CRÍTICA AO "ENTREVISTA GOURMET"

A compaixão precisa ser estendida a todas as espécies

Por Rafael van Erven Ludolf*

O escritor e conferencista Haroldo Dutra Dias realiza palestras em várias partes do país e do mundo sobre o espiritismo. Ele mantém um canal no YouTube chamado Odisseia e na última semana inaugurou um novo quadro chamado “Entrevista Gourmet”, onde, ao que tudo indica, serão recebidos convidados para cozinhar com Haroldo e a chef Larissa Franco. Não foi divulgada com que frequência o programa irá ao ar. O episódio inaugural foi postado no dia 24 de junho e o convidado da vez foi o psicólogo e escritor Rossandro Klinjey.

O menu, no entanto, surpreendeu. Para o preparo da entrada, prato principal e sobremesa foram utilizados ingredientes como carne, queijos e derivados de leite, o que motivou a reação de diversos espíritas veganos e vegetarianos. Eles lamentaram a produção de uma receita à base de sofrimento animal, preparada por uma chef e pelos dois representantes mundiais do movimento espírita, que, indiferentes aos direitos divinos dos animais e às tantas mensagens dos renomados espíritos sobre os graves prejuízos do abate e consumo de animais, se divertiam e contavam seus desafios e propósitos de vida.

Já acostumado com a indiferença moral da maioria dos expositores espíritas quanto à crueldade animal, fui assistir a entrevista, sem pressa. Mas, para minha surpresa, percebi de pronto que a questão ia além da grave problemática com os animais, pois também reforçava com requinte outra problemática: a glamourização e elitização do Espiritismo.

Se não bastasse a banalização do sofrimento dos animais e a diversão dos expositores ao redor do fogão à custa de tantas lágrimas de dor dos nossos irmãos menores e da Terra devastada pela “indústria da morte” como diz o espírito Alexandre [1], o cenário e os ingredientes gourmetizados não dialogaram com a realidade da maioria dos brasileiros e, sobretudo, se distanciaram da simplicidade necessária na divulgação da mensagem espírita-cristã.

Além da exploração dos animais, considero grave vincular o Espiritismo ao gourmet, reforçando de maneira direta ou subliminar estereótipos materialistas que Kardec tanto se empenhou em combater e que Chico Xavier como um legítimo representante do Espiritismo exemplificou na sua própria vida particular e na divulgação do Espiritismo.

No cenário, queijos e presunto importados, bebida alcóolica, relembrando típicos programas de canais materialistas, glamurosos, midiáticos. Lá no fundo, algo quase despercebido pedia atenção: o Novo Testamento, traduzido pelo próprio irmão Haroldo Dutra Dias.

Vale lembrar que o presunto é carne embutida, classificada no grupo 1 de carcinogênicos, juntamente com o tabaco. Se o movimento espírita não incentiva o uso do tabaco como oferecer num programa espírita alimentos no mesmo nível de riscos à saúde?

Ali, no Evangelho de João 10:10 encontra-se uma citação de Jesus: “Vim para que TODOS tenham VIDA, e a tenham em ABUNDÂNCIA”. Contrariamente, a entrevista reforça o estilo de vida predatório onde são mortos por ano 70 bilhões de animais terrestres e 100 milhões de toneladas de peixes para consumo humano, além dos 115 milhões de animais para pesquisa/estudo, grande parte para a produção de cosméticos.

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Reforça e banaliza, portanto, a dessensibilização com os animais que são cruelmente explorados (como dizem alguns) nos seus cinco campos de concentração: estimação, entretenimento, instrumentos de pesquisa, utensílio e alimentação.

Espiritismo elitista, gourmetizado, elegante, filé, fere a essência do Evangelho e não dialoga com os graves problemas humanos e não humanos da atualidade, num momento de transição planetária onde os seres humanos estão sendo convocados a dar os seus testemunhos morais para a vivência no Mundo de Regeneração.

