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Feliz ano novo?

Foto: ANIMAL/Ecostorm
Foto: ANIMAL/Ecostorm

Estamos todas/os absolutamente em choque com o que está a acontecer na Austrália. Por várias razões, claro, mas tendo em conta o âmbito desta coluna, vou cingir-me à questão dos animais. Estima-se que cerca de mil milhões de animais já tenham morrido nos incêndios. Este é um número impossível sequer de conseguirmos imaginar. Nunca nenhum/a de nós viu um milhão de animais ao vivo, é um número avassalador só de pensar.

A tristeza e a preocupação das pessoas é comovedora e é, felizmente, denunciadora de que não está tudo perdido, quero dizer, de que as pessoas têm “coração”, estão preocupadas também com este tipo de perda e não apenas com as perdas humanas e materiais. Aquilo que gostaria hoje de fazer aqui convosco seria pedir-vos para pensarem um bocadinho comigo no seguinte: por que razão nos aflige tanto que coalas e cangurus (a título de exemplo, pelo seu simbolismo na zona geográfica em questão) estejam a morrer queimados?  As imagens que circulam são atrozes e chocam qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade, claro! É precisamente por conta da nossa sensibilidade e empatia pelo sofrimento daqueles infelizes animais que nos afligimos e queremos ajudar a evitar mais mortes.

É sabido que diariamente morrem biliões de animais das formas mais atrozes possíveis. Animais de todas as espécies que nos possam passar pela cabeça. Seja por via da caça, por electrocussão anal ou vaginal, por sangria, por quebra de pescoço, concussão, asfixia, só para mencionar uns poucos métodos. A verdade, quer queiramos pensar nela ou não, é esta. São biliões de animais, biliões de indivíduos sencientes que têm o mesmíssimo interesse em se manterem vivos que têm os coalas e cangurus que vemos carbonizados ou em sofrimento por causa dos fogos. Eu vi dezenas de porcos serem queimados enquanto ainda estavam conscientes. Sim, isso sucede. E sim, é apenas mais um exemplo. Teria cada um daqueles porcos menos importância do que um animal selvagem com interesse “ecológico”? A resposta sabemo-la todas/os bem; não.

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Somos educadas/os e crescemos num ambiente que propicia uma certa dissonância cognitiva, ou seja, aquilo em que acreditamos discrepa da forma como nos comportamos. Claro que isso nos causa desconforto, logo, acabamos por escolher uma de duas hipóteses; ou adaptamos o comportamento à crença que temos ou decidimos encontrar formas de justificar esse comportamento, ajustando a crença da forma que nos for mais conveniente, acabando por escolher nem pensar muito no assunto. E assim seguimos…

Estamos em 2020, a ciência avançou de uma forma tal que aquilo que sabemos hoje sobre os outros animais (os que não são humanos) é mais do que suficiente para nos fazer reflectir, e, em resultado dessa reflexão, alterar a nossa forma de estar, tentando, dentro dos limites do possível, causar o mínimo de impacto que pudermos.

Dei o exemplo do panorama Australiano porque é muito actual, e, creio, pode ser útil na discussão. Apelo, assim, a que possamos dedicar um pouco do nosso tempo a pensar na forma como fazemos esta divisão entre espécies, esta forma de segregação entre quem tem o direito a ser protegido e quem não tem. Com que base fazemos essa separação?

Deixo a sugestão para que aproveitemos o início do ano para pensarmos um pouco sobre isto e tomarmos algumas decisões, se for caso disso.

*Rita Silva é ativista pelos direitos animais, Presidente da ONG ANIMAL e Southern Europe and Latin America Campaign Manager da Cruelty Free International. É membro coordenador e  uma das fundadoras da Rede Mundial para a Abolição da Tauromaquia, grupo com o qual continua a colaborar.

**Este texto foi escrito em Português de Portugal e sem recurso ao novo Acordo Ortográfico.

1 COMENTÁRIO

  1. A principal diferença é que os animais vitimas dos incêndios morrem sem qualquer proveito. Os outros morrem para que a “cadeia alimentar” (um processo biológico natural) funcione.

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