Fogo

Queimadas no Pantanal colocam em risco animais ameaçados de extinção

Filhote de arara morto devido à queimada (THAMY MOREIRA)

Outubro foi o mês em que mais focos de queimada foram registrados no Pantanal. Foram 2.430 em 2019, contra 119 no ano anterior


O número de queimadas no Pantanal cresceu 506% entre 1º de agosto a 31 de outubro, em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo o Inpe. Com o fogo, vem as consequências: a vida de animais de diversas espécies, algumas ameaçadas de extinção, é colocada em risco.

Entre agosto e outubro de 2018, foram 1.147 focos de incêndio. No mesmo período de 2019 foram 6.958. O pior cenário foi registrado em outubro, que registrou 119 queimadas em 2018 e 2.430 em 2019. Em agosto, o número subiu de 243 para 1.641 e em setembro de 785 para 2.887.

Filhote de arara morto devido à queimada (THAMY MOREIRA)

“Ainda não há estimativa de quantas árvores e animais foram queimados”, afirmou à BBC a bióloga Carine Emer, do câmpus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Também é difícil dizer em quanto tempo a área vai se recuperar. Depende de até quando os incêndios vão durar, do que for destruído”, completou.

Não há, por parte do governo, um levantamento sobre o impacto dos incêndios em relação aos animais. No entanto, segundo o engenheiro florestal e especialista em restauração ambiental, Júlio Sampaio, gerente dos programas Cerrado e Pantanal, do WWF-Brasil, o prejuízo foi grande.

“Há vários relatos de animais incinerados ou asfixiados pela fumaça”, explicou. “Os que se locomovem mais lentamente, como os de pequeno porte e os répteis são os que sofrem mais com as queimadas”, acrescentou.

“Não há espécie da fauna brasileira que esteja adaptada para conviver com incêndios”, disse. “Isso faz com que o impacto (dos incêndios) seja muito maior para os animais do que para os vegetais. Mas não há estudos sobre isso, então é muito difícil estimar quantos animais foram mortos”, explicou.

Segundo o especialista, o fogo aumenta o risco de extinção de espécies ameaçadas, como o tamanduá-bandeira, o tamanduá-mirim, o lobo-guará e a arara-azul.

O Refúgio Ecológico Caiman (REC), maior centro de reprodução da arara-azul no Pantanal, que é administrado pelo Instituto Arara Azul, foi atingido pelo fogo. No local, há 98 ninhos, dos quais 52% são naturais e 48% são artificiais. “O fogo atingiu nossa fazenda no dia 10 de setembro”, contou a bióloga Neiva Guedes, presidente do Instituto e professora do programa de pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidade Anhanguera Uniderp (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), de Campo Grande.

A maior parte das queimadas são causadas pela população (CARINE EMER)

O governo do Mato Grosso do Sul explicou que as queimadas estão ocorrendo em proporções nunca registradas e são causadas “pela estiagem e atos criminosos”. Em setembro, o governo estadual decretou estado de emergência na região.

De acordo com o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maior parte das queimadas é intencional, e não natural.

“Historicamente sempre foi assim, nesta época do no ano coloca-se fogo. Mas este é o período mais seco do ano, por isso proibimos qualquer tipo de queimada entre agosto e outubro de todos os anos. Agora, como a situação está mais grave, prorrogamos a interdição até 30 de novembro, assim como o estado de emergência. Neste período, todas as queimadas são ilegais”, explicou à BBC.

De acordo com o secretário, 56 mil hectares de vegetação nativa foram devastados no Pantanal sul-mato-grossense de 20 a 31 de outubro. “Em todo o Estado, a área chega 1,3 milhão de hectares, das quais cerca de 500 mil foram na reserva dos índios cadiuéus”, disse.

Fogo ameaça a vida de animais silvestres (VICENTE ASSAD)

“A situação, já complicada nesta época do ano, se agravou, porque choveu apenas 30% do que é normal para este período”, contou. A baixa umidade do ar, a alta temperatura, ondas de calor, excesso de matéria orgânica seca e a grande velocidade do vento também contribuíram para a expansão das queimadas.

Para combater as queimadas, ainda segundo o secretário, o governo estadual está recebendo o auxílio do Mato Grosso, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Comando Militar do Oeste do Exército Brasileiro.

“Estão trabalhando dezenas de brigadistas do Ibama, bombeiros e militares. Além disso, estão sendo usados no combate ao fogo três aviões e quatro helicópteros. Entre os problemas que enfrentamos nesse trabalho estão dificuldades nas comunicações entre os municípios atingidos, pois os incêndios queimaram as fibras ópticas”, explicou.

