Caçadores e madeireiras ameaçam lêmures e florestas em Madagascar


Em Vohibola, uma das últimas florestas primárias no leste de Madagascar, caçadores estão matando os lêmures, primatas que lutam contra a ameaça de extinção e estão derrubando árvores, algumas delas de madeiras raras, para queimarem com intuito de fazer carvão.

A patrulha de Michael Tovolahy rastreia esses caçadores diariamente, em alerta para o menor movimento e som, criminosos que estão causando danos graves a essa jóia da biodiversidade.

“Nesta floresta, existem pelo menos 20 espécies de animais indígenas, incluindo seis tipos de lêmures e 150 espécies de árvores”, diz Tovolahy, cujo apelido é Nabe.

“Por causa desses caçadores-madeireiros, temo que essa floresta não exista mais no futuro, será apenas um espaço vazio, onde os desenvolvedores e progressistas cultivarão muros de concreto”.

Uma ironia terrível é que um documentário de 2014, “Island of Lemurs”(A ilha dos Lemures, na tradução livre), que fez tanto para chamar a atenção para a situação dos animais “fofinhos”, sem querer encorajou pessoas, e criou um mercado, daqueles que querem tê-los como animais de estimação em gaiolas.

Alguns matam as criaturas inofensivas por comida, outros as vendem como animais de estimação – e para pegar suas presas indefesas, eles derrubam preciosas árvores tropicais.

“Os lêmures dão criaturas noturnas por isso são muito fáceis de capturar pois dormem durante o dia”, explica Tovolahy.

Os caçadores cortam as árvores que cercam o ninho deles, as quais permitem que os lêmures possam dar longos saltos de uma pra outra.

Tudo o que os caçadores precisam fazer é sacudir a árvore até que o animal caia.

Madeira recém cortada de árvore de ébano, rara e protegida | Foto APF
Madeira recém cortada de árvore de ébano, rara e protegida | Foto APF

Os lêmures estão entre os muitos tesouros da vida selvagem que são exclusivos de Madagascar.

Das 111 espécies de lêmures registradas, 105 enfrentam a ameaça de extinção, diz a Rede de Conservação dos Lêmures (LCN).

Outros danos a floresta de Vohibola e sua população natural estão sendo infligidos pela simples necessidade de madeira para cozinhar.

A patrulha da floresta freqüentemente se depara com uma visão desanimadora: enormes espaços vazios e montes de cascas de árvores – vestígios da extração ilegal de madeira que são levadas, queimadas e vender o carvão a madagascanos.

“Eles derrubam árvores de madeiras raras como o ébano e as usam para fazer carvão – é tão triste ”, diz Tovolahy.

Eric Rabenasolo, diretor-geral de florestas do Ministério do Meio Ambiente, diz que os nove milhões de hectares de florestas de Madagascar estão diminuindo a cada ano, entre 50 mil e 100 mil ha – um campo de futebol tem aproximadamente um hectare.

Vohibola em si é um paraíso para uma espécie extraordinária – o lêmure-rato.

Cecilien Ranaivo, prefeito de Ambinaninony,, acusado de receber propina de empresas madeireiras e caçadores | Fotos: AFP
Cecilien Ranaivo, prefeito de Ambinaninony,, acusado de receber propina de empresas madeireiras e caçadores | Fotos: AFP

De sua cabeça até a ponta de sua cauda, esse animal noturno (gênero Microcebus) mede menos de 27 centímetros, tornando-se o menor primata do mundo – e, de acordo com a Conservação Internacional da Natureza (IUCN),esta entre os mais ameaçados de todos os vertebrados.

O estado está tentando aumentar a conscientização sobre os perigos de tal tráfico, pedindo às pessoas, por exemplo, que verifiquem a fonte do carvão que usam para cozinhar e incentivando as aldeias a denunciar a extração ilegal de madeira às autoridades.

A mensagem muitas vezes não chega a ser ouvida em um país onde três quartos da população vivem na pobreza.

Os caçadores têm uma reputação conhecida pela população de violência e vingança e suas conexões com os habitantes locais significam que a polícia raramente pode fazer prisões.

“Nunca cheguei muito perto desta floresta no meu barco”, confidenciou Parfait Emmanuel, um pescador da aldeia de Andranokoditra. “Eu não tenho vontade de ser cortado em pedaços por um caçador”.

“São os próprios moradores que alertam os caçadores de que a polícia está chegando”, diz Cecilien Ranaivo, prefeito do distrito de Ambinaninony, que inclui Andranokoditra.

“Então, obviamente, eles não conseguem fazer muitas prisões.”

Durante a patrulha de Tovaly, a equipe se depara com um esconderijo de caçadores – um acampamento do tamanho de uma pequena aldeia, com cerca de 20 cabanas improvisadas que foram claramente abandonadas às pressas.

Esconderijo de caçadores | Foto: AFP
Esconderijo de caçadores | Foto: AFP

Tovolahy expressa sua frustração. Seus recursos são limitados: a patrulha é formada por voluntários armados com paus ou arcos e flechas e só pode tentar assustar os caçadores, em vez de atacá-los de frente.

“Nós nunca seremos capazes de lutar contra os madeireiros-caçadores por nós mesmos”, diz ele. “O que é necessário são homens armados, habilitados por lei a usar a força, em caso de necessidade”.

Exasperado pela impotência das autoridades, o ambientalista Stephane Decampe decidiu lançar-se em sua própria missão para proteger os lêmures.

Decampe, um cidadão d dupla nacionalidade franco-malgaxe, é co-proprietário do Jungle Nofy Hotel, uma pousada que acomoda turistas que descem o Canal de Pangalanes, uma série interconectada de rios, lagos artificiais e cursos d’água que percorre a costa leste de Madagascar.

Ele patrulha o canal três noites por semana em seu barco para rastrear os caçadores.

Patrulha de voluntários de Michael Tovolahy armados com paus e arco e flecha | Foto: AFP
Patrulha de voluntários de Michael Tovolahy armados com paus e arco e flecha | Foto: AFP

“Eles vêm da cidade de Tamatave (70 quilômetros ao norte de Ambinaninony), junto com sua esposa e filhos”, disse Decampe.

“Eles são deixados aqui de barco e têm comida, mas não carne … então eles comem lêmures”, disse ele.

Ele e sua esposa Angelique também resgatam e recuperam os lêmures que as famílias usam como animais de estimação.

“Nós os libertamos”, disse ela. “Mas quando nós fomos pela última vez, de férias, os caçadores os envenenaram em um ato de vingança.”

A batalha para salvar os lêmures tem provocado tensas relações com as autoridades – autoridades locais, dizem ativistas, recebem propina de alguns dos traficantes.

Essa insinuação faz com que o prefeito Ranaivo responda as acusações furiosamente, acusando os ativistas de terem “motivações políticas”.

Uma dúzia de ambientalistas foi presa no início de abril.

“Eles nos acusaram de cortar ilegalmente árvores e destruir negócios de madeireiros”, suspirou Tovolahy.

“E enquanto tudo isso acontecia, os verdadeiros caçadores saqueavam a natureza”.


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