Segunda chance

Porcos que vivem em santuários provam o quanto esses animais são inteligentes e carinhosos

Os santuários Terra dos Bichos em SP e Vale da Rainha em MG abrigam porcos resgatados de matadouros clandestinos, acidentes e maus-tratos

Santuário Terra dos Bichos. Arquivo Pessoal

É mais comum compreender e criar laços afetivos com os animais domésticos devido à presença deles dentro das casas e fazendo parte de famílias humanas, mas inteligência e amorosidade estão presentes em todos os seres vivos.

Quem, por exemplo, resgata e convive com porcos têm o prazer de testemunhar diariamente o quanto esses animais também são inteligentes e carinhosos embora, predominantemente, ainda sejam tratados como produtos e destinados ao sofrimento desde o nascimento.

Cintia Frattini, fundadora do Santuário Terra dos Bichos em SP, teve uma experiência com porcos “amplificada”, em 2015, quando um caminhão lotado desses animais tombou no Rodoanel na capital do estado. Com ferimentos graves, 68 animais foram resgatados e enviados ao sítio de Cintia.

Porcos que sofreram acidente no Rodoanel vivem hoje na Terra dos Bichos. Arquivo pessoal

“Na primeira semana morreram 22 que estavam em situação muito precária de saúde. Em seguida chegaram mais 22 enviados pelo próprio matadouro. Depois de um mês recebi mais 27 porcos e uma jumenta de matadouro clandestino por conta de apreensão da Policia Ambiental”, conta a protetora.

Foi justamente esse socorro prestado a muitos porcos em curto tempo que fez Cintia transformar seu sítio (que já abrigava animais silvestres e domésticos) no Santuário Terra dos Bichos. Hoje o local abriga cerca de 350 animais de 16 espécies diferentes, entre eles 65 porcos.

Cintia diz que descobriu na convivência com os porcos que eles demonstram notório mau-humor em algumas situações. Quando estão com fome destroem qualquer ambiente: “Porcos são retro-escavadeiras vivas. O focinho cava e acaba com os recintos porque eles são muito fortes”.

Fuinha estava chorando sozinho numa estrada quando foi resgatado. Arquivo pessoal

Mas acrescenta que “o principal aprendizado é o amor”.

“É uma felicidade conviver com animais tão perspicazes que formam laços de amizade e amor. Eles são também muito engraçados. Mas o que mais me impressionou no convívio com os porcos foi a inteligência deles. Isso que mais me trouxe a certeza de que eu não devo comer porcos, embora nunca tenha comido nem porco e nem outros animais”. Comenta a protetora que é vegana.

Marias e Zezinhos

No Santuário Terra dos Bichos os porcos não são batizados individualmente, a não ser que uma ou outra história de vida tenha sido mais impactante. Os porcos são todos chamados de Marias e Zezinhos. Mas tem o Uguinho – um porquinho acolhido pelo santuário quando tinha apenas dois meses de vida.

Uguinho foi resgatado de uma escola no Interior de SP. Arquivo pessoal

“O Uguinho entrou numa escola na cidade de São Roque e se escondeu embaixo de um tanque de lavar roupa. O porteiro pediu à diretora da escola para ficar com ele, mas com a intenção de comê-lo. Foi então que uma protetora local, sabendo do porco, me acionou”, explica.

Hoje Uguinho recepciona os visitantes da Terra dos Bichos: “Ele está num campo de soltura que tem 2 mil metros e quando avista alguém corre para saudar. Uguinho é muito sociável e carinhoso. É um amor de porco”.

Roubo de animais

A Terra dos Bichos sofreu uma invasão e, além das perdas materiais, levaram também duas cabras: Maria Amélia e Maria Rita. “Levaram as mangueiras, carrinho de mão, ferramentas, cadeados, correntes, rações, telas de alambrado, além de terem quebrado a solda do nosso portão do fundo, o que pode possibilitar o roubo de bois e cavalos. O prejuízo foi imenso, mas nossa maior perda foram minhas filhas”, relata Cintia.

Para ajudar o Santuário foi criada uma Vakinha

Contato pelo facebook

Instagram santuarioterradosbichos e fone: 11 99605-9554.

Santuário Vale da Rainha

A professora de Ioga Patrícia Varela Favano e o produtor orgânico Vitor Favano criaram o Santuário Vale da Rainha em Camanducaia, Minas Gerais com o intuito de ajudar animais que eles chamam respeitosamente de “mestres”.

Santuário Vale da Rainha. Arquivo pessoal

O local abriga atualmente 120 “mestres animais” de diversas espécies, além de cães e gatos. São cinco miniporcos resgatados de um criador, outros cinco porcos salvos de um matadouro clandestino e uma javaporca retirada de uma fazenda de criação clandestina. Uma das histórias mais emocionantes vividas pelo casal foi da porca Vandana Shiva resgatada grávida de criador que a mantinha como matriz.

Porca Vandana Shiva foi resgatada grávida. Arquivo pessoal

“Não acostumamos dizer que fundamos o Santuário, apenas recebemos uma orientação espiritual há 7 anos. Somos fervorosos praticantes espirituais – eu do hinduísmo, Vitor da Umbanda e ambos do Santo Daime. Nós nos consideramos meros guardiões a serviço de algo maior que nós”, comenta Patrícia.

“Meu marido e eu notamos que animais têm espírito superior dada a evidência na capacidade de amar incondicionalmente e perdoar. Por tantos nos ensinarem, os vemos como Mestres que testam nossos corações, os olhos de nossos corações, para saber se somos capazes de reconhecê-los”, explica a protetora.

Todos os animais do Santuário Vale da Rainha são chamados de “mestres”. Arquivo pessoal

Ela salienta que a linguagem dos animais se resume em “amor e perdão”: “Temos aprendido que se queremos ser a voz deles nos cabe apenas falar do que nos dizem todo tempo – a despeito de olhos furados, pés e mãos quebrados, problemas de coluna, cânceres!… Só falam de amor e perdão. E nós, sendo a voz deles, sentimos que nada podemos falar diferente de amor e perdão”.

Para ajudar o Santuário Vale da Rainha o contato pode ser feito pelo facebook

Instagram Ahimsa.santuariovaledarainha

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

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