Os gatos do Parque do Ibirapuera (SP) são referência em controle ético


O método de CED (Captura, Esterilização e Devolução ao local de origem) é uma tendência mundial para controle populacional de felinos em parques públicos ou privados

Lollo é um dos gatos monitorados pela ONG Bicho no Parque. Foto divulgação

O Parque do Ibirapuera em SP tem algumas colônias de gatos monitoradas pela ONG Bicho no Parque. Os belos gatos desfilam pelo gramado dando um charme extra a um dos mais importantes cartões postais da cidade.

“O projeto tem total apoio e participação da prefeitura em captura, esterilização, vacinação e devolução (CED) dos gatos. Para gatos ferais e ariscos, é a solução mundialmente utilizada. Pouquíssimas vezes são utilizados recursos próprios para as esterilizações em clínica parceira. A população do parque já está controlada há alguns anos, mas é necessário prestar muita atenção nos abandonos, que são muitos. Senão, a coisa foge do controle e começa tudo de novo”,

De fato, a recomendação da OMS é o método conhecido como CED – Captura, Esterilização/Vacinação e Devolução ao local de origem como praças, parques e outras áreas públicas ou privadas. Isso porque a remoção de uma colônia de gatos só tem um resultado, negativo tanto para os animais quanto para a população humana: a formação, muito rapidamente, de uma nova colônia não-castrada e nem vacinada – é o chamado “efeito vácuo” (a retirada dos felinos abre imediatamente espaço para que outros animais se apoderem do local tornando esse procedimento, além de antiético, também inútil para o controle populacional).

A charmosa Penélope, atendida pela ONG Bicho no Parque, arranca suspiros de admiradores. Foto divulgação.

Por isso, monitorar (e não remover) uma colônia de gatos é a melhor opção, principalmente, sob o ponto de vista de saúde pública, pois, gatos castrados, vacinados e saudáveis têm muito menos chance de ficarem doentes e, consequentemente, transmitirem doenças.

Além disso, os gatos são ótimos para evitar colônias de ratos, que oferecem um risco muito maior à saúde dos frequentadores dessas áreas públicas. Outros exemplos de CED bem-sucedidos são no Parque da Aclimação e no Parque da Independência, também em SP.

LEI em SP protege “Animais Comunitários”

Vale lembrar ainda que a Lei 12.916/2008 (a mesma que acabou com a “carrocinha” em SP) diz: “O animal reconhecido como comunitário será recolhido para fins de esterilização, registro e devolução à comunidade de origem, após identificação e assinatura de termo de compromisso de seu cuidador principal. Para efeitos desta lei considera-se cão comunitário aquele que estabelece com a comunidade em que vive laços de dependência e de manutenção, embora não possua responsável único e definido”. Embora a lei use o termo “cão comunitário”, fala também em “animal comunitário” no qual os gatos de parque, por analogia, podem se encaixar se tiverem essa relação de dependência com humanos.

Xerife só quer um dengo. Foto divulgação.

Outra Lei (federal), a 9.605 de crimes ambientais, pune quem maltrata, fere ou mutila animais. Condutas como de envenenamento de gatos, além de ser crime previsto por essa lei, coloca em risco também toda a fauna local (inclusive pássaros que podem bicar o veneno), cães e crianças que tenham acidentalmente contato com vestígios de venenos como o chumbinho cuja venda e uso que são também proibidos por lei.

Palavra de especialista sobre fauna nativa

Uma preocupação de vários frequentadores de parques é a preservação dos pássaros. Ocorre que os gatos que vivem em parques não são selvagens. Alguns são arredios devido ao trauma do abandono ou de maus-tratos, mas a maior parte deles já teve um lar. São animais completamente dependentes do alimento ofertado pelas protetoras.

Quando se observa a diminuição de pássaros em um determinado parque, geralmente é por causa de outros fatores como explica a bióloga Francielli Vergino que, durante oito anos, participou do grupo que acompanha a colônia felina do Parque da Independência em SP.