No Relatório do Impacto do Fogo sobre as Araras Azuis, Neiva Guedes explica que dos 98 ninhos cadastrados, 39 eram de araras e 15 de outras aves, todos com ovos ou filhotes. Havia, também, 30 ninhos sendo preparados pela araras ou em disputa com outras aves e 14 vazios. Do total, 33% foram afetados pelo incêndio e dois foram completamente perdidos. O fogo matou 16 filhotes e atingiu 23 ovos.

O impacto negativo das queimadas, segundo Neiva, afetará as araras não só nesta estação reprodutiva, mas também no futuro.

O número de queimadas aumentou no Pantanal (GOVERNO DO MS/DIVULGAÇÃO)

“As perdas atuais serão sentidas nesta e nas futuras gerações, quando estes filhotes perdidos não entrarão na população reprodutiva daqui a 9 ou 10 anos”, lamentou.

“Queremos saber também o que acontecerá nos próximos anos com relação à alimentação, que até agora não era um fator limitante. Mas com os incêndios, hectares e mais hectares da palmeira acuri foram totalmente destruídos. Esta planta é chave não só para as araras-azuis, embora seja fundamental para elas, mas para várias outras espécies que se alimentam da sua polpa, inclusive os bois”, disse.

“De acordo com as pesquisas que temos realizado, os incêndios nas áreas mais sujeitas a inundações podem diminuir o número de espécies de árvores e arbustos que ocupam as partes baixas”, explicou à BBC o botânico Geraldo Alves Damasceno Junior, dos programas de pós-graduação em Ecologia e Conservação e em Biologia Vegetal, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

“Muitas árvores que tiveram suas copas queimadas não conseguirão rebrotar e a inundação que virá depois poderá impedir que sementes dessas espécies germinem, pois muitas delas precisam de um período prolongado de seca para nascer e crescer nesses ambientes”, acrescentou Damasceno.

Cobra é encontrada morta no Pantanal (VICENTE ASSAD)

Para a vegetação pantaneira, porém, as queimadas podem ter um ponto positivo. “Elas promovem aumento da biodiversidade das espécies herbáceas que ocorrem nesse ambiente”, explicou Damasceno.

“Como grande parte das plantas do Pantanal pertence a este grupo, no cômputo geral os incêndios podem promover um aumento na biodiversidade dos vegetais. Assim, o fogo é um elemento que na paisagem da região faz parte da dinâmica da vegetação, embora algumas espécies mais sensíveis possam desaparecer dos locais onde ele foi muito severo”, reforçou.

Além disso, em relação à recuperação, as plantas também saem na vantagem. “A vegetação se recupera muito rapidamente. Em poucos meses, ela vai rebrotar novamente. Entretanto, alguns efeitos podem ser bastante duradouros. Para árvores e arbustos, por exemplo, nós conseguimos captar efeitos danosos até seis anos após eventos de fogo”, disse.

A bióloga Carine estava no Mato Grosso do Sul para palestrar na Semana da Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande e decidiu ir ao Pantanal.

Araras comem coco no chão (CEZAR CORRÊA)

“Eu achei que era uma ótima oportunidade para dar um pulo até o Pantanal e conhecê-lo, afinal é o sonho de todo biólogo ver este sistema tão rico. Então organizamos uma pequena excursão para ir até a região do Passo do Lontra, que fica no município de Corumbá”, disse.

Ao chegar na região, no entanto, Carine se surpreendeu. “Estava tudo muito estranho, muito seco, e o rio Miranda tão baixo como nunca se viu”, explicou.

“Saímos para ver os animais, mas não ouvíamos nem víamos nenhum. No sábado de madrugada, aconteceu a mesma coisa. Poucas aves, o que é estranho, porque no Pantanal você visualiza muitos animais. Saímos de barco pelo rio e só o que víamos era fogo dos dois lados. Algo surreal, pois a gente vai para o Pantanal, a maior região alagável do mundo, e só vê incêndio por todos os lados e nada de animal”, lamentou.

Queimadas devastam o Pantanal sul-mato-grossense (CHICO RIBEIRO/PORTAL DO GOVERNO DE MS)

No domingo, ao passar de carro pela BR-262, o grupo praticamente não viu animais. “Só vimos um tamanduá-mirim na beira da rodovia e tudo seco, lagoas, riachos, vegetação”, revelou. “Vimos também jacarés mortos em poças secas”, acrescentou.

No final do dia, o grupo resolveu retornar para a cidade de Campo Grande. “Era por volta de umas 18 horas e começamos a ver muito fogo, nos dois lados da estrada e focos mais distantes. De repente, uma labareda gigantesca cortou a estrada e não nos pegou por questão de dois ou três segundos. Fizemos a volta e retornamos para Corumbá, muito assustados e com uma sensação de estar no Inferno de Dante. Quer dizer, não conheci o Pantanal, pois não vi animais, e quase morri”, concluiu.


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