) como colunista da ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais), é vegana e defensora do abolicionismo como o primeiro passo na luta contra a tirania humana.

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