Tráfico de guepardos continua através das redes sociais


Entre fevereiro de 2012 e julho de 2018, um total de 1.367 guepardos (Acinonyx jubatus) foi oferecido à venda por meio de 906 posts nas redes sociais, com o Instagram respondendo por cerca de 77% das ofertas. Uma aplicação móvel baseada no Kuwait, a 4sale, e o YouTube representaram 11% das postagens.

Com a população selvagem da espécie agora reduzida a apenas 7.100 indivíduos – um declínio de mais de 90% desde a virada do século 20 –, o tráfico do animal representa uma ameaça grave.

Foto: Udayan Dasgupta/Mongabay

“Seja online ou em um mercado de animais, a venda de filhotes de guepardo vivos pode ser devastadora para as populações selvagens nas áreas de onde são originários: leste da Etiópia, norte do Quênia e Somália/Somalilândia”, disse via e-mail Patricia Tricorache, diretora assistente de comunicações estratégicas e comércio ilegal de vida selvagem no CCF.

“Infelizmente, pouco se sabe sobre quantos espécimes selvagens existem nessas áreas, mas é provável que sejam poucas centenas, e diminuirão rapidamente se nossas estimativas estiverem corretas – isto é, 300 filhotes sendo contrabandeados daquelas áreas por ano para o tráfico de animais nos países do Golfo. Muitos mais podem morrer”.

O CCF começou a registrar casos de tráfico de guepardos após resgatar dois filhotes que haviam sido amarrados a cordas em um restaurante na Etiópia, em 2005. O caso teve muita repercussão, o que fez com que surgissem diversos depoimentos sobre tráfico da espécie na África Oriental e no Oriente Médio.

“Com a população selvagem da espécie agora reduzida a apenas 7.100 indivíduos – um declínio de mais de 90% desde a virada do século 20 –, o tráfico do animal representa uma ameaça grave.”

“Foi quando percebemos que o negócio era de uma magnitude maior do que imaginávamos”, disse Tricorache. “Posteriormente, começamos a receber relatos de guepardos sendo oferecidos para venda online e, embora muitas dessas denúncias fossem fraudes óbvias, também encontramos muitas que pareciam verídicas, e por isso começamos a manter os registros”.

Para determinar a dimensão do comércio eletrônico, o CCF começou a monitorar e compilar ofertas de venda de guepardos on-line a partir de 2012, quando a maioria das contas parecia ter sido aberta. Em cada postagem relacionada à espécie, a equipe descobriu muito mais analisando os comentários.

“Às vezes eu tinha uma dúzia de abas abertas no meu navegador”, disse Tricorache. “Algumas dessas contas mostravam imagens de vários filhotes. As imagens que pareciam ser reais, isto é, não tiradas da internet como anúncios fraudulentos, eram preocupantes e dolorosas, já que muitos dos filhotes eram muito pequenos e pareciam estar em condições muito insalubres”.

O número de posts era mais alto entre 2014 e 2016, ao menos no Instagram, YouTube e 4sale, e parecem ter sofrido uma redução a partir de 2017. No entanto, não está claro se o declínio é a indicação de uma redução geral no comércio de guepardos, ou se os vendedores mudaram para contas privadas, ou mesmo para plataformas online diferentes, que ainda não foram documentadas.

Atualmente, o guepardo está listado no Apêndice I da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), o que significa que o comércio internacional da espécie é proibido. Todas as ofertas de venda investigadas nas mídias sociais são ilegais.

A análise dos posts mostrou que quase todos eles tinham alguma ligação com os países do Golfo Pérsico. Em particular, mais de 62% das postagens tinham alguma conexão com a Arábia Saudita, seja pelo local indicado no post ou pelos números de telefone fornecidos pelos usuários ou na própria postagem. Seguiram-se ofertas ligadas ao Kuwait, aos Emirados Árabes Unidos e ao Qatar. Os quatro principais usuários que anunciam guepardos em suas contas também parecem atuar da Arábia Saudita.

Embora o comércio internacional de guepardos seja proibido, as leis de propriedade da espécie no Oriente Médio ainda não são muito claras no momento.

“No Golfo Pérsico, onde há alta demanda de espécies exóticas, o comércio de guepardos é ilegal, mas as leis de propriedade podem não ser claras. A exceção são os Emirados Árabes Unidos, onde uma nova lei que proíbe a propriedade de animais exóticos e perigosos foi promulgada em dezembro de 2016”, disse Tricorache. “Em geral, a razão para mais anúncios ligados à Arábia Saudita pode ser simplesmente porque o país é o maior em área e tem a maior população dentre os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo (mais que o triplo da população do segundo maior, os Emirados Árabes Unidos)” .

“Populações de guepardos já vulneráveis, particularmente na Etiópia e na Somália, estão em risco de extinção local por causa da caça para o tráfico de animais”, disse ela.

Na África, os guepardos já vivem em meio à luta pela sobrevivência enquanto lidam com a conversão de seu habitat de pastagem em terras agrícolas e com o aumento do conflito entre humanos e animais selvagens. De acordo com Laurie Marker, fundadora e diretora executiva do CCF, o tráfico apenas aumenta sua carga, com a ameaça afetando principalmente populações menores e fragmentadas na África Oriental.

Mantê-los em cativeiro também não ajuda na conservação da espécie, acrescentou Tricorache. “Um guepardo criado em cativeiro desde muito jovem – a maioria dos filhotes é levada muito jovem, com cerca de 3 semanas de idade – dificilmente será capaz de sobreviver se for devolvido à natureza”, disse ela. “Tendo sido criados por humanos, eles provavelmente procurariam por pessoas e acabariam em situações de conflito, onde poderiam ser mortos ou tomados novamente para o comércio. Além disso, os filhotes roubados de suas mães geralmente são maltratados. Todos os que recebemos mostraram sintomas de maus-tratos, seja por desnutrição, desidratação ou abuso. Para muitos, o resgate chega tarde demais”.

“É importante também que as pessoas que seguem tutoras de animais exóticos ou vendedores em mídias sociais entendam que apoiar aqueles posts com likes apenas torna o tráfico de animais mais atraente para aqueles que se dedicam a ele”.

Fonte: O Eco / Tradução: Nanda Melonio


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