CRUELDADE

Clonagem de panda em corpo de gata


Por Fátima ChuEcco*


Um gatinho preto e branco com a cauda levantada
Foto: AFP

A notícia é tão bizarra que até lembra “fake news”, mas a verdade é que a empresa chinesa Sinogene Biotechnology realmente está pensando em colocar em prática mais essa atrocidade: clonar pandas utilizando gatas como “hospedeiras”. Isso porque, embora os pandas adultos sejam bem maiores que os gatos, os bebês da espécie possuem tamanho e peso semelhantes aos de filhotes de gatos. Aliás, cientistas chineses estão tentando clonar pandas há 20 anos como uma forma de deter a extinção da espécie.

Não seria mais ético, econômico e inteligente preservar o habitat desses animais?

Há cerca de dois meses, os pesquisadores da Sinogene se animaram bastante com a possibilidade de clonar pandas por conta de sua primeira clonagem bem-sucedida de um gato – anteriormente já clonaram 40 cachorros.

O pequeno felino chamado “Garlic” ou Alho em português, foi clonado a pedido de Huang  Yu, de apenas 23 anos, e que tinha como animal de estimação um gato doméstico de mesmo nome. O jovem admitiu à imprensa internacional que Garlic, nascido em julho de uma gata que os cientistas tratam como “animal portador ou hospedeiro”, é 90% semelhante ao gato que ele perdeu por problemas renais.

Alguns chineses estão pagando entre 35 mil e 53 mil dólares para terem seus animais de estimação clonados. É o crescimento de um sombrio mercado milionário que utiliza centenas de cobaias apenas para que nasça um cachorro ou gato com características físicas semelhantes às do animal morto.

Empresas como a Sinogene trabalham muito bem com o delicado fator emocional de pessoas que amam seus animais e querem a todo custo tê-los de volta depois que morrem. Por isso, esses mesmos pesquisadores querem ainda implantar células de memória nos clones com a ajuda da inteligência artificial. No entanto, uma coisa é certa: personalidade não se transfere, pois, ela se forma de acordo com o ambiente e experiências individuais de cada ser vivo.

Assim, muitos devem futuramente se frustrar quando perceberem que apesar do animal ser da mesma cor, ter as mesmas manchas, sinais e pelagem (e quem sabe até algumas memórias), por dentro, em sua essência, ele será um ser único, repleto de características próprias.

Em março deste ano, a Sinogene  também clonou uma cadela que atuava  junto à polícia da província de Yunnan.  Zhao Jianping, vice-gerente geral da empresa, disse ao jornal Global Times, que “espera tornar possível a produção em grande quantidade de cães policiais clonados para reduzir os tempos de treinamento”.  Tradução: a empresa acredita que, não só o aspecto físico, mas também habilidades motoras e intelectuais possam ser transferidas via clonagem.

Mas basta olhar ao redor para perceber que na prática a realidade é outra. Quantos filhos não são fisicamente idênticos aos pais, mas possuem personalidade e talentos totalmente diferentes? É possível clonar objetos com o mesmo desempenho de funções – eletrodomésticos por exemplo. Mas não é possível fazer isso com animais porque, além de não serem objetos, assim como nós, eles são o resultado de inúmeras experiências e aprendizados ao longo da vida.

Criadas para sofrer

Ovelha Dolly parada atrás de uma cerca
Foto: Pinterest

Depois da famosa ovelha Dolly , nascida em 1996 na Escócia e morta em 2013 de uma doença pulmonar grave, a indústria da clonagem decolou em diversas partes do mundo. Desde então, à base de muitas cobaias torturadas e descartadas, cães, porcos, cavalos e até camelos foram e continuam sendo clonados. Inclusive, o gatinho clonado na China não é primeiro do mundo. A gatinha CopyCat, nascida na Universidade do Texas em 2001, foi a primeira felina clonada.

Dois macaquinhos em uma incubadora
Foto: Academia Chinesa de Ciencias/Reuters

Um dos casos mais comoventes é das duas macaquinhas Zhong Zhong e Hua Hua, nascidas em 2018 de experiências do Instituto de Neurociência da Academia Chinesa de Ciências, a partir da mesma técnica que gerou a Dolly. Zhong Zhong e Hua Hua foram clonadas para o teste de medicamentos e tratamentos invasivos. No ano passado, os cientistas as apresentaram para o mundo num lindo quarto infantil cheio de brinquedos que, obviamente, a essa altura já foi substituído por um recinto frio e uma vida cheia de agulhas, tubos, dor e medo.

Os olhinhos que, no vídeo abaixo, amplamente divulgado, brilhavam de alegria ao ver seus tratadores como se fossem seus pais, devem agora retratar apenas tristeza e angústia. Vejam:

Assim como Zhong Zhong e Hua Hua, outros macacos estão sendo criados com doenças genéticas. Servirão de estudo de doenças como câncer e distúrbios imunológicos e metabólicos. Essa é a medicina que, lamentavelmente, muitos ainda chamam de futurística, com clonagem de seres indefesos para servirem aos propósitos humanos. Um retrocesso aos primórdios da medicina quando o único caminho conhecido era o das cobaias.

*Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal


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