Abuso e crueldade

Apetite chinês por pele de jumento ameaça a existência da espécie no Brasil

No ritmo em que os animais têm sido mortos, a população de jumentos pode ser completamente dizimada em 5 anos no país

Foto: ALEXANDRE GUZANSHE
Foto: ALEXANDRE GUZANSHE

A demanda chinesa pelo “eijão” – uma gelatina extraída da pele dos jumentos e valorizada por seu uso nas indústrias tradicionais de medicina e cosméticos do país – está ameaçando a existência da população de burros no Brasil, com os animais frequentemente sofrendo crueldade e maus-tratos antes de serem mortos.

O “eijão”, obtido por imersão e estufagem de peles de burro, tem sido usado para fins medicinais na China há séculos. Mas o aumento da riqueza da crescente classe média chinesa levou a uma demanda vertiginosa e a uma explosão no valor do produto, criando uma indústria poderosa. A China consome quase cinco milhões de peles de burro por ano – cada uma no valor de até 3 mil dólares no mercado asiático, segundo algumas fontes.

Os burros são difíceis de criar, então a China se voltou para os cantos mais pobres do mundo para atender a sua demanda. Uma campanha concentrada de empresas chinesas, aliada à pressão política, conseguiu a exportação de centenas de milhares de burros da África e da América do Sul. E nas regiões rurais muitas vezes mais empobrecidas do nordeste do Brasil, isso teve consequências devastadoras para as chances de sobrevivência do animal – e para o modo de vida da região.

“Se você tem um jumento, agarre-se a ele”, diz o fazendeiro de chapéu de couro José Araújo de Souza no mercado de gado em Cansanção, a 320 km de Salvador, capital do estado da Bahia. “Os dias do burro estão contados!”, continuou ele, enquanto três mulas esperam pacientemente pelo novo tutor em uma área próxima à sombra.

A força e resistência do burro o tornam ideal para o trabalho árduo do vasto sertão, o interior judiado pela seca do país, e tradicionalmente o tornaram uma visão comum em toda essa paisagem áspera. Mas, em uma recente caminhada de 1.600 milhas pelo sertão, a sudoeste da Bahia, região onde o comércio de peles de burro é mais intenso, o repórter do jornal Independent viu apenas 15 animais.

Desde que a Bahia concordou em exportar carne e couro de burro para a China em julho de 2017, mais de 100 mil burros foram mortos em três matadouros no estado, e a meta ainda é exportar 200 mil por ano – embora, de acordo com estatísticas oficiais de 2012, o Brasil seja lar de pouco mais de 900 mil burros. Se a taxa de morte dos animais atingir as taxas solicitadas pela China, os burros poderão desaparecer do país em menos de cinco anos.

Os comerciantes oportunistas pegam os burros na natureza ou os compram de agricultores sem noção do seu valor potencial por apenas 50 reais. Pessoas inescrupulosas – como trabalhadores rurais, comerciantes, transportadores, agricultores e empresas de logística – formam uma cadeia de suprimentos repleta de práticas obscuras e pouca regulamentação.

Os burros são transportados em caminhões ao longo de estradas secundárias à noite, às vezes por mais de mil quilômetros sem comida ou água, para evitar batidas policiais e verificações de autorizações obrigatórias. Em seguida, eles são mantidos por fazendeiros locais, em locais próximos dos matadouros, que geralmente são de propriedade de empresas chinesas.

Herysnaldo Marinho, dono de uma fazenda no interior baiano, admite abertamente que as licenças são forjadas ou falsificadas para ocultar a verdadeira origem dos animais. Um dos 12 fornecedores de burros da empresa de carne processada Cabra Forte, diz que os motoristas de caminhão colocam incorretamente sua fazenda como o ponto de origem da carga. Na verdade, ele diz, os burros chegam de um comerciante conhecido apenas como “Moral” que percorre o nordeste em busca do animal.

Essa falta de regulamentação e inspeção pode ter consequências terríveis para os próprios burros. Em 2018, abutres cercaram uma fazenda adjacente à Fábrica de Frigoríficos Regional Sudoeste, na cidade de Itapetinga. Quando os moradores chegaram à propriedade, encontraram mais de mil burros prostrados no chão. Duzentos estavam mortos, enquanto outros 800 estavam famintos, desnutridos, com sede ou muito fracos para se mover. Um vídeo mostra um jovem burro tentando “sair” do corpo de sua mãe, que estava doente e fraca demais para dar à luz. Ambos morreram mais tarde. Em outro, um burro enfraquecido luta para se libertar de uma massa sufocante de corpos.

A fazenda foi alugada pela corretora chinesa Cuifeng Lin, que leva o mesmo nome de seu proprietário. Lin e seu marido, Zenan Wen, acabaram sendo acusados de crueldade com os animais e de poluir um rio próximo, envenenado pelos corpos em decomposição dos burros. Em novembro de 2018, um tribunal proibiu a morte de burros em todo o estado da Bahia. Cuifeng Lin se recusou a comentar.

“Foi terrível, nunca vimos nada parecido aqui”, lembra Irineu Andrade, chefe de polícia de Itapetinga. “Os animais não tinham comida suficiente e foram para o rio em busca de água e acabaram se afogando, porque não podiam voltar (por serem tão fracos)”.

Dias após a descoberta das cenas horríveis em Itapetinga, uma segunda fazenda na região foi fechada. Seu dono, João Batista, que pagou 150 reais por cada caminhão de burros que passava por sua fazenda, foi multado.

