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“A humanidade que se deleita com a tourada está atrasada”

Durante uma viagem à cidade de Madri, na Espanha, o jornalista José Paulo Lanyi presenciou uma das maiores barbáries promovidas pelo ser humano: a tourada. Nesses cruéis espetáculos, os touros são agredidos e mortos de maneira brutal. O sofrimento imposto a esses animais, em nome de uma garantia sádica de divertimento aos espectadores, foi visto de perto pelo jornalista, que relata detalhes do que presenciou em entrevista exclusiva à ANDA. Confira abaixo.

Foto: José Paulo Lanyi

ANDA: Você esteve pela primeira vez na praça de touros Las Ventas fora do horário das touradas e conheceu aquele local onde inúmeros touros tiveram suas vidas tiradas. Como foi essa experiência?

José Paulo Lanyi: Eu e minha esposa, Geisa, participamos de um tour com audioguia. Fomos para conhecer, simplesmente, porque as informações que tínhamos sobre a tourada eram muito superficiais. Passamos por todos os setores, desde os espaços junto aos arcos, por onde circulam os espectadores, até a arena onde se dá o espetáculo. Alguns aspectos nos chamaram a atenção. Como as homenagens nas placas aos toureiros que haviam matado mais animais – e com mais “arte”. Uma das inscrições destacava a Porta Grande. É por ela que saem os toureiros que cortaram duas ou mais orelhas em uma mesma tarde. Madri celebra esses homens, que são exaltados como heróis. Em um dos corredores, deparamos com uma exposição de touros taxidermizados. É possível ver como eles eram quando estavam vivos. Os corpos estão acompanhados por fotos desses mesmos animais produzidas antes do sacrifício. Os amantes da tourada fazem questão de dizer que os touros são bem tratados, têm espaço de sobra e se alimentam bem. É irônico pensar que sejam tão bem criados para, ao final, sofrer até morrer. Nas mãos de quem está lá apenas para se divertir com isso.

ANDA: Na praça, touros taxidermizados são expostos e toureiros são homenageados. Você acredita que, mesmo que futuramente as touradas não sejam mais realizadas, a adoração por esses eventos por parte da sociedade espanhola pode demorar a se dissipar devido à romantização presente na exposição de touros mortos e nas homenagens a toureiros?

José Paulo Lanyi: Sim, e acrescente-se a isso a força desse hábito. Tudo começa na infância. No dia das touradas, vimos pais e mães com seus filhos pequenos na arquibancada. É claro que essas crianças crescem pensando que aquele é um espetáculo belíssimo de coragem, força e destreza dos homens diante de bestas-feras ameaçadoras. As crianças crescem admirando esses homens. Não têm consciência de que se trata de uma luta desigual. As estatísticas das mortes nas arenas reforçam essa constatação. Crianças também são ensinadas a não ter empatia. Não à toa, com o passar dos anos muitos adultos criados nesse meio recorrem a argumentos que relativizam o sofrimento do animal. Não lhes passa pela cabeça se colocar no lugar dele e tentar sentir as dores físicas e emocionais do seu martírio. Dias depois, vi num documentário um profissional dessa atividade dizer que Deus havia colocado esses touros no mundo apenas para as touradas. Esses animais haviam sido feitos para isso. Também não ajudam a exercitar empatia afirmações de pensadores como Ortega y Gasset (muito citado no tour) e Ernest Hemingway, que frequentavam essa mesma arena e incensavam a tourada como expressão singular da “cultura espanhola”. É um raciocínio simplista. Dizer, agora em palavras cruas, que só se pode entender o espanhol quando ele tortura e mata um animal por diversão é fechar os olhos para a prevalência de tantas outras de suas expressões — muitas delas verdadeiramente magníficas.

