Solução ética

Gatos do Parque da Aclimação (SP): castrar e cuidar é o melhor caminho

O controle da colônia felina do Parque segue as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde, mas mesmo assim os gatos viraram foco de um conflito entre protetoras de animais e alguns frequentadores do local

Chaplin é um dos gatos castrados e bem-cuidados do Pq Aclimação. Foto: Arquivo Pessoal

Eles são bem alimentados em pontos específicos do Parque da Aclimação, estão castrados, vermifugados e têm até carteirinha de vacinação emitida pela DVZ – Divisão de Vigilância de Zoonoses de SP. O controle dos cerca de 70 gatos do Parque da Aclimação (SP), instalados no local há mais de 15 anos, está de acordo com as medidas recomendadas pela OMS – Organização Mundial de Saúde e aplicadas com sucesso em vários parques e pontos turísticos do mundo como Roma, Nova York e Lisboa. Em São Paulo, outros parques que servem de referência são o do Ibirapuera e o da Independência – cartões postais da cidade!

A recomendação da OMS é o método conhecido como CED – Captura, Esterilização/Vacinação e Devolução ao local de origem como praças, parques e outras áreas públicas ou privadas. Isso porque a remoção de uma colônia de gatos só tem um resultado, negativo tanto para os animais quanto para a população humana: a formação, muito rapidamente, de uma nova colônia não-castrada e nem vacinada – é o chamado “efeito vácuo” (a retirada dos felinos abre imediatamente espaço para que outros animais se apoderem do local tornando esse procedimento, além de antiético, também inútil para o controle populacional).

July provavelmente já teve um lar, mas hoje depende da solidariedade dos humanos. Foto: Arquivo pessoal

Por isso, monitorar (e não remover) uma colônia de gatos é a melhor opção, principalmente, sob o ponto de vista de saúde pública, pois, gatos castrados, vacinados e saudáveis têm muito menos chance de ficarem doentes e, consequentemente, transmitirem doenças. Além disso, os gatos são ótimos para evitar colônias de ratos, que oferecem um risco muito maior à saúde dos frequentadores dessas áreas públicas.

Onde falta informação, pode sobrar atitudes prejudiciais a todos

Apesar do esforço conjunto entre protetoras de animais, Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente e administração do Parque da Aclimação para manter o bem-estar dos gatos, seu controle populacional e também preservar a saúde humana seguindo as orientações da OMS, um grupo de frequentadores do local insiste que os gatos sejam retirados.

Parte da queixa contra os gatos, segundo as protetoras, é de um grupo de mães e pais de crianças que frequentam os três parquinhos – um em funcionamento e dois fechados para reforma. Os pais alegam que é comum encontrar fezes de gato nesses parquinhos cujo chão é revestido de areia.

A Organização Mundial de Saúde recomenda castração e monitoramento de gatos de vida livre como uma forma de evitar doenças tanto para os animais quanto para os humanos. Foto: Arquivo pessoal

A preocupação desses pais para com os filhos é totalmente compreensível, mas é preciso levar em conta que alguns procedimentos drásticos, além de serem cruéis para com os animais, colocam em risco a saúde das próprias crianças (como dito acima), em função de novos gatos (sem vacina ou cuidados veterinários) que chegarão ao local (especialmente vítimas de abandono).

Contar com um grupo de voluntários que cuida desses animais com recursos próprios não é o problema, mas a solução para evitar a superpopulação de gatos não-monitorados.

Além disso, não há local mantido pela prefeitura com espaço para abrigar todos esses animais e as ONGs (todos sabem) estão lotadas, endividadas e fazendo milagres para manter cães e gatos resgatados das ruas.

A gatinha chamada Loira está entre os gatos do Pq Aclimação que têm até carteirinha de vacinação emitida pela DVZ de SP. Foto: Arquivo Pessoal

Parquinhos

Quanto aos parquinhos, em muitos lugares, são aplicadas uma dessas soluções: piso emborrachado ou de algum material próprio para a segurança das crianças, ou cerca no local onde estão os brinquedos e areia – nesse caso a cerca teria revestimento que permita a visibilidade, mas impeça a entrada de gatos ou outros animais, inclusive, com portinhola – essa medida é interessante também para evitar que as crianças saiam do parquinho numa distração dos pais e sejam vítimas, por exemplo, de sequestro.

LEI em SP protege “Animais Comunitários”

Vale lembrar ainda que a Lei 12.916/2008 (a mesma que acabou com a “carrocinha” em SP) diz: “O animal reconhecido como comunitário será recolhido para fins de esterilização, registro e devolução à comunidade de origem, após identificação e assinatura de termo de compromisso de seu cuidador principal. Para efeitos desta lei considera-se cão comunitário aquele que estabelece com a comunidade em que vive laços de dependência e de manutenção, embora não possua responsável único e definido”. Embora a lei use o termo “cão comunitário”, fala também em “animal comunitário” no qual os gatos de parque, por analogia, podem se encaixar se tiverem essa relação de dependência com humanos.

Outra Lei (federal), a 9.605 de crimes ambientais, pune quem maltrata, fere ou mutila animais. Condutas como de envenenamento de gatos, além de ser crime previsto por essa lei, coloca em risco também toda a fauna local (inclusive pássaros que podem bicar o veneno), cães e crianças que tenham acidentalmente contato com vestígios de venenos como o chumbinho cuja venda e uso que são também proibidos por lei.

