Medicina retrógrada

O uso desumano do coração não humano

Agarrados a uma ciência do século passado, pesquisadores ainda insistem em transplantes que se utilizam de animais vivos ou criados especialmente para terem seus órgãos arrancados em benefício dos humanos

Porcos na Alemanha são criados para terem seus corações retirados para transplante. Foto Roy Buri/Pixabay

Tudo evolui, inclusive a medicina. Insistir em métodos antigos não é apenas antiético como também ineficiente: gasta-se muito dinheiro e coloca-se a vida de milhares de pessoas em risco à custa ainda de um intenso sofrimento animal.  O xenotransplante (transplante de órgãos entre diferentes espécies) pertence a uma época em que não se tinha outras alternativas como os “órgãos artificiais” – cada vez mais perfeitos diminuindo drasticamente problemas como rejeição.

Além disso, uma única pessoa em bom estado de saúde, ao morrer, pode ajudar muitas outras, como aconteceu recentemente com o apresentador Gugu Liberato que doou todos seus órgãos. São mais de 33 mil pessoas na fila de espera por um transplante no Brasil e muitas morrem antes de receber o novo órgão. Então por que não se investe em grandes campanhas de doação de órgãos?

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Se as pessoas fossem mais solidárias e doassem seus orgãos, milhares de vidas seriam salvas. Foto: Pexels/Pixabay

No entanto, ainda são investidos milhões de dólares na criação de cobaias como porcos para arrancar-lhes órgãos como o coração. Numa fazenda em Bavária, na Alemanha, 120 porcos modificados geneticamente aguardam o momento de terem seus órgãos transplantados – conforme relata matéria do UOL baseada em artigo recentemente publicado na revista MIT Technology Review.

Como a maior consequência do uso de órgãos de animais em humanos sempre foi a rejeição, principalmente órgãos como o coração, os pesquisadores fizeram três modificações genéticas nos porcos a fim de evitar o problema e estão executando os transplantes, num primeiro momento, em primatas. Quatorze babuínos já receberam corações dos porcos, sendo que apenas dois sobreviveram pelo período de seis meses.

Além dos porcos, babuínos também são cobaias em projeto alemão de transplantes. Foto: Peter Kraayvanger/Pixabay

Será esse o futuro da medicina ou justamente um passo atrás? A medicina futurística, sem cobaias que passam suas vidas mergulhadas em dor e angústia, tem tudo para deslanchar se assim os pesquisadores e a sociedade quiserem.

Coração artificial

Matéria da revista “Isto É”  de 2018 explica que “os aparelhos conhecidos como corações artificiais têm a função de dar assistência ao ventrículo esquerdo, onde se inicia a aorta, artéria responsável por distribuir, a partir do coração, sangue oxigenado para o restante do organismo. Por isso, ajudam a garantir o bombeamento adequado do sangue em pacientes com insuficiência cardíaca. A doença é caracterizada pela incapacidade de o músculo cardíaco realizar esse bombeamento corretamente. Calcula-se que trinta mil brasileiros apresentem a condição”.

O problema em relação ao transplante tradicional, segundo a reportagem, é que muitos pacientes não têm tempo para a espera ou apresentam contraindicações, como idade superior a 65 anos, ser portador do HIV, ter câncer ou manifestar alguma condição que debilite seu sistema de defesa. Nesses casos, o coração artificial é a solução. “No Brasil, usa-se pouco esse recurso”, lamentou a cardiologista Juliana Giorgi à revista na época.

Batida artificial

A impressão 3D pode reproduzir orgãos e vários experimentos bem-sucedidos estão em andamento. Foto: Gerd Altmann/Pixabay

Em 2018 a imprensa noticiou efusivamente o caso de Silvestre Pereira da Silva (56 anos) que, após sofrer três infartos foi transplantado com um coração artificial no Espírito Santo. Ele recebeu o implante considerado o mais moderno do mundo na ocasião, conhecido como HeartMate III. O aparelho foi aprovado em 2017 pela Food and Druga Administration (FDA), agência reguladora americana.

