VOLUNTARIADO POR AMOR

Protetoras de animais fazem do resgate de cães e gatos uma missão ‘materna’

Elas enfrentam até apertos financeiros para fazer com que seus animais não passem necessidade.

A ONG Mapan não tem sede, e todos os animais vivem nas casas de protetoras, como Regina Cheida — Foto: Arquivo pessoal/Regina Cheida

O amor materno vai além daquele de quem gerou uma vida humana. As protetoras de animais têm esse mesmo sentimento na luta diária para resgatar cães e gatos abandonados e maltratados. “Não somos apenas mães temporárias dos animais que vêm e vão. Somos eternas mães, e eles, nossos eternos filhos”, afirma Regina Cheida Vieites, vice-presidente da ONG de proteção aos animais Mapan.

A ONG Mapan não tem sede, e todos os animais vivem nas casas de protetoras, como Regina Cheida — Foto: Arquivo pessoal/Regina Cheida

Regina considera essa uma luta consciente, mas admite que os resultados nem sempre são positivos, e que a insegurança quanto ao processo é grande. “Muitas vezes, passamos por apertos e dificuldades para que as necessidades dos animais sejam supridas”, afirma.

Muitas protetoras de animais, segundo ela, fazem sacrifícios para que as necessidades de seus filhos sejam supridas. Regina menciona o caso de uma das protetoras da ONG, que está com 18 cachorros em casa. Vários deles são idosos e impossibilitados de andar.

Há pouco tempo, um dos animais precisou passar por uma cirurgia cara. A protetora recorreu às arrecadações da ONG, mas o total não foi suficiente para cobrir os gastos. Ela passou, então, a comer em restaurantes de 1 real para conseguir economizar e juntar o dinheiro necessário.

Para Regina Cheida, esse tipo de empenho dá resultado. Ela mostra como exemplo o caso de um cachorro que chegou com ferimentos de objetos cortantes, porque o tutor queria se livrar dele. Foram realizadas várias cirurgias, mas o animal foi adotado, e hoje se encontra saudável, e com uma nova família.

Além de ser desumano, abandonar e submeter animais a maus-tratos é crime. O Artigo 32 da Lei 9.605/98 determina detenção de três meses a um ano e multa a quem praticar abuso, ferir ou mutilar animais, ou realizar experiência dolorosa, ou cruel, em animal vivo. Além disso, a punição é aumentada de um sexto a um terço, caso o animal morra.

Patrícia França diz que ter pets ajuda no combate à depressão: “Passei a me sentir feliz” — Foto: Arquivo pessoa/Társila Maciel

A jornalista e protetora Társila David Maciel considera a adoção uma das maiores provas de amor. “Adotar é se tornar responsável por uma vida. É preciso cuidar. Minha família é muito mais completa com eles”.

Társila acredita que resgatar animas é uma “ótima política de redução de danos”. Ela argumenta que, quando as ONGs tiram cães e gatos da rua, contribuem para evitar que eles gerem filhotes que também ficarão abandonados.

A jornalista já adotou dez animais, cada um com uma história diferente. Alguns passaram por problemas de saúde que fizeram com que fosse preciso investir dinheiro em tratamentos de alto custo. “Mas, isso não importa”, comenta. Afinal, para ela, são seus filhos.

Ter animais em casa ajuda a combater a depressão e o estresse, de acordo com estudos realizados pela Universidade Estadual de Nova York, nos Estados Unidos. A administradora hospitalar Patricia França está entre os que concordam com essa avaliação. “Adotei meus filhotes quando estava passando por um momento um pouco triste e, desde então, passei a me sentir melhor e mais feliz”.

Patrícia diz que é frequente deixar de comprar coisas para ela mesma, e gastar com seus animais. “Tiro de mim para dar para os meus filhos. Se isso não é ser mãe, eu, realmente, não sei o que é”, afirma.

“Questão financeira”

Regina Cheida diz que é comum pessoas pegarem animais nas ruas e levarem até as casas das protetoras, com a ideia de que elas sempre podem pegar mais um para cuidar. “O pensamento é sempre o mesmo. Elas dizem ‘esse vai ser o último, não vou pegar mais nenhum’, mas o ciclo sempre se repete”.

Uma das protetoras, conta Regina, mora numa comunidade de baixa renda com vários cães e gatos. Frequentemente, diversos outros animais são deixados para ela cuidar. Na maioria das vezes, eles chegam em condições precárias, doentes e precisando de remédios, que costumam ser caros. Tudo isso envolve dinheiro, e faz com que seja necessário arcar com as despesas do próprio bolso.

A questão financeira é um grande problema, tendo em vista que todos os animais precisam se alimentar, receber medicações e, algumas vezes, passar por cirurgias. A Mapan realiza feiras de adoção de 15 em 15 dias. Nelas, é solicitado aos adotantes que façam donativos, mas nem todos compreendem que o dinheiro se destina a pagar pelos cuidados com os animais.

As doações não são poucas, admite Regina, mas estão longe de ser suficientes. As protetoras acabam ajudando da maneira que podem. Veterinários também ajudam, dando desconto em consultas, procedimentos e cirurgias. Uma cirurgia que custaria R$ 1.500, por exemplo, pode sair por R$ 800 com esse suporte. É quase metade do valor, mas ainda elevado e o dinheiro disponível, quase sempre insuficiente para manter um nível alto de qualidade nos cuidados.

A jornalista Társila Maciel considera necessários os gastos, mesmo que sejam altos, com os animais — Foto: Arquivo pessoal/Patrícia França

Para que a Mapan pudesse se manter da melhor maneira, Regina estima que seria preciso entrar R$ 10 mil na conta todos os meses, mas a ONG obtém só metade desse valor. “O restante sai do nosso bolso. Não conseguimos deixar de nos comover e não pegar os animais, por isso acabamos passando por apuros”.

Ser protetor de animais não é fácil, diz Regina Cheida, mas a sensação após o resgate compensa. “É quando podemos olhar nos olhos dos animais e dizer que a luta deles acabou. É extremamente gratificante”, avalia. Apesar de a gratidão ser grande, os problemas para as protetoras de animais surgem na mesma proporção. É comum elas terem, por exemplo, de lidar com a rejeição dos adotantes após algum tempo.

“Amor não se compra”

A estudante de Administração Victória Oliveira possui quatro cachorros. Um deles foi adotado e os outros três, resgatados. Ela acredita que deveria haver a conscientização de que, por trás de um filhote que custa R$ 3 mil, existe uma mãe que gera crias durante todo o ano, e muitas vezes em condições precárias. “É um mercado terrível que poderia ter fim se a população parasse de comprar uma vida. Sem demanda, nenhum comércio de mantém”, desabafa.

Victória conta que teve uma história diferente com cada um de seus cães. Uma delas foi marcante. A estudante trabalhava numa loja de shopping, quando saiu para o almoço e viu um homem em situação de rua com diversos cães. Ela gostou muito deles, mas seguiu seu caminho. Na volta, ao entrar na loja, notou um cachorro pelos corredores do shopping. Era justamente um dos que havia visto pouco antes, e acabou entrando na loja. Daí em diante, não se separaram mais.

“Costumo dizer que não fui eu quem escolhi, ele que me escolheu”, diz Victória. Por isso, ela acredita que “amor não se compra”. Mãe de verdade, argumenta, é quem cria. Assim, se considera mãe de seus animais. “Não consigo entender o que leva alguém a comprar, enquanto há tantos que custam exatamente zero real, mas valem milhões”.

Fonte: G1

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