Especialistas falam sobre as consequências do fogo na Amazônia para os animais selvagens


O sagui-de-santarém é retratado na floresta brasileira saudável. Algumas espécies de macacos recém-descobertos vivem em faixas muito pequenas atualmente sob ameaça de fogo, levantando preocupações sobre suas populações | Foto: Claus Meyer/National Geographic
O sagui-de-santarém é retratado na floresta brasileira saudável. Algumas espécies de macacos recém-descobertos vivem em faixas muito pequenas atualmente sob ameaça de fogo, levantando preocupações sobre suas populações | Foto: Claus Meyer/National Geographic

por Natasha Daly*

Traduzido por Eliane Arakaki

A floresta amazônica – lar de uma em cada 10 espécies na Terra – está em chamas. Desde a semana passada, em torno de 9 mil incêndios florestais ocorreram simultaneamente em toda a vasta floresta tropical do Brasil e se espalharam pela Bolívia, Paraguai e Peru. Os incêndios, em grande parte estabelecidos intencionalmente para limpar a terra para a pecuária, agricultura e exploração madeireira, foram exacerbados pela estação seca. Eles agora estão queimando em massa, um aumento de 80% em relação ao ano passado, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Os incêndios podem até ser vistos do espaço.

Para os milhares de mamíferos, répteis, anfíbios e espécies de aves que vivem na Amazônia, o impacto dos incêndios virá em duas fases: uma imediata e outra de longo prazo.

“Na Amazônia, nada é adaptado ao fogo”, diz William Magnusson, pesquisador especializado em monitoramento da biodiversidade no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus, Brasil.

A tiriba-de-barriga-vermelha é uma das 1.500 espécies de aves encontradas na Floresta Amazônica. À medida que os incêndios chegam a uma escala sem precedentes, as implicações para a vida selvagem podem ser severas | Foto: Cal Martins
A tiriba-de-barriga-vermelha é uma das 1.500 espécies de aves encontradas na Floresta Amazônica. À medida que os incêndios chegam a uma escala sem precedentes, as implicações para a vida selvagem podem ser severas | Foto: Cal Martins

Em algumas florestas, incluindo muitas nos EUA, os incêndios florestais são essenciais para a manutenção de ecossistemas saudáveis. Os animais são adaptados para lidar com isso; muitos até confiam nele para prosperar. O pica-pau-de-barriga-preta, por exemplo, nativo do oeste americano, só nidifica em árvores queimadas e come os besouros que infestam a madeira queimada.

Mas a Amazônia é diferente.

A floresta tropical só é tão rica e diversificada precisamente porque não queima, diz Magnusson. Embora os incêndios às vezes aconteçam naturalmente, eles são geralmente de pequena escala e queimam baixo no chão. Além do que, eles são rapidamente eliminados pela chuva.

“Basicamente, a Amazônia não havia queimado em centenas de milhares ou milhões de anos”, diz Magnusson. Não é como na Austrália, por exemplo, onde o eucalipto morreria sem incêndios regulares, diz ele. A floresta tropical não é “construída” para o fogo.

Como os incêndios estão afetando animais individualmente agora?

É provável que eles estejam causando um “grande prejuízo à vida selvagem no curto prazo”, diz Mazeika Sullivan, professor associado da Escola de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Universidade do Estado de Ohio, que realizou um trabalho de campo na Amazônia colombiana.

Geralmente, no meio do fogo, Sullivan diz que os animais têm poucas escolhas. Eles podem tentar esconder-se ao cavar um buraco ou entrar na água, diz ele. Eles podem ser desalojados. Ou eles podem perecer. Nessa situação, muitos animais morrerão nas chamas, pelo calor das chamas ou por inalação de fumaça, diz Sullivan.

A fumaça dos incêndios florestais da Amazônia foi capturada nesta imagem de satélite tomada pela NASA | Foto: Nasa Earth Observatory
A fumaça dos incêndios florestais da Amazônia foi capturada nesta imagem de satélite tomada pela NASA | Foto: Nasa Earth Observatory

“Você terá vencedores imediatos e perdedores imediatos”, diz Sullivan. “Em um sistema que não está adaptado ao fogo, você terá muito mais perdedores do que em outras paisagens.”

Alguns animais se saem melhor do que outros?

Certos traços podem ser benéficos em meio a incêndios florestais. Ser naturalmente móvel (facilidade e adaptação à locomoção) ajuda. Animais grandes e velozes como jaguares e onças-pardas, diz Sullivan, podem escapar, assim como alguns pássaros. Mas animais lentos como preguiças e tamanduás, assim como criaturas menores como sapos e lagartos, podem morrer, incapazes de sair do caminho do fogo com rapidez suficiente. “Eles fogem para cima das árvores, mas se escolherem a árvore errada, morrem”, diz Sullivan, e é provável que um animal nessas condições morra.

Algumas espécies já vulneráveis podem se tornar mais ameaçadas ou até mesmo extintas?

É difícil dizer. O incêndio florestal na Amazônia é completamente diferente do que nos EUA, Europa ou Austrália, onde sabemos muito sobre distribuições de espécies, diz Magnusson. Não sabemos o suficiente sobre o alcance da maioria dos animais na floresta tropical para identificar quais espécies estão sob ameaça.

