Sivalingam Vasanthakumar planeja plantar hortaliças. Foto: Kumar’s Dosa Bar/SWNS

Há pouco tempo, um fazendeiro estava em seu caminho na estrada em direção ao matadouro quando decidiu dirigir seu trailler cheio de ovelhas por mais 320 km até um santuário de animais. Sivalingam Vasanthakumar, 60 anos, de Devon, agora planeja cultivar hortaliças.

Vasanthakumar não é o único agricultor a fazer esse tipo de inversão. Em 2017, Jay Wilde, da fazenda Bradley Nook, em Derbyshire, levou seus animais a um santuário e decidiu se tornar um agricultor vegano (o filme que conta essa história, 73 Cows (em português, 73 Vacas), foi indica-do a um prêmio da Bafta). Nos Estados Unidos, a instituição Free From Harm, em Illinois, reuniu histórias de muitos agricultores que tiveram esse tipo de epifania e resolveram se voltar para o veganismo.

Os agricultores sabem do que seu trabalho se trata quando começam a fazê-lo – então o que costuma causar uma reviravolta tão grande? “Trata-se de uma dissonância cognitiva básica”, diz a coach Fiona Buckland. Isso ocorre quando “a maneira como você está vivendo sua vida já não está totalmente alinhada com o modo como você se sente”, e os valores pessoais não estão alinhados com suas práticas.

A dissonância cognitiva ocorre quando a pessoa não consegue mais sustentar determinado mal-estar e isso a instiga a mudar. “É a razão pela qual alguém se senta à mesa e pensa: ‘Eu não posso mais fazer isso’, ou decide terminar um casamento”, diz Buckland. “A dissonância cognitiva é muito grande. É preciso haver um alinhamento das ideias”.

Mesmo decisões aparentemente precipitadas – como mudar o destino no meio de uma jornada, como fez Vasanthakumar– “se infiltram em nosso inconsciente” por semanas, meses ou anos. “Talvez ele tenha levado a si mesmo ao matadouro muitas vezes”, acrescenta Buckland com ironia. Ela descreve o redirecionamento de Vasanthakumar como “um momento de solução criativa para seus problemas”: aqui estão algumas ovelhas que gostaria de manter vivas, aqui está um santuário que as receberá.

Stephen Palmer, membro da Sociedade Britânica de Psicologia, afirma que, apesar de o ano ter começado há pouco tempo, tais decisões podem ser o resultado das promessas de janeiro. A meia-idade, diz ele, é uma época clássica em que as pessoas “buscam um novo propósito e significado”. No entanto, muitas vezes essas reflexões não ocorrem quando os humanos param para refletir, mas enquanto enchem a máquina de lavar roupa ou estão na fila do supermercado.

“Sua perspectiva de vida pode dar um salto repentino”, explica o psicólogo Mike Hughesman. Uma pessoa que estava acostumada com o que faz de repente percebe que não quer mais fazer aquilo. (O próprio Hughesman foi vegetariano por um período, quando não conseguia encarar o fato de estar comendo algo senciente.)

“As pessoas precisam pensar mais, e não serem atropeladas por sua rotina. Se algo não parece certo, pare e pense”, diz ele. “Às vezes você tem de se fazer essas perguntas cruciais.”