Morre em SP Ana Maria Primavesi, referência mundial em agroecologia e exemplo de amor à natureza


Divulgação

Doutora Ana Primavesi, maior referência mundial em agroecologia e manejo ético do solo, morreu neste domingo (05) aos 99 anos, 10 meses antes de comemorar seu centenário. Sua incrível, inspiradora e brilhante história de vida é marcada por sua incansável luta pela conscientização do reconhecimento do solo enquanto organismo vivo que precisa ter suas necessidades biológicas respeitadas e sua biodiversidade preservada.

Sempre resiliente e movida pela compaixão, Ana dedicou 80 anos ao respeito ao solo, à natureza e à construção de um mundo mais sustentável e equilibrado. Chamada carinhosamente de “jatobá sagrado” devido a sua longevidade e inspiração quase divinal, ela metamorfoseou a perda dos pais, irmãos, do marido e de um filho querido, em força para transmitir o mais profundo e puro amor.

Não só genial, a pesquisadora é um ícone feminino. Ela foi uma das 3 mulheres a serem admitidas na Universidade de Viena em 1940. Estudou ciências agronômicas, um curso predominantemente dominado por homens. Nunca se abateu. Cresceu em uma propriedade rural e herdou do pai o amor pela terra, que ela considerava sagrada pelo seu poder de trazer em seio a sobrevivência da humanidade.

Sempre buscando compartilhar seu respeito pela natureza, encontrou no Brasil um campo fértil para produzir novos conhecimento e práticas para o desenvolvimento sustentável do solo. As batalhas que enfrentou não foram fáceis. Ana enfrentou resistência ao propor práticas de exploração mínima do solo e maior preservação da biodiversidade local, pois acreditava que a atividade biológica natural era mais eficiente do que qualquer insumo químico ou artificial.

A principal missão da doutora Ana era a vida. Do primeiro até seu último dia vida, a pesquisadora buscou formas de expressar seu amor pelo planeta e por todos os seus habitantes. A mensagem que deixa é a de compaixão, união e paz. Hoje o coração de Ana deu sua última batida física, mas pulsa suavemente em cada um de nós. Descanse em paz doutora Ana Primavesi.

Dedicação a toda prova

Divulgação

Nascida Annemarie Baronesa Conrad, Ana Primavesi veio ao mundo em 3 de outubro de 1920. Aos 20 anos ela foi admitida na Universidade de Viena, onde conquistou o respeito dos colegas e mentores. Engenheira agrônoma de renome, chegou ao Brasil da década de 60 acompanhada de seu marido, Arthur Primavesi.

Ana foi professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFMS), tendo papel fundamental da fundação do primeiro curso de pós-graduação relacionado à agricultura orgânica. É também fundadora da Associação da Agricultura Orgânica (AAO) e autora de 11 livros, inclusive “Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais”, publicação de referência em estudos agrários em toda a América Latina.

A pesquisadora também é autora de cerca de 100 artigos científicos publicados no Brasil e no exterior e vencedora do prêmio One World Award da IFOAM, além de ter recebido diversos títulos honrosos em diversas universidades brasileiras. Sua trajetória é inenarrável e sua reputação impecável.

Milhares de alunos, colegas e admiradores usaram suas redes sociais neste domingo para compartilharem um pouco do que Ana representou em suas vidas. Familiares usaram o perfil da cientista para publicar uma bela e emocionante homagem. Leia abaixo na íntegra:

“Nossa querida Ana Maria Primavesi faleceu hoje, aos 99 anos de idade. Quase um século de vida, cerca de 80 anos dedicados à ciência no e do campo. Descansa uma mente notável, uma mulher de força incomum e um ser humano raro.

Afastada de suas atividades desde que passou a morar em São Paulo com a filha Carin, Ana recolheu-se.

Quase centenária, era uma alma jovem num corpo envelhecido que, mesmo se tivesse uma vitalidade para mais 200 anos, não acompanharia uma mente como a dela.

Annemarie Baronesa Conrad, seu nome de solteira, desde pequena apaixonou-se pela natureza, inspirada pelo pai. Naturalmente entrou para a faculdade de agronomia, mesmo Hitler tentando fazer com que as “cabeças pensantes” desistissem de estudar. Ela não só era uma das raras mulheres na faculdade como também aquela que destacou-se por seu talento natural em compreender o invisível: a vida microscópica contida nos solos.

Nestes 99 anos de vida, enfrentou todas as perdas que uma pessoa pode sofrer: irmãos, primos e tios na Segunda Guerra. Posteriormente, pai, mãe, marido. E seu caçula Arturzinho, a maior das chagas, que é perder um filho.

Sua morte hoje, causada por problemas relacionados ao coração, encerra uma vida de lutas em vários âmbitos, o principal deles na defesa de uma agricultura ecológica, ou Agroecologia, termo que surge a partir de seus estudos e ensinamentos. Não parece ser à toa que esse coração, que aguentou tantas emoções (boas e ruins) agora precise descansar.

Nosso jatobá sagrado, cuja seiva alimentou saberes e por sob a copa nos abrigamos no acolhimento de compreendermos de onde viemos e para onde vamos, tomba, quase centenário. Ele abre uma clareira imensa que proporcionará ao sol debruçar-se sobre uma nova etapa, a da perpetuação da vida. E dos saberes que ela disseminou.

Antes de tombar, nosso jatobá sagrado lançou tantas sementes, mas tantas, que agora o mundo está repleto de mudas vigorosas, prontas a enfrentar as barreiras que a impediriam de crescer. Essas mudas somos todos nós, cada um que a amou em vida, cada um a seu modo.

Nossa gratidão pelo legado único que nos deixa essa árvore frondosa, cuja luta pelo amor à natureza prevaleceu. A luta passa a ser nossa daqui em diante, uma luta pela vida do solo, por uma agricultura respeitosa, por uma educação que se volte mais ao campo e suas múltiplas relações.

Ana Primavesi permanecerá perpetuamente em nossas vidas”.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

Você viu?

DADOS ALARMANTES

ÓRFÃO

INVESTIGAÇÃO

ESTELIONATO

MORTE ACIDENTAL

ALARMANTE

NOVA CHANCE

DESUMANIDADE

SALVAMENTO


LEIA EM PRIMEIRA MÃO AS NOTÍCIAS MAIS ANIMAIS DO MUNDO

>