Nos disse Emmanuel em 1941, ou seja, há 78 anos: “A ingestão das vísceras dos animais é um erro de ENORMES CONSEQUÊNCIAS, do qual derivaram numerosos vícios da nutrição humana. É de LASTIMAR semelhante situação, mesmo porque, se o estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos de origem vegetal, sem a necessidade absoluta dos matadouros e frigoríficos.” [2].

Parafraseando Emmanuel, é realmente de “lastimar semelhante situação”. Até porque este mesmo querido benfeitor, tão idolatrado por tais conferencistas nas suas exposições frisou: “colabora na extinção da crueldade com que até hoje pautamos as relações com os nossos irmãos menores.” [3] Justamente o contrário do que a entrevista gourmet realizou, já que reforçou um estilo de vida arbitrário e cruel aos animais.

O prato, inclusive, ganhou um nome gourmet à moda francesa, como anunciou a chef: “Fiilét do Rossandro e do Haroldo”. Tal nomeação declara a triste contradição do programa: a grande alegria e comemoração dos pregadores do Evangelho em torno da grande dor dos animais abatidos, que muito choraram para se tonarem um fiilét. É questão de fazer a conexão, conexão esta que o Espiritismo tanto nos auxilia a realizar!

Não está em jogo aqui as intenções dos envolvidos nesta entrevista, que tenho certeza que são as melhores, mas sim as consequências do reforço deste padrão de vida no movimento espírita, impactos talvez não percebidos pelos expositores.

Triste capítulo da história espiritista, em pleno século 21, tempo em que “lá fora” do movimento espírita (que parece estar numa bolha no que tange ao assunto animais) se discute e se avança por vários ângulos na temática da ética e direito animal.

Enquanto isso, animais que viveriam em torno de 15 anos se livres na natureza, como por exemplo aqueles ali servidos nos pratos gourmet dos expositores, vivem uns 3 anos na indústria da morte! Isso é VIDA para TODOS em ABUNDÂNCIA como disse Jesus?

Para quem milita pelos direitos animais fora do movimento espírita, como eu, sabe como nós espíritas somos ridicularizados por essa indiferença do movimento espírita em relação aos animais, comportamento que chamo de especismo espírita.

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Para ilustrar, um dia desses, na parte da manhã, estive numa reunião com um grupo de advogados pelos direitos animais, em sua grande maioria ateus, o café da manhã foi vegano. De tarde, estive noutra reunião, agora com protetoras de animais, pessoas comuns da sociedade, e o lanche foi igualmente vegano. Chegando à noite, fui ao Centro Espírita assistir a uma palestra, que em nenhum instante falou de amor aos animais, mas somente aos homens e, na cantina, só havia alimentos de origem animal.

Isso é reforçado ali e acolá constantemente no movimento espírita, tendo tais conferencistas apenas reforçado com requinte esta normose.

Por isso friso que reforçar esse padrão, glamourizado e usando ainda a bandeira do Espiritismo, é problema grave e de enormes consequências. Quem quiser, que faça um programa assim, nada contra, mas sem vincular o Espiritismo.

Faz tempo que Humberto de Campos nos comparou a canibais, através de mensagem ditada a Chico Xavier, quando frisou: “Comece a renovação de seus costumes pelo prato de cada dia. Diminua gradativamente a volúpia de comer a carne dos animais. O cemitério na barriga é um tormento, depois da grande transição. O lombo de porco ou o bife de vitela, temperados com sal e pimenta, não nos situam muito longe dos nossos antepassados, os tamoios e os caiapós, que se devoravam uns aos outros.” [4]

Mais o que eu poderia esperar se o próprio nome do programa é “Gourmet”? Que significa justamente um ideal cultural associado com a arte culinária da comida e bebida caras, reservado a paladares mais avançados e a experiências gastronômicas mais elaboradas?

Bom, em se tratando de notórios nomes do Espiritismo, penso que eu poderia sim esperar assistir a uma entrevista sobre Espiritismo, simples, comprometido em restaurar os ensinamentos de Jesus para a felicidade real de todas as criaturas, inclusive as não humanas.