Palavra de especialista sobre fauna nativa

O Parque da Aclimação, inaugurado em 1939, abriga 85 espécies de animais, sendo 65 de aves. Por conta disso, uma preocupação de vários frequentadores é também a preservação dos pássaros. Ocorre que os gatos que vivem em parques não são selvagens. Alguns são arredios devido ao trauma do abandono ou de maus-tratos, mas a maior parte deles já teve um lar. São animais completamente dependentes do alimento ofertado pelas protetoras.

Quando se observa a diminuição de pássaros em um determinado parque, geralmente é por causa de outros fatores como explica a bióloga Francielli Vergino que, durante oito anos, participou do grupo que acompanha a colônia felina do Parque da Independência em SP.

Nessa foto é fácil notar o corte na orelha que indica que o gato foi castrado. Foto: Arquivo pessoal

“O maior problema não está nos gatos, mas na irresponsabilidade das pessoas que os abandonam e que retiram dos parques os alimentos dos pássaros. Além disso, gato alimentado não sai caçando. Os gatos do Parque Independência são bem alimentados com ração. Eles comem e dormem. É isso que eles fazem”.

Ela aponta que os pássaros estão enfrentando escassez de comida e água: “Quando as poucas árvores frutíferas dão jacas e abacates no Parque Independência, por exemplo, os munícipes levam tudo embora. Os pássaros tendem a migrar para áreas onde o alimento é mais abundante. E não tem fonte de água no Parque Independência, por isso, é comum vermos os passarinhos se banhando nos potes de água dos gatos”.

A bióloga ressalta: “Nas florestas esses mesmos pássaros contam com um número muito maior de predadores como répteis e aves maiores como gaviões, falcões e corujas, mas nem por isso desaparecem. No Parque tem ainda os macaquinhos na lista de predadores. Devido a isso tudo, caso a população de pássaros esteja menor (o que nunca ficou provado), certamente não é culpa dos gatos!”.

Gatos, inclusive de raça, são fruto de abandono no Pq Aclimação, por isso é preciso também um trabalho de vigilância e conscientização. Foto: Arquivo pessoal

Em outras palavras, o maior inimigo da fauna é o ser “desumano” que desmata, acaba com as árvores também nas cidades e polui. Portanto, cabe ao poder público combater o abandono de gatos e investir na castração em massa, ajudando assim os voluntários em sua árdua tarefa de controle da população felina urbana.

O exemplo da Itália

Num estudo realizado com 103 colônias de gatos em Roma (Itália), onde houve a castração e devolução ao local de origem de 8 mil felinos em 10 anos, constatou-se que em paralelo a esse trabalho, a população cresceu em torno de 21% por conta de novos abandonos. A fim de tornar as colônias mais estáveis, desde o ano 2.000, foram instaladas câmeras e criados programas de consciencialização nos principais pontos turísticos que os gatos escolheram para viver.

Gato que vive em ponto turístico da Itália exibe corte na orelha – mesma marcação usada no Brasil para identificar gatos castrados. Foto: divulgação

O governo italiano assimilou que, mesmo com esse residual de 21% de crescimento de gatos registrado ao longo dos anos, ainda é mais seguro, tanto para os animais quanto para a população humana, que os gatos sejam castrados pelos órgãos públicos e tratados pelos voluntários. Afinal, se o governo tivesse optado pela remoção contínua dos felinos, novas colônias iriam se formando, uma atrás da outra, sem tratamento veterinário e controle de natalidade.

A American Society for the Prevention of Cruelty to Animals/ASPCA (Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais), importante instituição internacional de proteção animal, considera esse procedimento como o mais ético, eficaz e economicamente viável para controle de gatos em áreas públicas.

Os gatos bem alimentados aprendem a conviver com a fauna nativa. Foto: Arquivo pessoal

Petição pede a permanência dos gatos no Parque da Aclimação

Uma petição na Change.org com mais de 7 mil assinaturas diz:

“Os gatos nunca incomodaram as pessoas nesses anos todos. Ao contrário, frequentadores assíduos, idosos e crianças, passam momentos de lazer, eliminando seu estresse ao acariciar os bichanos. Há uma troca de energia, confiança e sociabilização entre humanos e animais altamente benéfica à saúde física e mental. Além disso, as protetoras contam com apoio da DVZ para atuar no Parque e o fazem com dedicação e zelo. Os gatos não transmitem zoonoses por conta desse zelo. Já está provado que gatos bem cuidados e alimentados perdem seu instinto de caça, não representando risco à vida das aves, muito pelo contrário, prestam um enorme serviço de utilidade pública aos usuários, frequentadores e às crianças ao afastar a presença dos ratos”.

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Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

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2 COMENTÁRIOS

  1. Lamentável como está o parque
    Da aclimação sequer tem seguraca todo domingo vou andar por lá e vejo alguns gatos lindos e muito bem tratados mais notei que não chegam muito perto das pessoas mesmo porque passeiam com cachorros o que assusta os gatos e problema tá sério mesmo o parquinho abandonado fechado faz tempo e nada de resolver o problema a sub prefeitura da aclimação se quisesse já teria resolvido mais como sempre entra o jogo do empurra empurra.

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