Gatos em perigo

Dezoito filhotes doentes, resgatados do Instituto Nise da Silveira (Rio), provam a situação crítica dos animais no local

Além do intenso abandono de gatos, não há ajuda da prefeitura para castração e cuidados veterinários, segundo os protetores

O Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, em Engenho de Dentro (Rio), já foi um paraíso para os gatos. Eles eram amados e protegidos pela psiquiatra mais famosa e premiada do Brasil, Nise da Silveira. No antigo hospital psiquiátrico, hoje Instituto, os gatos viviam felizes e eram bem-tratados.

Mas depois de sua morte em 1999, aos 94 anos, o legado de Nise foi sofrendo grandes mudanças. O Instituto virou um local de desova de gatos e sem o devido controle de natalidade e nem de segurança para evitar mais abandonos, a colônia felina já passa de 300 gatos. Vários doentes morrem sem tratamento e filhotes ali nascidos ou jogados não sobrevivem.

A veterinária Andrea Lambert resgatou 18 filhotes em estado deplorável na última quinta-feira, 24 de outubro. Outros não deu tempo de salvar. Veja vídeo do resgate dos gatinhos:

https://www.facebook.com/100004827168415/videos/pcb.1291571537680406/1291570584347168/?type=3&theater

Segundo Andrea, uma única protetora idosa tem permissão da diretoria do Instituto para alimentar e cuidar dos gatos – uma missão praticamente impossível, tanto, que essa senhora adoeceu, está internada e não pode mais realizar a árdua tarefa de alimentar tantos animais.

“Soube do caso na terça-feira. Achei que a Subem – Subsecretaria de Bem-Estar Animal tomaria uma providência, mas na quinta os filhotes continuavam no Instituto com os olhos muito infectados, sendo que alguns podem ficar cegos”, diz a veterinária.

“A situação é muito crítica. Além de castração, esses gatos precisam urgente de cuidados dos veterinários da prefeitura porque esse espaço é municipal. É preciso recolher os animais doentes e cuidar deles. A prefeitura tem obrigação de atuar o mais rápido possível para controlar as doenças e evitar que mais animais sejam lá descartados, sofram e morram”, declara.

Andrea esclarece que recentemente uma ação pública movida pela ONG Oito Vidas e Suipa – Sociedade União Internacional Protetora dos Animais do Rio conseguiu a permanência de uma antiga colônia de gatos no Cass – Centro Administrativo São Sebastião , conforme a ANDA publicou em https://www.anda.jor.br/2019/10/ong-oito-vidas-e-suipa-comemoram-decisao-judicial-permitindo-permanencia-de-gatos-em-area-publica-do-rio/

O documento, assinado pela desembargadora Cristina Tereza Gaulia diz: “Não só é possível, como legal e útil, a manutenção dos felinos no CASS onde já se encontram há mais de uma década”. E também:

“O ente municipal está portanto obrigado, na forma do ordenamento jurídico vigente, a fornecer ou um abrigo salubre, estruturado, adequado e seguro à fauna de animais comunitários, ou cuidar dos mesmos, ou permitir que outros o façam, em áreas públicas limitadas e controladas. Afasta-se assim, na linha da doutrina especializada de Heron Gordilho, a ideia de que, segundo ultrapassado antropocentrismo, o homem pode fazer tudo o que quer com a natureza com os demais animais e a natureza. Em verdade, a natureza não está a serviço do homem, sendo o homem e a natureza uma coisa só.”

A Justiça também determinou que os felinos do Cass sejam castrados pela prefeitura do Rio e que o abrigo de animais conhecido como “Fazenda Modelo”, situado em Guaratiba (zona oeste do Rio) e que tem por volta de 800 animais, seja reestruturado para ter atendimento veterinário 24 horas com tratadores em número proporcional ao de animais abrigados. Veja o documento completo em

http://www1.tjrj.jus.br/gedcacheweb/default.aspx?UZIP=1&GEDID=000415FD03839F87A5EBD664760E50BB8C7DC50B2C641844&USER=

Andrea acredita que sendo o Instituto Nise da Silveira municipal, deve também ser contemplado pela decisão judicial publicada essa semana em favor dos gatos do Cass. Além disso, ela diz que em caráter emergencial é preciso quem o Instituto permita a entrada de mais protetores para alimentar os animais, antes que a situação fique ainda mais grave.

AJUDA URGENTE

A veterinária também pede em caráter de urgência ajuda com lares temporários, medicamentos e ração. O contato é (21) 99632-8115.

Os gatos de Nise da Silveira

Numa época em que o principal tratamento para doentes mentais era o eletrochoque, a alagoana Nise da Silveira revolucionou a psiquiatria no Brasil. Ela admirava a atitude independente dos felinos, permitindo e incentivando o convívio dos pacientes com eles. Além disso, Nise investiu na “arte” contida nos internos. Eles tiveram oportunidade de expor em pinturas e outros trabalhos artísticos tudo o que sentiam, sonhavam, desejavam.

Esse trabalho foi relatado no livro “Gatos, a emoção de lidar”, escrito pela própria psiquiatra e que tem na capa Nise com seu amado gato Carlinhos. Na obra a médica conta como os gatos puderam ajudar nos tratamentos e nos ateliês de terapia ocupacional. O projeto de Nise resultou no acervo do Museu de Imagens do Insconsciente (Rio).

O interesse em inserir animais nas terapias surgiu quando Nise delegou a um paciente os cuidados a uma cadela de rua que havia sido atropelada. O progresso do interno foi tão grande que ela passou a admitir gatos e alguns cães como co-terapeutas.

No governo de Getúlio Vargas, ela esteve presa por um ano e meio devido a seu envolvimento com pessoas da esquerda. E ao sair da prisão ficou sete anos afastada da profissão. Mas quando retornou provocou uma grande revolução pela qual é reconhecida como “uma mulher à frente de seu tempo”.

Nise foi discípula de Carl Jung e esteve pessoalmente com o mestre da psiquiatria moderna. Aliás, Jung apresentou as obras do Museu de Imagens do Inconsciente durante o II Congresso Internacional de Psiquiatra em Zurique, em 1957, fazendo com que especialistas do mundo todo pudessem apreciar o trabalho pioneiro da psiquiatra brasileira.

Nise morreu aos 94 anos de idade quando já estava presa a uma cadeira de rodas e sofrendo com a saudade de seu gato Carlinhos, com quem aparece em grande parte das fotos. Em uma entrevista à Revista Veja, um ano antes de sua morte, ela chegou a comentar que lamentava não ter escrito um livro sobre os maus-tratos aos animais.

Ela declarou “Na próxima encarnação, se houver, eu quero nascer gato!”. Mal saberia ela que seus amados felinos estariam hoje numa situação tão caótica no lugar onde ela fez brotar um tratamento psiquiátrico único, eficaz e que conta justamente com “a emoção de lidar com animais, especialmente com gatos”.

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

 

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