Encontrar animais carbonizados em áreas destruídas por queimadas na Amazônia se tornou uma triste realidade no Brasil. Morador de Colniza, município do Mato Grosso, José Cândido Primo, 60 anos, que até janeiro ocupou o cargo de gerente da unidade de conservação Guariba-Roosevelt, relata a angústia que viveu ao ver cinco micos quase cercados por um incêndio em uma área desmatada no distrito de Guariba.

“Contei de longe cinco macaquinhos, de uma espécie que só é encontrada nessa região”, lembrou Primo, que se aproximou da árvore onde os animais estavam, agitou os braços e fez barulho para tentar espantá-los. “Tentei salvá-los, mas eles continuaram lá no alto. O fogo veio e tive que sair dali”, lamentou.

Foto: Corpo de Bombeiros do Estado de Mato Grosso

Os micos morreram carbonizados. Mas eles, infelizmente, não foram os únicos. A 850 km de distância de Guariba, em Lucas do Rio Verde (MT), uma paca morta por um incêndio florestal foi encontrada pelo Corpo de Bombeiros. Na região, os bombeiros se deparam diariamente com animais mortos durante ações de combate a queimadas. As informações são da Revista Época.

Um relatório produzido pela ONG WWF Brasil, que luta pelo meio ambiente, concluiu que há 265 espécies ameaçadas de extinção em trechos da Amazônia atingidos pelo fogo, sendo 180 da fauna e 85 da flora. Dessas espécies, 76% vivem sob proteção em áreas de conservação ou contam com o suporte de políticas públicas de proteção definidas pelos Planos de Ação Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção ou do Patrimônio Espeleológico (PAN).

Estar em uma reserva, no entanto, não é garantia de proteção o tempo todo. Isso porque as queimadas também atingiram as reservas. De acordo com a WWF, dentre as reservas atingidas estão: Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu em Pará (PA), Reserva Extrativista Jaci Paraná (RO), Estação Ecológica Terra do Meio (PA), Reserva Extrativista Chico Mendes (AC) e Floresta Nacional do Amanã (AM/PA).

As estatísticas, segundo a gerente de projetos da WWF Brasil, Gabriela Viana, são resultado de um cruzamento das áreas mais atingidas pelas queimadas, a partir de dados recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com levantamentos sobre a fauna da região da base de dados da WWF e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Parte dos recursos financeiros retirados da Amazônia estava justamente relacionada ao combate e prevenção a incêndios. É preciso resgatar este tipo de investimento, não só para impedir que o atual incêndio se alastre mais, mas principalmente para recuperar as áreas que foram perdidas”, analisou Gabriela ao se referir aos cortes feitos pelo governo Bolsonaro.

Dentre as espécies que vivem nas unidades de conservação, oito são consideradas as mais vulneráveis em relação às queimadas, como Ararajuba, Gavião-real, Anta e Peixe-boi-da-Amazônia. Porém, outras espécies que vivem fora das reservas, como a cuíca-de-colete, que está criticamente em perigo, estão em situação pior, sem ter qualquer proteção.

Foto: Corpo de Bombeiros do Estado de Mato Grosso

José Cândido Primo é acostumado a caminhar pela reserva da sua região, que tem quase 165 mil hectares no trecho entre os municípios de Aripuanã e Colniza, e afirma que tem encontrado um cenário nunca visto antes.

“Na semana passada, andei por uma área desmatada de aproximadamente 200 hectares de terra para ver o que estava acontecendo. Na beira de um córrego encontrei três pacas mortas, caveiras de cobras queimadas e um bicho-preguiça ainda queimando, que morreu depois de ficar se debatendo por lá. Tudo isso em um desmate considerado pequeno para as proporções do que está acontecendo neste ano”, disse Primo.

Segundo ele, as queimadas na região não são acidentais. Elas são provocadas para gerar desmatamento e beneficiar madeireiros e pecuaristas. “Na nossa região, a economia é movida pela madeira e a pecuária vem logo em seguida. Então, ficamos muito prejudicados, sem condições de passar isso para as entidades responsáveis porque aqui quem fala mais alto é o madeireiro, é a extração da madeira. Depois que derrubam e queimam a mata ao lado das castanheiras, 99% do plantio morre e as que ficam não vão produzir mais”, lamentou.


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