No entanto, existem algumas espécies específicas que causam preocupação.

O Callicebus miltoni ou titi do Milton (homenagem ao primatólogo brasileiro que descobriu a espécie), um macaco descoberto em 2011, só foi documentado em uma parte do Brasil no sul da Amazônia que atualmente é afetada por incêndios. Outro macaco recém-descoberto, o macaco-mura ou choim-preto (Saguinus fuscicollis mura), vive em um pequeno território no centro do Brasil – também ameaçado por incêndios violentos, diz Carlos César Durigan, diretor da Wildlife Conservation Society of Brazil. É possível que essas espécies sejam nativas dessas regiões específicas, diz Durigan. “Eu [temo] que possamos estar perdendo muitas dessas espécies endêmicas.”

E quanto aos animais aquáticos? 

Grandes porções de água são mais seguras a curto prazo. Mas os animais em pequenos rios ou riachos – que são altamente diversos biologicamente – podem estar com problemas. Mesmo em fluxos menores, “os incêndios queimam”, diz Sullivan. Os anfíbios que habitam a água, que precisam ficar parcialmente acima da superfície para respirar, estariam em perigo. O fogo também pode mudar a química da água a ponto de não ser sustentável para a vida no curto prazo, diz Sullivan.

Como as consequências dos incêndios podem afetar as espécies?

Este é o segundo grande golpe. “Efeitos a longo prazo são provavelmente mais catastróficos”, diz Sullivan. Todo o ecossistema das seções de queimadas da floresta tropical será alterado. Por exemplo, o denso dossel (cobertura da copa das árvores) da floresta amazônica impede que a luz do sol chegue ao solo. O fogo abre o dossel de uma só vez, trazendo luz e mudando fundamentalmente o fluxo de energia de todo o ecossistema. Isso pode ter efeitos em cascata em toda a cadeia alimentar, diz Sullivan.

Sobreviver em um ecossistema fundamentalmente transformado seria uma luta para muitas espécies. Muitos anfíbios, por exemplo, têm uma pele camuflada e texturizada que lembra a casca ou as folhas de uma árvore, permitindo que eles se misturem. “Agora, de repente, os sapos são forçados a ter um fundo diferente”, diz Sullivan. “Eles ficam expostos.”

E muitos animais na Amazônia são especialmente adaptados para o ambiente em que vivem – as espécies evoluíram e se adaptaram para prosperar em habitats de nicho. Os tucanos, por exemplo, comem frutas que outros animais não conseguem alcançar – seus longos bicos os ajudam a alcançar fendas inacessíveis. Um incêndio florestal dizimando os frutos dos quais as aves dependem provavelmente mergulharia a população tucana local em crise. Os macacos-aranha vivem no alto do dossel para evitar a competição abaixo. “O que acontece quando você perde o dossel?” Sullivan pergunta. “Eles são forçados a migrar para outras áreas com mais concorrência”.

Os únicos “vencedores” na floresta queimada provavelmente são os rapinantes e outros predadores, diz Sullivan, já que as paisagens desmatadas poderiam facilitar a caça.

Existem outras consequências para os animais selvagens?

Magnusson está mais preocupado com as repercussões gerais da perda florestal.

“Uma vez que você acaba com a floresta, você perde 99% de todas as espécies”, diz ele. Se esses incêndios acontecessem uma única vez, ele não estaria necessariamente preocupado, diz ele, mas ele observa que houve uma mudança fundamental na política no Brasil “que encoraja o desmatamento”. Ele está se referindo ao compromisso do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de abrir a Amazônia “para os negócios”. “O sinal político que foi dado é claro, basicamente que não há mais nenhuma lei, então qualquer um pode fazer o que quiser.”

Conservacionistas e cidadãos preocupados recorreram as mídias sociais, e #PrayForAmazonas se tornou a hashtag de maior destaque do Twitter na quarta-feira. Muitos criticaram as políticas do governo de Bolsonaro. Outros expressaram preocupação de que a demanda global por carne bovina incentive a limpeza acelerada de terras para a pecuária. Ambientalistas também estão chamando a atenção para as consequências que uma Amazônia em chamas – frequentemente chamada de pulmões do planeta – teria sobre as mudanças climáticas. Na quinta-feira, o #PrayForAmazonas havia estimulado o impulso de uma hashtag derivada: #ActForAmazonas.

Há uma área ao longo da fronteira sul da Floresta Amazônica, nos estados brasileiros do Pará, Mato Grosso e Rondônia, chamada de “arco do desmatamento”, diz Magnusson. Lá, um fogo selvagem está empurrando a borda da floresta tropical para o norte, possivelmente mudando a fronteira para sempre.

“Nós sabemos o mínimo sobre isso”, diz ele desta região. “Podemos perder espécies sem nunca saber que eles estiveram lá”, conclui ele.

*Natasha Daly é escritora e editora da National Geographic, onde cobre o bem-estar e a exploração dos animais.

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

Você viu?

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

MAUS-TRATOS

HABITATS DESTRUÍDOS

OMISSÃO

ECONOMIA CIRCULAR

DEDICAÇÃO

TECONOLOGIA

COMPAIXÃO


LEIA EM PRIMEIRA MÃO AS NOTÍCIAS MAIS ANIMAIS DO MUNDO

>