Foto: José Paulo Lanyi

ANDA: Os melhores toureiros podem cortar as orelhas e o rabo dos touros para tê-los como troféus. Na Las Ventas, pelo menos 302 orelhas foram cortadas em 14 anos, o que demonstra que uma quantidade grande de animais tem sido morta nesse local. Que reflexão você faz ao pensar no alto número de touros mortos para entretenimento humano e na prática de tratar como um troféu uma parte do corpo do animal?

José Paulo Lanyi: É a barbárie. Há quem diga que devemos respeitar todas as expressões culturais de qualquer povo, sobretudo quando falamos de práticas seculares ou milenares. Concordo em parte. Rejeito a violência gratuita, ou, antes, movida por uma satisfação mórbida. E com a qual se ganha muito dinheiro, afinal. A humanidade que se deleita com a tourada está atrasada, ainda não conheceu a civilização que se afirma no respeito por todos os seres vivos. “Ah, cada cultura que seja como tem que ser”, dirão os relativistas que também habitam o chamado mundo civilizado. Ora, respondo eu, o que eles diriam se testemunhassem o sacrifício de crianças nos dias de hoje, próprio de algumas culturas do passado? Ficariam chocados. Justamente porque esse tipo de expressão cultural é extemporâneo, mesmo para cabeças tão “avançadas”.

ANDA: Você assistiu a uma tourada em Madri, na Las Ventas. O que te motivou a assistir? O que você presenciou na tourada e qual impressão você teve do que viu?

José Paulo Lanyi: Convenci minha esposa a assistir para conhecermos aquela manifestação cultural de que só havíamos ouvido falar pelos livros, pela mídia ou pelo cinema. Ela resistiu porque, tanto quanto eu, respeita os animais. Mas eu insisti com o argumento de que conhecer poderia firmar a nossa convicção, seja ela qual fosse. E que, para lançar mão de um exemplo, testemunhar um ritual de canibais não seria o mesmo que se sentir confortável com ele. Pode-se entender uma cultura, o que não quer dizer que tenhamos que concordar com ela. As culturas não são estáticas, se transformam ao longo dos anos. Por isso é importante respeitar as reações de quem pensa diferente, dentro ou fora dessas culturas. O fato é que me senti no Coliseu, na Roma do primeiro século, dias em que leões, elefantes, crocodilos e animais de várias outras espécies eram abatidos, caçados ou “colocados para lutar”. Milhares deles poderiam morrer em um só dia. Na Arena de Madri não era diferente. O público tratava a tourada como um espetáculo esportivo. Risos, conversas amistosas, bebidas, estocadas no coro do animal, sangue, gritos de encorajamento, bandeirinhas ao sol, silêncio, alegria pelo golpe fatal e a retirada do corpo morto que quicava com a língua de fora pelo solo puxado por cavalos. E tudo recomeçava a seguir. Foi uma das experiências mais surreais que já vivemos. Aquele animal só havia nascido para isso?

Foto: José Paulo Lanyi

ANDA: Ter presenciado uma tourada e percebido a adoração que parte da sociedade espanhola sente por essa prática te fez enxergar aquele país e aquele povo de maneira diferente?

José Paulo Lanyi: Fiquei perplexo ao observar que os mesmos espanhóis que nos tratavam tão bem, com respeito e fidalguia, eram capazes de se divertir com a tortura e a matança de touros — esses que, suprema crueldade, nem sabiam por que estavam ali. É mais uma demonstração da complexidade do comportamento humano. Enquanto patrocinarem e se deliciarem com touradas, a Espanha e outros países que ainda a realizam não poderão ser chamados de civilizados. A menos que a noção de civilização exclua a promoção do bem-estar e a empatia com o sofrimento do próximo — de qualquer espécie. A civilização que proponho deve levar em conta não só a complexidade cultural, sócio-econômica, científica e tecnológica. Uma sociedade que se diverte com a dor do próximo está viva, sim, mas em um passado distante, desses que envergonham o presente e nos remetem à barbárie.

Foto: José Paulo Lanyi
Foto: José Paulo Lanyi

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


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