VIDAS PERDIDAS

Fogos de artifício continuam matando animais

O barulho dos fogos faz muitos animais fugirem de casa com medo e até mesmo morrerem após convulsões e ataques cardíacos.

(Foto: Divulgação)

A morte do cão comunitário Toco, por fogo de artifício, no dia 12 deste mês na cidade de Quadra, interior de SP, reacendeu a discussão em torno do uso de rojões, morteiros e bombas. Durante uma procissão de Nossa Senhora Aparecida, uma bomba explodiu na boca do cãozinho que era mascote da cidade. Com o rosto totalmente desfigurado e em agonia, terminou por ser sacrificado na rua mesmo.

(Foto: Divulgação)

Agora os moradores estão se mobilizando para coletar assinaturas visando um projeto de lei de iniciativa popular que proíba o uso de fogos de estampido. Se tudo der certo, a cidade ganhará a “Lei Toco”, em homenagem ao cãozinho que acompanhava missas, procissões, enterros e era muito querido por todos.

Caso semelhante aconteceu em Campinas (SP), em 2012, quando uma cadelinha também abocanhou uma bomba atirada pelo produtor do cantor Thiaguinho. Apesar dos graves ferimentos, a cadelinha sobreviveu, foi adotada pelo deputado estadual Feliciano Filho (SP) e batizada de Menina.

O doloroso episódio motivou o deputado a criar o Projeto de Lei (PL) 370/2015, que proíbe o manuseio, a utilização, a queima e a soltura de fogos de artifício e artefatos pirotécnicos em eventos realizados com a participação de animais ou em áreas próximas a locais onde ficam abrigados. O PL 370 foi aprovado por unanimidade na Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) e encontra-se pronto para ser pautado e votado.

“O barulho causado por espetáculos desta natureza causa pânico e desorienta os animais, uma vez que eles possuem sensibilidade auditiva muito superior ao ouvido humano. A vibração resultante dos sons geralmente atinge um tom muito agudo na natureza, aguçando esta sensibilidade, resultando principalmente em fuga do que eles consideram como predadores. O pânico pode provocar ainda paradas cardiorrespiratórias, convulsões e outros problemas que levam ao óbito como, por exemplo, abocanhar uma bomba achando que é algum brinquedo”, explica Feliciano Filho.

(FOTO: PEXELS)

O deputado cita uma Festa do Peão de Hortolândia, interior de SP, na qual seis cavalos se assustaram com fogos, fugiram do confinamento, invadiram uma pista e foram atropelados. Dez carros se envolveram no acidente e nove pessoas ficaram gravemente feridas.

Por conta disso, o projeto veta a utilização de qualquer tipo de fogos de artifício num raio de dois quilômetros de rodeios, cavalgadas, eventos de exposição ou venda de animais, qualquer local que abrigue, exponha ou conte com a participação de animais, canis públicos ou privados, zoológicos, santuários, matas, parques públicos e áreas de preservação permanente. Também veta fabricar, transportar e soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas.

Quais as consequências para os animais

Muitos cães e gatos ficam apavorados, fogem e acabam se perdendo ou sendo atropelados. Há casos em que cães terminam enforcados tentando se livrar de suas coleiras ou correntes. Outros animais têm convulsões e paradas cardíacas. E ainda existem casos de animais que pulam das sacadas e janelas na ânsia de escapar dos fogos. Para os pássaros, a queima de fogos também é um martírio.

Onde já é proibido

Os fogos de artifício barulhentos causam grande incômodo também para pessoas internadas em hospitais, idosos e bebês que necessitam de repouso. Levando todos esses transtornos em consideração, várias cidades já proibiram a soltura de fogos de estampido. Em Campinas, Sorocaba, São Manuel, Campos dos Jordão e Itu, cidades do interior de SP, já existe lei que proíbe a queima, a soltura e o manuseio de fogos de artifício. No litoral paulista, a mesma lei vigora em Peruíbe, Ubatuba e Ilha Bela. Em Santos e São Vicente a lei foi suspensa.

Nos municípios de Santo André, São Caetano e São Bernardo tramitam projetos de lei com o mesmo objetivo. Consulta pública feita pelo Senado e encerrada em julho, recebeu 53 mil apoios pedindo a proibição de fogos de artifício com ruídos. A partir de 20 mil apoios as ideias legislativas devem ser discutidas.

Outros casos com cães

Em junho deste ano, Sansão, cão comunitário assim como Toco, também confundiu uma bomba com um brinquedo e ficou gravemente ferido em Caratinga, Minas Gerais. A ação foi criminosa porque atiraram a bomba com intenção de fazer Sansão pegar. Ele teve queimaduras em toda a extensão da cavidade oral e ficou internado vários dias. O episódio também mobilizou a comunidade, que imediatamente criou uma campanha contra maus-tratos a animais e Sansão ganhou um lar. A alta do cãozinho do hospital foi registrada num emocionante vídeo (confira abaixo).

Em 1º de janeiro de 2018 uma cadela morreu em Cotia (SP) após a queima de fogos em comemoração pelo Ano Novo. A tutora contou que Nina e outros cães da casa estavam soltos no quintal durante o réveillon, mas uma festa na casa vizinha fez uso excessivo de fogos e vários deles acabaram explodindo na área onde os cães estavam. Nina teve parada cardíaca.

Também esse ano, outro caso: a cadelinha Menina, cuidada na rua por uma protetora no bairro do Tatuapé (SP), abocanhou uma bomba, exatamente como aconteceu com a cachorrinha de Campinas, igualmente batizada de Menina. Os fogos estouraram seu maxilar e ela teve de passar por delicada cirurgia. Foi adotada por sua tratadora.

Em 2017, foi a vez do cãozinho Ted, de Goiânia (GO), entrar em pânico e protagonizar um caso ainda mais assustador. O barulho dos fogos na véspera do Natal levou Ted ao desespero e como ele estava sozinho em casa, arranhou o portão e o chão até as unhas chegarem nas veias numa tentativa insana de fugir de casa para se esconder. Ele se recuperou.

Ficar com o cachorrinho Espoleta no colo na véspera do Natal e com o volume da TV alto para abafar o som dos fogos de nada adiantou. Espoleta teve parada cardíaca apesar de nunca ter demonstrado problemas de coração antes. O caso aconteceu na Baixada Santista.

Em 2014, uma cadela chamada Mel, de apenas 11 meses, também deixou sua família na noite de Natal. Ela estava na sacada do apartamento amarrada a uma coleira e com o barulho dos fogos se jogou e morreu enforcada. O caso ocorreu no bairro Universidade, de Macapá (AP).