Bolsonaro apoia reabertura de estrada que ameaça Parque Nacional do Iguaçu


O presidente Jair Bolsonaro (PSL) anunciou, durante visita ao Paraná, apoio à reabertura da Estrada do Colono, que corta o Parque Nacional do Iguaçu. Com cerca de 18 km, a rodovia foi fechada em 2001, por ordem da Justiça Federal, por “ameaçar a integridade do Parque Nacional do Iguaçu, no oeste do Paraná, e a segurança nacional pela proximidade com a tríplice fronteira”. Na época, a estrada era rota de contrabando entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina.

Foto: Zig Koch/MTUR/Creative Commons/Flickr

“Da nossa parte já conversamos com o ministro [do Meio Ambiente] Ricardo Salles e tem também a questão da licença estadual que parece estar bem adiantada lá com o governador Ratinho Junior. Então, se Deus quiser, brevemente teremos essa estrada aberta”, disse Bolsonaro. As informações são do portal Conexão Planeta.

O deputado Nelsi Coguetto (PSD) é o autor da proposta mais recente sobre a reabertura da estrada. O projeto apresentado por ele já foi aprovado pela Comissão de Viação e Transportes da Câmara e aguarda análise da Comissão de Meio Ambiente. Caso receba nova aprovação, a proposta segue para o Senado, sem necessidade de apreciação em plenário.

Outro projeto de lei sobre o caso foi discutido, em 2013, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O objetivo era criar uma “estrada-parque”. Uma grande pressão da sociedade civil foi realizada na época, com quase mil entidades não governamentais se unindo para enviar uma carta à Unesco e à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

O Parque Nacional do Iguaçu é uma Unidade de Conservação (UC) e o maior remanescente de Floresta Atlântica na região sul do Brasil. Conforme informou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável por gerir o parque, o local protege uma riquíssima biodiversidade, com espécies da fauna e flora brasileiras, algumas ameaçadas de extinção, como a onça-pintada, o puma, o jacaré-de-papo-amarelo, o papagaio-de-peito-roxo e árvores como a peroba-rosa e araucária.

Foto: Zig Koch/MTUR/Creative Commons/Flickr

Cerca de 1,6 milhão de visitantes passam pelo parque anualmente. A principal atração do local são as Cataratas do Iguaçu. Apesar do alto número de pessoas circulando pelo local, a administração conseguiu reduzir os impactos na vida selvagem devido ao enfoque na sustentabilidade. A Estrada do Colono, no entanto, ameaça o parque, que se tornou Patrimônio Natural da Humanidade em 1986.

“É mais uma tentativa de reabrir uma estrada destrutiva dentro do Parque Nacional do Iguaçu”, criticou Angela Kuczach, diretora executiva da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação, entidade que trabalha, em conjunto com outras ONGs e pessoas, pela proteção, o fortalecimento e a ampliação das Unidades de Conservação da Natureza no Brasil, especialmente as de Proteção Integral.

“Essa ‘picada’, que um dia virou uma estrada ilegal, está sendo usada novamente dentro de uma artimanha de um projeto para rasgar a floresta. De tempos em tempos, esse assunto vem à tona”, disse.

Após 20 anos do fechamento da estrada, lembrou Angela, o Parque do Iguaçu oferece um serviço de concessões bem estabelecido, que gera milhares de empregos em Foz do Iguaçu e nos municípios vizinhos. As prefeituras das cidades do entorno recebem também ICMS ecológico por estarem na região do parque.

Para Angela, a reabertura da estrada interessa “penas aos políticos da área, que utilizam isso em suas campanhas eleitorais. Mas em nenhum momento, eles deixam claro para a população que os municípios só vão perder dinheiro”.

Foto: Zig Koch/MTUR/Creative Commons/Flickr

A diretora da entidade lembra que se o projeto de lei for aprovado, será aberta uma “ferida no meio do parque”. A ideia de “estrada-parque”, inclusive, está sendo usada de forma distorcida no Brasil. Originária dos Estados Unidos, essa rodovia serviria para estimular o turismo, por meio do qual as pessoas apreciariam a paisagem por meio de mirantes, pontos de parada e outros atrativos. O projeto que visa reabrir a Estrada do Colono, no entanto, não prevê esse tipo de rodovia.

Caso a rodovia seja reaberta, o título de Patrimônio da Humanidade recebido pelo parque pode ser afetado e o turismo impactado negativamente, além de facilitar a presença de caçadores e contrabandistas na região. “Irá fragilizar a sobrevivência da vida selvagem. É abrir a porta para os bandidos entrarem”, lembrou Angela.

Foto: Zig Koch/MTUR/Creative Commons/Flickr

A questão da vida selvagem abordada pela diretora da ONG é, de fato, alarmante. Na década de 90, a onça-pintada foi praticamente extinta no parque. Aos poucos, devido a esforços de conservação, a espécie conseguiu se recuperar. Segundo o último censo, realizado em 2017, o número de onças-pintadas cresceu 70%, entre 2010 e 2016. Apesar desse aumento, a espécie permanece considerada criticamente ameaçada de extinção.

Com a reabertura, a estrada cruzaria o rio Floriano, que tem nascente dentro do Parque Nacional do Iguaçu e é considerado o “mais puro” do Paraná. Diante dessa situação, os animais que vivem nas imediações do rio correriam risco de atropelamento.

“A gente não pode cair nessa falácia de, por um termo que está sendo distorcido – estrada parque não é isso -, acreditar que será bom para o parque. Será péssimo!”, concluiu Angela.


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