Foto: Quartz/Reprodução
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A chegada das fazendas de criação de polvo está se aproximando rapidamente. Até agora, os animais escaparam da agricultura de criação porque são extremamente difíceis de alimentar logo após o nascimento, e têm uma baixa taxa de sobrevivência. Mas os avanços tecnológicos e a experimentação estão tornando isso possível.

Uma empresa japonesa que comercializa frutos do mar chocou artificialmente ovos de polvo em 2017 e espera ver o polvo criado em escala à venda até o próximo ano; uma fazenda mexicana informou já estar criando polvos, e fazendas na Espanha e na China também estão entrando no negócio.

Isso não é motivos para comemoração, de acordo com quatro pesquisadores da vida marinha que apresentaram seus argumentos na edição de Inverno de 2019 da revista Questões de Ciência e Tecnologia. Eles observam que os polvos são carnívoros e, assim, criá-los em cativeiros aumenta a pressão sobre o ecossistema, porque os criadores teriam que pegar uma enorme quantidade de peixes selvagens para alimentá-los.

A criação de polvos “aumentaria, não aliviaria, a pressão sobre os animais aquáticos selvagens”, escrevem eles. “Os polvos têm uma taxa de conversão alimentar de pelo menos 3:1, ou seja, o peso da alimentação necessária para sustentá-los é cerca de três vezes o seu”.

Mas também há uma questão exclusiva dos polvos: eles são incrivelmente inteligentes. “Um estudo descobriu que os polvos retiveram o conhecimento de como abrir um frasco com tampa por pelo menos cinco meses”, escrevem os pesquisadores da vida marinha.

“Eles também são capazes de percorrer paisagens complexas, realizar extensas viagens para alimentação e usar marcos visuais para navegar”, atestam os cientistas.

De acordo com os especialistas em vida marinha os polvos são considerados os únicos invertebrados definitivamente conscientes, o que significa que são os animais mais desenvolvidos que são menos semelhantes aos humanos e, como tal, a coisa mais próxima de um alienígena neste planeta.

Polvos criados em cativeiro provavelmente serão mantidos em tanques pequenos com vidas monótonas que não satisfazem sua necessidade de estimulação mental e exploração. Além disso, observam os pesquisadores, até agora os polvos reproduzidos em cativeiro apresentaram aumento da agressividade, infecção parasitária e altas taxas de mortalidade.

O mesmo argumento para não criar polvos em cativeiro serve para outros animais na mesma medida. O salmão pode ser menos inteligente do que os polvos, mas as eles ainda gostam de brincar nos córregos e merecem um estilo de vida agradável.

Seria necessário um esforço considerável para parar com a prática desse tipo de criação que já vem de longa data (como as ovelhas, que começaram há 9 mil anos, dizem os pesquisadores). Antes de iniciarmos a criação do polvo, pelo menos temos a chance de reconsiderar: esse é realmente o jeito certo de tratar outro animal?