Se o programa não carregasse a bandeira do Espiritismo eu nada falaria sobre. Repito, a questão aqui não é contra as pessoas envolvidas no programa, as quais tenho grande estima e gratidão pelo aprendizado que me ofertaram com suas exposições, mas sim a favor de um Espiritismo não elitizado, gourmetizado e glamuroso, de um Espiritismo que esteja alinhado com os graves problemas humanos e não humanos da atualidade.

Desse modo, entristeço-me de ver a mensagem espiritista cristã atrelada ao materialismo glamuroso e elitista que distrai e desvia os seres humanos dos seus propósitos divinos e não os convoca ao amor pelos animais, e rogo a Jesus que se compadeça de nós espíritas que ainda agimos como “verdugos cruéis”, “vampiros insaciáveis” e “infratores da lei de auxílio” no trato com os animais como bem disse o espírito Alexandre no livro Missionários da Luz [5].

Tal crítica não é e não deve ser utilizada para denegrir ninguém, mas para nos unirmos e nos alinharmos enquanto movimento espírita com a mensagem do Espiritismo. Para mudarmos urgente esse padrão predatório de vida e aplicarmos as sublimes máximas “fora da caridade não há salvação” e “amai ao próximo” aos animais em nossos espaços espíritas.

Tenho a convicção e oro constantemente para que os conferencistas espíritas notoriamente conhecidos, como por exemplo Haroldo e Rossandro, devido a sua grande influência, um dia realizem no quesito animais algo semelhante a conversão de Paulo de Tarso, passando então a utilizar os seus locais de fala para pregar o amor de maneira tão empolgante e bela como fazem, também às crianças espirituais deste planeta, os nossos irmãos animais.

Estarei entre os primeiros a aplaudir e agradecer.

Sigo me colocando à disposição de todos os influenciadores espíritas para auxiliar nesta empreitada de mudanças de hábitos nos espaços espíritas, contribuindo para restituir aos animais o seu direito divino de viver.

Paz e bem.

REFERÊNCIAS:

[1] XAVIER, F. C.; ANDRÉ LUIZ (Espírito). Missionários da Luz. 45 ed. 3 imp. Brasília: FEB, 2015. 382 p. Capítulo 4 “Vampirismo”, pp. 42-46, pelo benfeitor Alexandre.
[2] XAVIER, F. C.; EMMANUEL (Espírito). O Consolador. 29 ed. 5 imp. Brasília: FEB, 2017. 305 p. Capítulo 2 “Filosofia”, item 2.1. “Vida”, subitem 2.1.1. “Aprendizado”, questão 129, pp. 90-91.
[3] XAVIER, F. C.; EMMANUEL (Espírito). Alvorada do Reino. 1 ed. São Paulo: IDEAL, 1988. 102 p. Capítulo 15 “Na senda de ascensão”, pp. 78-82.
[4] XAVIER, F. C.; IRMÃO X (Espírito). Cartas e Crônicas. 14 ed. 3 imp. Brasília: FEB, 2015. 167 p. Capítulo 4 “Treino para a morte”, pp. 18.
[5] XAVIER, F. C.; ANDRÉ LUIZ (Espírito). Missionários da Luz. 45 ed. 3 imp. Brasília: FEB, 2015. 382 p. Capítulo 4 “Vampirismo”, pp. 42-46, pelo benfeitor Alexandre.

*Rafael van Erven Ludolf é mestrando pelo LATEC-UFF (Universidade Federal Fluminense), na linha de Sustentabilidade, onde pesquisa a “Exportação de Animais Vivos no Brasil e a Regra Constitucional de Proibição de Crueldade contra os Animais”. Pós-graduado em Direito do Consumidor e Responsabilidade Civil. Advogado, com foco no Direito Animal. Delegado das Comissões de Proteção e Defesa Animal da OAB do Rio de Janeiro e de Niterói. Fundador do MOVE (Movimento Vegetariano Espírita). Dirigente de Doutrina e Secretário do Grupo Espírita Servidores de Jesus de Niterói/RJ. Escritor e expositor sobre Direito Animal e sobre o Espiritismo.

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