“Eu me senti mal pelos animais, você sofre ao lado deles”, diz Batista, arrependido. “Os burros já estavam morrendo de fome quando deixaram Pernambuco e passaram dois ou três dias sem comida e, quando chegaram aqui, estavam roendo a casca das plantas.”

Cinco meses depois, em Euclides da Cunha, a 660 quilômetros de Itapetinga, surgiram novas denúncias de abuso envolvendo Cuifeng Lin. Na fazenda Santa Isabel, outros 800 animais foram encontrados vivendo em condições igualmente insalubres, enquanto pelo menos outros 400 estavam mortos. “Nenhum dos caminhões que chegaram aqui tinha permissão de transporte”, diz Marcia Costa Miranda, gerente da propriedade. “Eu sabia que aquilo estava errado, porque tantos burros estavam morrendo, mas eu não sou fiscal, então o que eu deveria fazer?”.

Segundo Miranda, a empresa mantinha os animais com pouca comida de propósito. “Eles disseram que os burros desnutridos eram melhores porque a pele ficava mais fácil de ser tirada”, diz ela.

Mesmo depois que o tribunal proibiu a morte de burros, caminhões de animais continuaram chegando à fazenda. Os recém-chegados eram descarregados e confinados a uma área apertada, sem pasto.

Da mesma forma, a situação também não melhora em nada na cadeia de suprimentos. Até recentemente, nenhuma empresa brasileira tinha permissão para exportar a pele e a carne dos burros. Para burlar a regra, elas foram compradas por empresas de logística de outras partes da Ásia – que pagam entre 270 e 400 reais por animal – e transportados de Salvador para portos como Hai Phong, no Vietnã e Hong Kong. “Os burros chegam como contrabando”, diz Rui Leal, da Agência de Segurança da Agricultura da Bahia.

As necessidades econômicas do nordeste, no entanto, significam que muitos – incluindo os principais políticos – estão dispostos a fechar os olhos para o que acontece.

Quando a morte de burros foi proibida na Bahia, a pequena cidade de Amargosa perdeu 150 empregos diretos e 200 indiretos com o fechamento da fábrica de frigoríficos Frinordeste. Como resultado, empresários locais e o conselho da cidade, apoiados por muitos moradores da região, apelaram da decisão.

A liminar acabou por ser revogada em setembro deste ano, com setor judicial regional responsável do tribunal federal declarando que a proibição causou “sérios danos à ordem e à economia da região” e resultou em uma “perda de investimento nacional e internacional”.

“Você podia sentir que as pessoas estavam comemorando quando a morte de jumentos recomeçou”, diz o diretor da rádio local Eduardo Gordiano. “Não houve queixas de burros maltratados aqui e as pessoas não se importavam com o que acontecia nas outras cidades”.

De acordo com os registros fiscais do país, há dois representantes brasileiros e dois chineses no conselho da Frinordeste. Mas, segundo o empresário Walter Andrade Filho, ou “Walter do Couro”, como é conhecido, um dos quatro fornecedores aprovados de burros para a empresa de frigoríficos, hoje a Frinordeste, é de propriedade chinesa. A empresa tornou-se recentemente o primeiro negócio brasileiro autorizado a exportar burros diretamente para a China. Isso levará a um crescimento significativo no comércio de peles de burro. “Tudo está pronto para colocar o matadouro em funcionamento”, diz ele. “As pessoas mal podem esperar para matar os burros”.

Ele vê uma demanda ainda maior no futuro. “Hoje conseguimos os burros da natureza, de graça ou num valor irrisório, mas se a China continuar comprando, começaremos a produzi-los”, diz ele.

Alguns, no entanto, acreditam que os burros brasileiros estão sendo vendidos barato, comparado com o que valem na China. “Os burros vão para os chineses como brindes”, diz Sonia Martins Teodoro, representante da ONG SOS Animais em Itapetinga, que monitora as queixas de abuso.

Embora o Ministério da Agricultura brasileiro não tenha fornecido dados oficiais sobre o setor, cálculos aproximados mostram que o comércio de burros gerou uma receita bruta de cerca de 7,5 milhões de libras para os frigoríficos da Bahia em pouco mais de um ano – sugerindo uma pequena fração do eventual comércio valor.

O acordo com a China foi intermediado pelos governos brasileiro e baiano de forma a atrair mais investimentos, segundo Teodoro. A Bahia espera receber grandes obras de infraestrutura chinesa nos próximos anos, incluindo a construção e revitalização de portos, pontes e linhas ferroviárias.

Os burros sobreviventes em Itapetinga tiveram que ser sacrificados, enquanto os de Euclides da Cunha foram adotados pela Frente Nacional de Defesa dos Burros, uma ONG que luta contra os maus-tratos aos animais. Quase um ano depois, alguns dos burros ainda estão vulneráveis. “Alguns ainda estão debilitados e não conseguem se defender por conta própria”, diz a veterinária Aline Rocha, que cuida deles diariamente.

A doença é outra ameaça para os burros. Segundo uma análise, cerca de 5% dos animais de Euclides da Cunha morreram de doenças como glândulas inflamadas e anemia infecciosa. “O estresse intensifica as doenças, que são transmitidas entre os animais, como em um campo de concentração”, diz o veterinário Pierre Barnabe Escodro, professor da Universidade Federal de Alagoas.

Adroaldo Jose Zanella, professor de medicina veterinária da Universidade de São Paulo (USP), está trabalhando urgentemente no desenvolvimento de estratégias sustentáveis para os burros do nordeste do Brasil.

“Estamos tentando construir um nordeste do século XXI que possa conviver com os burros, porque um animal que dura 500 anos não pode desaparecer em cinco”, conclui o veterinário. As informações são do Independent.

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui