Sacerdote cubano faz campanha no Brasil contra sacrifício animal em rituais religiosos


O sacerdote cubano Dagoberto Isaac Cordero Chirino, de 66 anos, conhecido como Alawowwo, está fazendo uma campanha no Brasil contra o sacrifício animal em rituais religiosos. O objetivo dele é convencer pais e mães de santo a parar de matar animais.

Alawowwo veio ao Brasil a convite de mãe Solange, uma ialorixá proprietária do terreiro de canbomblé Roça dos Oxirás Afro-brasileiros, em Guarulhos (SP). Os dois se aproximaram, após se conhecerem em Cuba, porque mãe Solange queria parar de fazer sacrifícios de animais nos trabalhos que realiza.

O sacerdote Alawowwo (Foto: Eduardo Knapp / Folhapress)

Adepto do culto yezam (Ozaín), uma religião africana de 4,5 mil anos que nunca fez sacrifício animal, Alawowwo veio ao Brasil com a esposa, Marta de Armas Sotolongo, com quem é casado há 35 anos e tem três filhos. Os dois se hospedaram em uma casa a meio quarteirão do terreiro Roça dos Oxirás Afro-brasileiros.

Em 2016, Alawowwo iniciou mãe Solange no culto yezam. “Desde então não faço mais sacrifício animal em minha casa”, afirma ela, em entrevista exclusiva ao jornal Folha de S. Paulo.

Com algumas similaridades com a umbanda e o candomblé, o yezam nasceu no Benin, na África, e chegou a Cuba e a outros países da América Latina ao ser trazido por escravos africanos. A religião deve chegar, também, ao Brasil, caso os planos de mãe Solange e Alawowwo derem certo.

“Yezam é mais antigo que o candomblé e a umbanda, e tem alternativas para o uso do sangue”, afirma Alawowwo. Essas alternativas, porém, não podem ser expostas a quem não for iniciado no culto.

“Todas as religiões um dia fizeram sacrifício animal, os cristãos, os muçulmanos, os budistas. Mas se adaptaram às mudanças da sociedade e não fazem mais isso”, diz Alawowwo. “Até hoje nas missas católicas os padres falam ‘o sangue de Cristo’ quando levantam o copo, mas não é mais sangue que tem ali. Agora está na hora das religiões de origem africanas se adequarem aos tempos modernos”, completa.

A mãe de santo Solange Buonocore (Foto: Eduardo Knapp / Folhapress)

Os animais são mortos durante os rituais de iniciação, quando o sangue deles é usado, e para despachos oferecidos aos orixás. A justificativa para os sacrifícios é o uso do sangue na comunicação com as entidades. São mortos galinhas, patos, pombos, bodes, carneiros e bois e, depois, a carne é assada e consumida. Até mesmo o couro é utilizado para fabricação de instrumentos de percussão.

O sacrifício animal é legal, segundo a legislação brasileira. Em março deste ano, o Supremo Tribunal Federal decidiu, após realizar uma discussão sobre o tema que se iniciou em agosto de 2018, que a prática é constitucional. A lei, no entanto, determina que não pode haver crueldade nos sacrifícios, cabendo punição de até um ano de detenção em caso de maus-tratos. Não são, no entanto, todos os terreiros que praticam o sacrifício. Aqueles denominados “mesa branca” não o fazem.

“Na Europa já é proibido matar animais em cerimônias religiosas. As religiões africanas no mundo todo sofrem pressão das organizações de defesa dos animais e dos governos, e o culto de Yezam é um caminho”, diz Alawowwo.

O objetivo, agora, é conscientizar os pais e mães de santo brasileiros através de palestras e encontros, que serão organizados por mãe Solange. Até o momento, Alawowwo não tem compromissos agendados no Brasil, mas permanecerá no país pelo menos até meados de agosto. “É um trabalho complicado, mas estamos apelando à inteligência, à sensibilidade e à fé de integrantes de outros cultos”, concluiu o sacerdote.

Candomblé vegetariano

No Brasil, a mãe de santo Iya Senzaruban, decidiu parar de usar o sangue de animais em rituais do candomblé e começou a dar palestras e cursos sobre o que ela chama de “candomblé vegetariano”. Em entrevista exclusiva à ANDA, Iya afirmou que “a proposta do vegetarianismo no candomblé é fazer de uma outra forma, sem prejudicar o tipo de energia que a gente trabalha, sem mudar muito. As mudanças são muito poucas”. De acordo com ela, “não são eliminados os elementos da natureza, que é o que o candomblé trabalha, as forças da natureza”, mas são feitas mudanças “que vão desde a comida de santo, que não usa nem camarão ou ovo, nada de origem animal”.

A mãe de santo Iya Senzaruban (Foto: Divulgação)

“Não dá para buscar a mesma energia, porque a energia de sangue é muito pesada. Ela traz muita proteção mas ao mesmo tempo traz muita sujeira espiritual. Hoje em dia eu procuro ter uma limpeza espiritual e conseguir a mesma coisa sem ter que fazer uma matança: livrar as pessoas de problemas, principalmente na área de saúde, de doenças graves”, disse.

Estudos já comprovaram que o consumo de produtos de origem animal é prejudicial para a saúde humana. A mãe de santo, porém, lembra que eles fazem mal também para a espiritualidade de quem os consome. “Matar os animais é algo que espiritualmente não faz bem, pois você está tirando a vida e depois comendo cadáveres”, afirmou. Por outro lado, os vegetais, lembrou Iya, “não atingem a aura da pessoa”.

“O vegetarianismo é um estilo de vida para o bolso, para a saúde mental, espiritual e psicológica, pois tudo está ligado”, afirmou a mãe de santo.

Ao ser questionada sobre o que pretende o candomblé vegetariano, Iya respondeu: “a minha função, assim como para quem se sente nesta situação, é encontrar uma nova forma de louvar os orixás sem ofender os outros seres vivos. Eu acho que é uma demonstração de boa vontade para com Deus.”


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