AUSTRÁLIA

Habitat vital para espécie ameaçada pode ser destruído para construção de represa

Uma represa e um campo de golfe poderão tomar o lugar da floresta da Tasmânia, habitat essencial para a sobrevivência do periquito-andorinha.

Periquito-andorinha pode ter seu habitat destruído

O periquito-andorinha, listado pelo governo da Austrália como uma das 20 espécies de aves com prioridade de proteção, pode ter seu habitat destruído. A floresta da Tasmânia é crítica para a sobrevivência da espécie. A decisão está nas mãos do Ministério do Meio Ambiente.

Periquito-andorinha pode ter seu habitat destruído

Um órgão do governo local da Tasmânia, Glamorgan Spring Bay Council, solicitou a liberação de 40 hectares do que os cientistas declaram ser o habitat da reprodução e sustentação do periquito-andorinha. A ministra do Meio Ambiente, Melissa Price, irá decidir se essa proposta será aprovada.

A represa foi planejada para abastecer uma fazenda de salmão, o campo de golfe e as cidades locais em caso de seca ou escassez devido às mudanças climáticas. A BirdLife Tasmania disse ao Conselho que todo o habitat remanescente dos periquitos é crítico para a sobrevivência da espécie e deve ser protegido.

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Um estudo em 2015 mostrou que o periquito-andorinha estava à beira da extinção durante 16 anos. Mas, de acordo com a lei ambiental da Austrália, o Conselho poderia “compensar” o habitat dos periquitos ameaçados ao fazer um acordo com um proprietário de terras vizinho para proteger uma área maior do habitat existente.

Matthew Webb, da Universidade Nacional Australiana, passou anos pesquisando sobre a situação do periquito-andorinha. Ele estimou que cerca de 80% a 90% do habitat dos periquitos foi perdido desde a colonização européia através da exploração madeireira, criação de plantations, agricultura e incêndios florestais.

A espécie é caçada em seu habitat de reprodução por pletauros do açúcar, uma pequena espécie de marsupial planador que foi introduzida na Tasmânia por volta de 1800. Isso levou a uma escassez de fêmeas, cuja população foi ultrapassada em uma fêmea para cada três machos.

As fêmeas correm mais risco de serem comidas pelos pletauros pois estes atacam seus ninhos ocos, onde elas chocam seus ovos. Essa escassez de fêmeas obrigou aos periquitos a mudarem seus hábitos reprodutivos, usualmente monogâmicos.

O desequilíbrio de gênero está “realmente causando estragos em suas vidas amorosas e em seu sistema habitual de acasalamento”, disse o Prof. Rob Heinsohn, da Universidade Nacional Australiana. Devido a esse desequilíbrio, as fêmeas estão sendo forçadas por machos que não são seus parceiros a praticar intercurso.

“Eles estão sob muita pressão de predadores e da perda de seu habitat,” disse Webb. “É nossa responsabilidade fazer tudo o que pudermos para ajudar a espécie. Como as pessoas podem justificar acabar com o habitat de reprodução da espécie está além da minha compreensão.”

Parte da área a ser derrubada é a floresta de Eucalyptus ovata, que foi listada em 2013 por conter uma comunidade ecológica ameaçada. Cientistas estimam que restam apenas 2% a 3% dessa espécie no mundo. Em 2016 houve uma solicitação para listá-la como uma das espécies criticamente ameaçadas, ainda sem resposta.

A nova prefeita de Glamorgan, Debbie Wisby, se recusou a falar das razões da proposta da represa. O pedido do conselho diz que há poucos outros locais adequados de coleta e armazenamento de água na região.

Um porta-voz da ministra Melissa Price disse que o projeto de represa foi considerado uma “ação controlada”, o que significa que isso requer uma avaliação detalhada sob a Lei de Proteção ao Meio Ambiente e Conservação da Biodiversidade.

Apesar de ainda aguardar aprovação, o projeto da represa recebeu uma verba de 2,3 milhões de dólares – por volta de 8,9 milhões de reais – do governo da Austrália antes das eleições na Tasmânia no começo deste ano.

A deliberação sobre a proposta da represa ocorre em meio a uma pressão de grupos ambientalistas, advogados e acadêmicos por leis ambientais mais rígidas. O Ministério do Trabalho vai considerar a questão, incluindo a de apoiar a criação de uma Jurisdição de Proteção ao Ambiental na conferência nacional deste mês.

O diretor de campanha da Wilderness Society da Tasmânia, Vica Bayley, disse que o caso destacou a inadequação da legislação ambiental existente. “Compensações são uma desculpa acadêmica,” disse Bayley. “Esta espécie não pode suportar a perda de mais nenhum hectare.”

Phillip Barker, o principal ecologista dos consultores North Baker que trabalharam na proposta da represa, disse que se houvesse programa de compensação adequado, seria vantajoso para ambas as partes. Ele disse que se para cada hectare desmatado fossem protegidos quatro hectares, 80% do habitat seria protegido.

Jess Feehely, a principal advogada do Environmental Defenders Office da Tasmânia, disse que entre as significantes falhas na Lei de Proteção ao Meio Ambiente e Conservação da Biodiversidade era que ela não oferece proteção adicional quando uma espécie está entre as criticamente ameaçadas.

Feehely afirma que uma futura revisão do decreto ofereceria uma oportunidade de fortalecer a proteção oferecida às espécies australianas mais vulneráveis. “Com esperança, nenhuma espécie será perdida neste ínterim.”

A represa é um dos vários projetos na Tasmânia que são desafiados por motivos ambientais. O Patrimônio Mundial da Região Selvagem da Tasmânia pode receber um programa de turismo privado com acesso de helicóptero. Este projeto foi aprovado contra a recomendação de três grupos de especialistas. A Wilderness Society contesta a decisão na Corte federal.