Em novembro daquele ano, o paciente concedeu coletiva no Hospital Metropolitano sobre sua recuperação: “Não sinto nenhum desconforto. No geral a cicatrização foi rápida e hoje estou vivendo tranquilo e bem com isso”. O coração artificial alerta, por meio de um dispositivo externo, sobre os cuidados necessários: “Quando eu fico muito tempo sem tomar água, comer ou é necessário ir ao hospital ele me avisa”, explicou o paciente.

Órgãos artificiais em desenvolvimento no Brasil

Segundo artigo do site Saúde Acate “atualmente, no Brasil, a tecnologia já permite que tecidos mais simples sejam fabricados em laboratório: valvas cardíacas, vasos sanguíneos, pele, ossos e outros tecidos de baixa complexidade. Para que o órgão artificial possa substituir o de origem, são usadas as biomoléculas (fragmentos de células-tronco), que são fatores de crescimento e, assim, conseguem aumentar a produção de células nesse órgão”.

“Depois de algum tempo, em um ambiente propício, as células começam a ocupar o lugar do polímero, dando uma estrutura biológica ao órgão em questão. Ocorrerá uma diferenciação específica e as células passam a apresentar as características de uma determinada parte do corpo. Tudo isso graças aos avanços em estudos com as células-tronco e ao seu poder de diferenciação e regeneração de tecidos”.

Conforme o artigo, a grande dificuldade na criação dos órgãos artificiais é justamente a elevada complexidade de alguns deles, mas a impressão em 3D ou bioimpressão está começando a dar conta desse problema.

“Uma das grandes vantagens da impressora 3D para a medicina é que ela consegue materializar, da forma mais parecida possível, uma informação digital. As estruturas podem ser personalizadas com texturas, graduações, cores diversas e transparências de forma que o objeto possa reproduzir da melhor forma a sensação, o aspecto e a função das estruturas do nosso corpo” – diz o artigo.

Além da miserável vida nos matadouros, os porcos têm sido agora os preferidos para experimentos médicos. No entanto, a impressão 3 D pode resolver a questão dos transplantes. Foto: Public Domain Pictures/Pixabay

A cura no próprio corpo – com informações do site Saúde Acate

Muitos testes estão sendo realizados com a utilização das células dos próprios pacientes, por exemplo, a criação de novos vasos sanguíneos artificiais para o tratamento de problemas diabéticos, renais e cardíacos.

A espera por um fígado costuma demorar muito tempo. Os cientistas sentem maior dificuldade em reproduzir esse órgão por ser muito complexo, mas algumas miniaturas já foram criadas.

A bexiga artificial já está sendo testada em humanos e vem apresentando um resultado bastante positivo. É produzida a partir de células dos próprios pacientes. Uma menina nos EUA recebeu uma traqueia artificial também fabricada a partir de suas próprias células. Ela nasceu sem o órgão e sem a réplica artificial só sobreviveria com a ajuda de aparelhos.

Pelo fim das cobaias

Babuínos recebem corações de porcos geneticamente modificados em experimento na Alemanha. Foto: Herbert Aust/Pixabay

Muitos cientistas acreditam que a impressão 3D pode ser a solução para os  transplantes oferecendo menor risco de rejeição e melhor qualidade de vida para os pacientes. No entanto, até mesmo essa tecnologia ainda tem um lado obscuro porque muitos dos órgãos artificiais são testados em animais antes de irem para humanos.

A esperança é que novos recursos surjam para que isso seja evitado, mesmo porque, o fato de um órgão artificial funcionar num babuíno, por exemplo, não é garantia de que funcionará num humano e nem mesmo  que funcionará em outro babuíno.

Cada espécie tem suas especificações biológicas e, dentro de cada espécie, cada indivíduo tem suas próprias particularidades. O homem precisa assumir a responsabilidade total pela cura de suas doenças usando de sua avançada inteligência em métodos modernos, éticos e eficientes.

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

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