“O maior problema não está nos gatos, mas na irresponsabilidade das pessoas que os abandonam e que retiram dos parques os alimentos dos pássaros. Além disso, gato alimentado não sai caçando. Os gatos do Parque Independência são bem alimentados com ração. Eles comem e dormem. É isso que eles fazem”.

Pirata vive tranquilo no Ibirapuera. Foto divulgação.

Ela aponta que os pássaros estão enfrentando escassez de comida e água: “Quando as poucas árvores frutíferas dão jacas e abacates no Parque Independência, por exemplo, os munícipes levam tudo embora. Os pássaros tendem a migrar para áreas onde o alimento é mais abundante. E não tem fonte de água no Parque Independência, por isso, é comum vermos os passarinhos se banhando nos potes de água dos gatos”.

A bióloga ressalta: “Nas florestas esses mesmos pássaros contam com um número muito maior de predadores como répteis e aves maiores como gaviões, falcões e corujas, mas nem por isso desaparecem. No Parque tem ainda os macaquinhos na lista de predadores. Devido a isso tudo, caso a população de pássaros esteja menor (o que nunca ficou provado), certamente não é culpa dos gatos!”.

Em outras palavras, o maior inimigo da fauna é o ser “desumano” que desmata, acaba com as árvores também nas cidades e polui. Portanto, cabe ao poder público combater o abandono de gatos e investir na castração em massa, ajudando assim os voluntários em sua árdua tarefa de controle da população felina urbana.

Como ficam os gatos com a privatização dos parques de SP?

Marina e Cacca são monitoradas pela ONG Bicho no Parque. Foto divulgação

A Construcap venceu a licitação para concessão de cinco parques que inclui o do Ibirapuera por um período de 35 anos. Em coletivas à imprensa a empresa se comprometeu com a conservação do parque em seus diversos aspectos. Além do Ibirapuera também estão contemplados os parques Jacintho Alberto, no bairro de Pirituba (zona norte), Eucaliptos, na Vila Sônia (zona oeste), Tenente Brigadeiro Faria Lima, na Vila Maria (zona norte), Lajeado, em Guaianazes (zona leste) e Jardim Felicidade, no bairro de mesmo nome (zona oeste).

Para várias voluntárias que se dedicam aos gatos de parques, a criação de gatil, representado por uma área construída, cercada ou reservada para os gatos (dependendo de cada projeto) pode ser uma maneira de conseguir mais respeito para os felinos por parte da população e funcionários dessas áreas públicas.

“Hoje os gatos estão nos parques de maneira clandestina. Se conseguirmos a construção de gatis dentro dos parques é uma maneira de estabelecer a permissão deles estarem ali, ou seja, se tem gatil tem autorização e passa a ser um direito adquirido de permanência naquele local. Além disso o gatil protege os gatos da chuva e do frio. As protetoras dos gatos do Pq da Mooca, por exemplo, são bastante favoráveis ao gatil”, comenta a voluntária Eliana Miranda.

Franjinha completa a bela paisagem no Pq do Ibirapuera. Foto divulgação

Já o pessoal do Bicho no Parque é contra a criação de gatis: “Gatos de colônias se forem confinados, serão totalmente infelizes. O Bicho no Parque é totalmente contra gatis em parques. Como acham que os 100 gatos do parque, que vivem em 30 colônias diferentes, vão se adaptar a ficar todos juntos num gatil? Falam também de adoção – completamente inviável porque muitos gatos não têm esse perfil.  E aconteceriam cada vez mais abandonos, uma vez que a população seria avisada sobre a existência do gatil”.

A ONG diz que já executa muito bem no Ibirapuera dois aspectos principais: esterilização e imunização. “Nossa proposta é monitorar gatos de vida livre, que assim nasceram e o são desde sempre. Não é possível confinar ou colocar para adoção gatos desse perfil. Eles vão morrer… entram em depressão, param de comer e se vão. Teria que ser um gatil imenso para abrigar com qualidade os 100 gatos que vivem no Ibirapuera, em mais de 30 colônias. Além disso, colocá-los todos juntos, geraria tamanho stress cujas consequências nem podemos imaginar”.

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


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