SARAH W. FOX

Elsie Shrigley: a mulher por trás da palavra veganismo

Uma das fundadoras da Vegan Society e co-criadora do termo veganismo, Shrigley raramente é citada e suas contribuições ao movimento tiveram baixa notoriedade o que traz à tona questões como patriarcado e sexismo dentro do movimento

Foto: Reprodução / Collectivelyfree
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Onde estão as mulheres no movimento pelos direitos animais?

O patriarcado é um sistema social no qual homens detém o poder primário e predominam em papeis de liderança política, autoridade moral, privilégios sociais e controle de propriedades. Infelizmente ao longo da história em geral e da história do veganismo há muitos exemplos de como as comunidades, vegana e dos direitos animais, são – e como sempre têm sido – patriarcais, excluindo ou dificilmente mencionando mulheres que tem feito imensas contribuições para ambas.

Quem realmente fundou a Vegan Society?

Muitos veganos acreditam que a Vegan Society foi fundada por Donald Watson. Watson é amplamente associado ao veganismo, inúmeras referências nas mídias sociais sobre a definição do termo, o apontam como seu criador. Mas isso é apenas parcialmente verdade.

Quando a maioria de nós ouve a palavra “veganismo” e reflete sobre suas origens, nos vem à mente o nome de Donald Watson. Watson é intimamente associado com a sociedade vegana tanto que é conferido a ele o crédito pela criação do termo “vegano”. Isso se deu em grande parte porque ele foi o primeiro secretário da Vegan Society e o primeiro “editor” da revista The Vegan (O Vegano, na tradução livre). Ele continuou desempenhando esses papéis durante os primeiros dois anos da sociedade. O que não é comumente mencionado na comunidade vegana é que haviam cerca de outras sete pessoas na reunião de fundação do The Attic Club em Londres, em novembro de 1944, incluindo Elsie Shrigley.

Foto: Reprodução / Collectivelyfree
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Mulheres sendo excluídas da História, um padrão problemático

Elsie B. Shrigley (30 de outubro de 1899 – 13 de maio de 1978), também conhecida como Sally Shrigley, foi uma das co-fundadoras da Vegan Society, sendo citada em várias referências sobre o veganismo como criadora, ao lado de Donald Watson, do termo “vegano”. No entanto, sempre que alguém menciona a definição original, Donald Watson é majoritariamente citado. Não há quase nenhuma menção ao nome de Shrigley ou ao seu envolvimento na criação do termo “vegano” ou como co-fundadora da Vegan Society.

Então, por que essa mulher foi excluída de uma parte tão importante da história? É provável que seja pelo fato de que o ativismo pelos direitos animais não-humanos aparenta ter um domínio patriarcal, onde as vozes e as contribuições das muitas mulheres que ajudaram a construir esse movimento são em grande parte esquecidas ou silenciadas. Isso continua até hoje, já que a maioria das pessoas mais proeminentes, tidas como referência no movimento, são homens cisgêneros. Pessoas trans (em particular mulheres trans) e não-binárias também existem no movimento, mas são ainda mais ignoradas e silenciadas. Isso representa um problema substancial no movimento pelos Direitos Animais. É interessante observar que num movimento com uma grande presença feminina identificada, poucas delas são realmente reconhecidas por suas conquistas. De acordo com Brook Bolen*, estima-se que cerca de 3,2% (7,3 milhões de americanos) sigam uma dieta vegetariana. Quase 60% desse total é identificada como de mulheres; pouco mais de 40% apenas são identificados como homens. Aproximadamente meio por cento, (1 milhão), segue uma dieta vegana – onde 79% dos veganos são apontados como mulheres. Então, se há tantas mulheres veganas, por que vemos mais homens veganos ganhando notoriedade? Por que a maioria dos nomes proeminente dentro do veganismo e em defesa dos Direitos Animais é masculina?

O patriarcado e o sexismo são uma questão a ser discutida no movimento pelos direitos animais?

Como mulher e ativista pelos Direitos Animais, tenho participado de discussões on-line além de participar (e organizar) muitos eventos em prol da causa em que fui ignorada pelos homens, eles sequer conversavam comigo e até chegaram a calar minha voz. E se eu insistir em dizer qualquer coisa, sou frequentemente ignorada, silenciada, ridicularizada, chamada de nomes vulgares e até envergonhada – apenas por falar por mim mesma como mulher, ou por apontar o sexismo no movimento. E eu não sou uma exceção, já vi isso acontecer com outras mulheres também. Infelizmente, o sexismo corre solto no movimento pelos Direitos Animais, demonstrando as muitas formas de sexismo usadas para proteger o poder masculino e promover a impotência feminina. Em um movimento social, em que 79% são mulheres, proteger o patriarcado é absurdamente prejudicial para a própria causa. E atualmente, mais de 70 anos depois, desde que o crédito de Shrigley parece ter sido convenientemente omitido assim como seu papel na fundação do veganismo, ainda vemos os mesmos padrões nesse movimento. Por que devemos ouvir as vozes das mulheres? Porque as mulheres querem ter suas vozes ouvidas assim como os homens, e nós temos grandes ideias para contribuir, essa é a coisa certa a se fazer se alegarmos realmente lutar por justiça. Não são apenas os homens que possuem ideias brilhantes neste mundo.

Então, quando ouvi falar de Elsie Shrigley, fiquei muito interessada em saber mais sobre esta mulher, sua história e o papel que ela desempenhou na fundação da Vegan Society, e na criação do termo “vegano”. Concluí que ela deveria receber o crédito igualmente por ambos. Segue uma pequena biografia de Elsie (Sally) Shrigley, conforme relatado por VeggieVision (Visão Vegana, na tradução livre):

Elsie (Sally) Shrigley: co-fundadora da Vegan Society e do termo “veganismo”.

