The Washington Post

A Floresta Amazônica no Brasil está em chamas transformando dia em noite na cidade de São Paulo

O jornal americano The Washington Post publicou artigo sobre as consequências do fogo na aceleração do aquecimento global e os danos permanentes causados ao “berço da biodiversidade” mundial.

*Traduzido por Eliane Arakaki

Extensões de terras enormes da Amazônia, floresta tropical que funciona como os pulmões do planeta absorvendo dióxido de carbono, armazenando-o no solo e produzindo oxigênio, estão em chamas. A fumaça dos incêndios generalizados transformou o dia em noite na cidade de São Paulo e intensificou a controvérsia sobre as políticas de uso da terra do governo brasileiro.

A Amazônia brasileira registrou 74.155 incêndios desde janeiro, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, conhecido pela sigla INPE. Isso representa um aumento de 85% em relação ao ano passado e significativamente maior do que os 67.790 ataques desde então neste ano, quando a região foi atingida por uma temporada de seca severa associada a um forte evento causado pelo El Niño.

“Não há nada de anormal no clima este ano ou nas chuvas na região amazônica, que está um pouco abaixo da média”, disse o pesquisador do INPE, Alberto Setzer, à Reuters. Falando sobre os incêndios, ele disse: “A estação seca cria as condições favoráveis para o uso e a propagação do fogo, mas iniciar um incêndio é o trabalho dos seres humanos, deliberadamente ou por acidente”.

A fumaça dos incêndios cobriu a cidade de São Paulo em forma de uma neblina escura, o fenômeno levantou preocupações de que a floresta tropical, que é uma das regiões com maior diversidade biológica na Terra, possa estar sendo alvo de um regime recém-fragmentado de operações de remoção de terras e outras atividades que destinam-se a transformar a terra para uso agrícola.

De acordo com o Copernicus Climate Change Service da União Europeia, os incêndios levaram a um claro aumento nas emissões de monóxido de carbono, assim como as emissões de dióxido de carbono, colocando em risco a saúde humana e agravando o aquecimento global.

O INPE é o órgão responsável pelo rastreio do desmatamento no Brasil e os dados do instituto mostraram um grande aumento ocorrendo na Amazônia neste ano. No início de agosto, o INPE descobriu que 1.330 milhas quadradas de floresta tropical haviam sido destruídas desde janeiro, o que representa uma taxa 40% maior que o apurado em 2018.

A divulgação dessas estatísticas e a consequente cobertura da mídia despertaram a ira do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Bolsonaro, que defende o aumento do desenvolvimento agrícola e da mineração na Amazônia, chamou esses números de “uma grande mentira” e depois demitiu Ricardo Galvão, físico que atuou como diretor do INPE.

Por que tantos incêndios estão ocorrendo agora?

Os recentes incêndios na Amazônia foram generalizados e alguns ocorreram repentinamente. No estado do Pará, por exemplo, ocorreu um surto de incêndios na semana passada que foi ligado a uma convocação dos agricultores para o que foi chamado de “um dia de fogo” em 10 de agosto, de acordo com reportagens locais. O INPE, usando sensores baseados em satélite e outros instrumentos para localizar incêndios e rastrear a quantidade de área queimada, registrou centenas de incêndios no estado à medida que os fazendeiros limpavam a terra para a agricultura e também queimavam áreas intactas da floresta tropical para desenvolvimento adicional (futuro). As florestas tropicais desmatadas nessa região são tipicamente usadas para criação de gado e cultivo de soja, e grande parte do desmatamento é feito ilegalmente.

Os incêndios que ocorreram tanto lá como em outros estados enviaram uma nuvem de fumaça para o sudeste do país, escurecendo os céus de algumas cidades e municípios.

Um fator que contribui para a onda de incêndios na Amazônia é o fato de que a região passa pela estação das secas, a época do ano em que os incêndios florestais tendem a irromper. Esta estação seca foi particularmente mais pronunciada em algumas áreas. A “secura” atua para tornar o ambiente particularmente receptivo aos incêndios, mas a maioria das chamas é iniciada por pessoas, intencionalmente ou por acidente.

No entanto, este ainda não é o pico da temporada de incêndios no Brasil, segundo Mikaela Weisse, gerente de programa da Global Forest Watch, que acompanha de perto as tendências de incêndio e desmatamento por meio de imagens de satélite. Weisse disse que até agora, parece que a maioria dos incêndios estão ocorrendo em terras agrícolas pré-limpas (anteriormente desmatadas), mas os satélites podem estar perdendo chamas queimando sob as copas das árvores.

A temporada de incêndios no Brasil tem um pico entre agosto e outubro, disse Weiss, e até agora este ano está próximo das altas perdas de incêndios florestais e de cobertura florestal em 2016. “É cedo na temporada, então o que acontece nos próximos meses é crucial para determinar o quanto isso é significativo.”

Sem a Amazônia, a mudança climática aceleraria ainda mais.

Um aumento de incêndios e consequente desflorestamento na Amazônia torna ainda mais difícil, se não impossível, que os países mantenham o aquecimento global “bem abaixo” de 3,6 graus (2 graus Celsius) em comparação com os níveis pré-industriais, conforme solicitado no Acordo do Clima de Paris.

A Amazônia, que ocupa 2,12 milhões de milhas quadradas, absorve cerca de um quarto dos 2,4 bilhões de toneladas métricas de carbono que as florestas globais absorvem a cada ano. No entanto, a capacidade da floresta tropical de atrair mais carbono do que libera está diminuindo, enfraquecida pela mudança nos padrões climáticos, pelo desmatamento e pelo aumento da mortalidade das árvores, entre outros fatores. Os incêndios em curso irão degradar ainda mais sua capacidade de absorção de carbono.

Se a Amazônia se transformasse em uma fonte consistente de emissões de carbono, isso aceleraria o aquecimento global e, ao mesmo tempo, levaria a uma enorme perda de espécies que não são encontradas em nenhum outro lugar na Terra.

De acordo com um estudo publicado este ano, enquanto o desmatamento é a principal ameaça para as espécies de árvores da Amazônia, a mudança climática pode excedê-lo dentro de algumas décadas. O estudo constatou que uma combinação de impactos relacionados à mudança climática, como o aumento da seca, juntamente com o desmatamento para abrir caminho para a agricultura, poderia causar um declínio na riqueza de espécies arbóreas da Amazônia de quase 60%.

No pior dos cenários, sem quaisquer políticas ou programas climáticos eficazes para limitar o desmatamento, o estudo descobriu que, até 2050, as terras baixas da floresta amazônica poderão se fragmentar, prejudicando a biodiversidade e tornando os ecossistemas amazônicos muito menos capazes de absorver e armazenar carbono.

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