Suspensa há três meses, Cãominhada deve voltar no final de setembro, mas não para todos os animais do canil


Por Fátima ChuEcco


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O CCZ (Centro de Controle de Zoonozes) de SP, agora denominado DVZ (Divisão de Vigilância de Zoonoses), suspendeu a Cãominhada que já ocorria há uma década aos domingos. Portanto, o aniversário de dez anos da atividade em 17 de maio, não teve muito fôlego para comemorações. Um incidente sério, porém raro, envolvendo um funcionário e um dos cães, motivou a paralisação da Cãominhada.

A decisão revoltou a população e colocou os voluntários do CCZ em pânico, já que a única alegria desses animais que, muitas vezes, passam a vida toda num canil municipal, é justamente a Cãominhada, escolhida para ser realizada aos domingos porque durante a semana as pessoas trabalham ou estão, em geral, procurando emprego.

Coletânea de imagens feita pelos voluntários | Divulgação

Por conta disso foi criado o abaixo-assinado que pede a volta dessa e de outras atividades que ocorriam aos sábados como Banho e Tosa, Sociabilização dos Cães com Histórico de Mordedura e Acupuntura.

A petição já tem 8 mil assinaturas, mas precisa de uma maior participação popular porque embora a prefeitura já tenha comunicado que a Cãominhada será retomada até o final e setembro, segundo os voluntários, existe o risco de grande parte dos cães perderem esse direito de saírem aos domingos.

A Cãominhada é também essencial para o equilíbrio emotivo | Foto: Divulgação

A prefeitura alegou ainda, em nota oficial, que enquanto estuda medidas de segurança, os cães continuam passeando durante a semana com os funcionários, mas não é a mesma coisa.

O passeio aos domingos não é um mero exercício físico. É um importante momento de afeto. Um dia especial para que o cão se sinta de fato vivo e possa ser acariciado. Uma espécie de bálsamo para uma longa vida de prisão. E além disso, é também a maior oportunidade que esses cães têm de serem adotados, pois, várias vezes, o passeador acaba se apegando ao animal e decide levá-lo para casa.

O cão Coreto aguarda adoção há sete anos | Divulgação

Em sua página no Facebook, o Instituto Melhor Amigo, formado por voluntários do CCZ, postou um vídeo mostrando cães que foram adotados graças à Cãominhada. Veja:

“A Cãominhada é tempo, carinho, um olhar, um gesto, uma conversa. É respeitar o tempo do animal, sentar com ele e, caso você não possa fazer carinho, o simples fato dele deitar na sombra e ficar olhando para o nada já faz uma grande diferença na vida dele”, desabafam, na rede social, os voluntários do Instituto Melhor Amigo, por meio de posts que pedem que todos assinem o abaixo-assinado.

Outra grande preocupação é com a possível extinção do “Projeto de Socialização dos Cães com Histórico de Mordedura”, que acontecia aos sábados: “Esse projeto trabalha algumas questões importantes para que os animais possam participar da Cãominhada. Muitos chegam assustados, nunca usaram guia ou são agressivos com outros animais. Cada caso é um caso que deve ser trabalhado, para que depois eles possam ser introduzidos de forma lenta na Cãominhada, respeitando o tempo do animal. Muitas vezes esse trabalho é em conjunto com os funcionários”, explica a página do Instituto.

Conhecido como o “gigante gentil”, o cão Âncora adora passear com os voluntários | Divulgação

Vale lembrar que muitos animais, depois de tantos traumas sofridos nas ruas e, às vezes, nas mãos de seus próprios tutores, podem desenvolver um comportamento agressivo de autodefesa, mas reversível. Afastá-los do convívio com pessoas não só piora o quadro como aniquila qualquer chance de adoção. O trabalho de socialização certamente necessita de medidas efetivas de segurança para funcionários e voluntários, mas não pode ser extinto.

Na página do Instituto no Facebook, um post avisa que o cão Wade Wilson, por exemplo, estaria numa lista de animais que não mais participarão da Cãominhada. Veja o vídeo:

Outros posts falam de cães que estão para adoção, como é o caso do simpático Coreto, que ganhou esse nome porque vivia com seus irmãos no coreto de uma praça. Todos os seus irmãos foram adotados mas ele, infelizmente, “sobrou” e vive no CCZ desde 2012. “Coreto é um cachorrinho muito ativo. À princípio é um pouquinho tímido e desconfiado, mas depois que ele conhece melhor a pessoa, se entrega todo. E não podemos esquecer dos petiscos, claro… ele é bom de garfo. Coreto tem essa carinha de quem está meio assustado e curioso ao mesmo tempo. Adora passear, cheirar plantinhas e tomar sol. Gosta de dar beijinhos também” – é a descrição que pode ser vista na página dos voluntários.

Antiga estrutura do CCZ ainda é utiliza para abrigar a maior parte dos animais | Divulgação

Âncora, conhecido como “o gigante gentil”, é outro cão que ainda não teve sorte de ser adotado e que depende muito da Cãominhada para cativar algum coração humano que tenha condições de adotá-lo. Os voluntários o descrevem assim: “Supercarente, um amor de cachorro. Adora passear e, quando precisa de carinho, ele para, encosta a cabeça na sua perna e faz um olhar simplesmente irresistível. Carinhoso, sociável com pessoas e passeia muito bem na guia. Toma medicamentos diariamente, mas todo esse carinho não tem preço. Ele realmente merece um lar e ser amado”.
Veja aqui as fotos dos cães do CCZ.

Como funciona o CCZ, hoje DVZ

A Lei 12.916 do então deputado Feliciano Filho, conhecida como Lei Feliciano, acabou com as temidas “carrocinhas” em 2008. São Paulo serviu de referência para o resto do país onde leis semelhantes foram criadas. A Cãominhada surgiu um ano depois. Vários cães saudáveis que seriam mortos permaneceram no CCZ desde então ealguns estão lá há oito ou nove anos porque ninguém quis adotar.

No início de 2016 foi inaugurado o Núcleo de Adoção de Cães e Gatos com uma estrutura moderna e bem confortável, quase um hotel três estrelas, onde os animais ficam em pequenos quartinhos com cama, porta de vidro e “varanda” para tomar sol e brincar ao ar livre. A estrutura nova permite que interajam com os visitantes, mas como não há vagas suficientes para todos os cães e gatos, implantou-se um rodízio para que, em algum momento, alguns dos animais instalados na parte antiga ocupem o “hotelzinho”.

Alguns cães passam a vida toda no CCZ e sua única alegria é a Cãominhada | Divulgação

A velha estrutura, no entanto, ainda está em funcionamento e assusta. Foi criada em 1973 para manter cães e gatos por apenas uma semana antes de irem para a câmara de gás. A vida nessa parte do canil só é mais suportável por conta do carinho e contato vivenciado durante as Cãominhadas feitas com pessoas da comunidade e/ou voluntários mais assíduos. Siga o instituto no Instagram.


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