Shrigley and Donald Watson tiveram a ideia de fundar a Sociedade Vegana juntos, durante um período de férias com a Sociedade Vegetariana, quando um descobriu que o outro não consumia leite ou ovos também (além da dieta vegetariana).

Na reunião da fundação da Vegan Society em 1944, as pessoas queriam uma nova palavra para descrever a si mesmas; algo mais conciso do que “vegetarianos não-lácteos”. Alguns dos termos rejeitados foram: “dairyban”, “vitan” e “benevore”. O grupo estabeleceu uma palavra contendo as três primeiras e as três últimas letras da palavra vegetariano, resultando então em: vegano.

A definição original e a forma como a Vegan Society britânica define o veganismo é esta:

“A palavra veganismo representa uma filosofia e um modo de vida que procura excluir – na medida do possível e prático – todas as formas de exploração e crueldade aos animais, seja para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito; e, por extensão, promove o desenvolvimento e adoção de alternativas livres do uso de animais para o benefício de seres humanos, outros animais e do meio ambiente. Em termos alimentares, representa a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais”.

Sally viveu com seus pais em Hampstead até seu casamento com o dentista Walter Shrigley. Nascida em Londres e filha de pais escandinavos, ela falava dinamarquês fluentemente.

Shrigley tinha um grande interesse pela música, ganhou seu L.R.A.M (Licentiate of the Royal Academy of Music) antes de seu casamento em 1939, e ensinou piano em Ilford de 1932 a 1939.

Ela se casou com Walter Shrigley in 1939. Seu nome de solteira era “Salling”.

De 1940 a 1958, foi Secretária Honorária da Sociedade Vegetariana de Croydon e mais tarde ocupou o mesmo cargo na Sociedade Vegetariana de East Surrey.

Em novembro de 1944, Donald Watson e Elsie Shrigley convocaram uma reunião com pelo menos outras cinco pessoas ligadas a causa, onde a palavra “vegano” foi criada.

Já em 1947, Sally pesquisou uma pequena lista de “commodities veganas” – biscoitos, chocolate e doces – que foi publicada no periódico The Vegan. Este foi o início do projeto que se tornou o Animal Free Shopper (revista e guia de compras de produtos cuja origem e manufatura é feita sem qualquer envolvimento de exploração ou uso animal).

No início da década de 1960, Sally era presidente da Vegan Society e, em vários momentos, ocupava também, algumas vezes mais outras menos, todas as demais posições oficiais. Ela serviu continuamente no comitê da sociedade até sua morte em maio de 1978.

Shrigley também foi a representante oficial da Vegan Society em muitos Congressos Internacionais da União Vegetariana.

A luta pelos direitos animais é um movimento de justiça social

Para alguém que desempenhou um papel tão importante e duradouro nas bases do veganismo, o nome de Elsie Shrigley deveria ser tão conhecido quanto o de Donald Watson. E espero que comecemos a ver este movimento de justiça social avançando com igualdade e liberdade de opressão para todos – tanto os seres humanos como os animais não humanos. Se contribuirmos para permitir que o patriarcado continue a dominar o movimento pelos direitos animais, isso significa que as mulheres continuarão sendo ignoradas e silenciadas e isso apenas enfraquece o movimento como um todo. O movimento pelos direitos animais é um movimento de justiça social, assim como o feminismo. Muitos diriam que o veganismo e o movimento pelos direitos animais são muito feministas, já que frequentemente os representantes de animais não-humanos, reconhecidos como fêmeas, têm seus corpos e sistemas reprodutivos violados e explorados por ovos, leite, pele, pele ou carne. Nenhuma fêmea, seja humana não-humana, deveria ter que suportar qualquer uma dessas experiências horríveis.

Foto: Reprodução / Collectivelyfree
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Carol Adams escreve em “The Sexual Politics of Meat (A Política Sexual da Carne, na tradução livre) que “a dominância funciona melhor em uma cultura de desconexões e fragmentação. O feminismo reconhece as conexões”. Se realmente queremos que todas as pessoas lutem pelos direitos animais, devemos dar voz igualmente a todas as pessoas envolvidas no movimento. Também é importante enxergar que o próprio veganismo, antes que a palavra fosse cunhada, e antes que existisse a Vegan Society (existisse de fato), e que o vegetarianismo (incluindo não consumir ovos/laticínios ou vestir e explorar animais) tenha sido praticado em muitas culturas e países em todo o mundo por séculos e até mesmo se voltarmos há milhares de anos atrás. A maioria desses países e culturas foi predominantemente na Ásia e da África, e não da Europa (com exceção da Grécia). Descobriu-se que os antigos egípcios eram em sua maioria vegetarianos. Portanto, o veganismo não só não é apenas algo que um homem inventou, com também não é algo que os europeus brancos inventaram. Estas são razões ainda maiores pelas quais devemos garantir que estamos reconhecendo grupos marginalizados como mulheres e pessoas de cor dentro da comunidade vegana … como é claro que o veganismo tem grande probabilidade de não tersido criado por um homem branco.

*As estatísticas apresentadas foram coletadas de estudos que usam apenas os termos binários “masculino” e “feminino”. Infelizmente, não há estudos até o momento que estimem o número de veganos não-binários.

Sarah W. Fox é organizadora do Collectively Free de Vancouver (Canadá). Artista, escritora, especialista em cura natural e aromaterapia, ela também é ativista pelos direitos animais. Dona de uma alma criativa, sempre foi apaixonada pelos direitos animais e humanos. Tendo crescido cercada por animais, esta foi sua base para a paixão crescente em se juntar à luta pela libertação total dos animais.