Esclarecimento

Lambida de amor não mata e estudos dizem que ainda pode fazer bem à saúde

A bactéria presente na saliva dos cães raramente provoca doenças e, ainda assim, somente em pessoas com saúde já fragilizada. O que mata é a falta de informação que pode gerar abandono e maus-tratos aos animais

Bactéria presente na saliva do cachorro raramente causa problema conforme os próprios infectologistas atestam. Foto: Jac Lou DL/Pixabay

Na última segunda-feira, 25 de novembro, a notícia sobre um homem de 63 anos que teria morrido na Alemanha devido à lambida de seu cachorro, estampada em muitos jornais do Brasil, levou à desinformação sobre uma doença que tem relação direta com a baixa imunidade das vítimas, ou seja, pessoas vulneráveis não só à bactéria presente na saliva de cães e gatos, mas a qualquer outra bactéria com a qual tenham contato.

Inclusive, a matéria original, publicada na CNN informa:

“O tipo de bactéria, capnocytophaga canimorsus, faz parte da flora completamente normal da boca de um cão e geralmente não causa nenhum tipo de doença significativa. No entanto, no lugar errado, na hora errada, no paciente errado pode levar a infecções graves – mas muito, muito raramente”, disse o Dr. Stephen Cole, professor de microbiologia veterinária na Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia.

Os detalhes sobre o que ocorreu com o alemão foram publicados em um jornal médico europeu (European Journal of Case Reports in Internal Medicine). Um trecho do artigo diz:

“As infecções por mordida causadas por Capnocytophaga canimorsus são raras. Infecções graves e fatais são mais frequentemente relatadas em pacientes com imunodeficiência, esplenectomia (remoção do baço) ou abuso de álcool. Descrevemos o caso de um homem de 63 anos de idade que desenvolveu sintomas semelhantes aos da gripe e apresentou, após algum atraso, sepse grave”.

As raras vítimas da bactéria canina na verdade poderiam ser afetadas por qualquer outra bactéria já que estavam com a imunidade baixa por algum motivo. Foto Ben Lescure/Pixabay

Mais conhecida como infecção generalizada, a sepse, septicemia ou síndrome de resposta inflamatória sistêmica (SIRS), é uma manifestação do organismo diante de uma infecção. Conforme matéria bem esclarecedora do portal do Minuto Saudável a doença tem início com uma infecção local não controlada e que provoca uma infecção sanguínea mais grave comprometendo vários ou todos os órgãos. Vale ressaltar que “a inflamação, portanto, não é uma influência da bactéria, mas sim uma maneira do organismo em se defender”.

A ANDA esclarece

Em 2018, caso semelhante também estampou os jornais: o britânico Jaco Nel sofreu uma forte infecção denominada septicemia, tendo perdido parte das pernas, do rosto e dedos.

Na época, a ANDA teve o cuidado de esclarecer melhor os fatos temendo que muitos animais fossem abandonados ou até mesmo espancados ao demonstrarem carinho lambendo seus tutores.

Na matéria intitulada “Lambida de cães não mata e ainda pode fazer bem à saúde” o veterinário José Maria Fernandes Junior, de SP, declarou que chegou a pensar que se tratasse de uma notícia “fake” dada a inconsistência do conteúdo. Ele falou à ANDA:

“É mais fácil pegar doenças de outros seres humanos do que de animais. Provavelmente o homem pegou de algum local no ambiente, por isso temos que ter uma boa imunidade. Muitas doenças abaixam a imunidade como AIDS, leucemia e até uma grave desnutrição ou o estresse e, nesse caso, qualquer bactéria pode causar sepse. As pessoas não morrem, por exemplo, da AIDS diretamente, mas pela queda da imunidade e infecções secundárias”.

Amor não mata. O que mata é a falta de informação ou informações erradas que podem gerar abandono e maus-tratos. Foto: Jill Wellington/Pixabay

No portal “Tua Saúde” há também uma explicação bem útil:

“O Capnocytophaga canimorsus  normalmente não causa sintomas nos animais e nem sempre causa sintomas em pessoa, apenas quando a pessoa possui alguma condição que diminua o sistema imune, facilitando o espalhamento dessa bactéria pela corrente sanguínea. O tratamento da infecção por esse microrganismo é feito com o uso de antibióticos. Os sintomas da infecção por Capnocytophaga canimorsus normalmente surgem 3 a 5 dias após a exposição a esse microrganismo e geralmente só aparecem em pessoas que possuem alterações no seu sistema de defesa, como pessoas que removeram o baço, tabagistas, alcoólatras ou que fazem uso de medicamentos que diminuem a atividade do sistema imunológico, como no caso de pessoas em tratamento para o câncer ou HIV, por exemplo”.

Lambida de cachorro pode fazer bem à saúde

Cientistas da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, querem provar que os micróbios presentes no intestino de um cão podem ter efeitos probióticos sobre o corpo de seus tutores. “Os probióticos são como bactérias úteis por ajudarem a manter o intestino saudável e regular a digestão dos alimentos. Eles também são auxiliadores para manter o bom funcionamento do sistema imunológico. Suplementos, por exemplo, podem ajudar a melhorar o nível de probióticos no corpo”, diz a matéria do Daily Mail.

Pesquisas mostram que a convivência com cães e gatos reforçam a imunidade das crianças. Foto: Mandyme 27/Pixabay

Outras pesquisas indicaram que os cães ajudam a reforçar as defesas do corpo de crianças reduzindo doenças como asmas e alergias. O veterinário José Maria diz: “Antigamente o povo acreditava que quando os cães lambiam ferimentos ocorria cicatrização. Quantos milhões de brasileiros não fizeram isso e, obviamente, nunca aconteceu nada”.

Além disso, milhões de pessoas são lambidas e mordidas por seus animais de estimação com frequência. Veterinários e protetores de animais, especialmente os envolvidos em resgates, vivem mordidos e arranhados. Claro que notando uma infecção no local da ferida ou sintomas fora do comum, deve-se buscar tratamento logo, mas o importante é ter ciência de que casos extremos como os citados acima, além de raros, dependem também das condições de saúde da vítima.

O carinho e amor dos animais não matam. O que mata é a falta de informação que pode gerar abandono e maus-tratos aos animais.

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

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