“Bebês e crianças podem ser veganos sem prejuízo de crescimento”


A nutricionista especialista em nutrição vegetariana e materno-infantil, Ana Ceregatti, concedeu uma entrevista exclusiva à ANDA por meio da qual explicou que uma pessoa pode ser vegana, e se manter saudável, em qualquer período da vida, inclusive durante a infância e a gestação.

Ana Ceregatti (Foto: Reprodução)

ANDA: a alimentação vegetariana estrita, presente na dieta dos veganos, é saudável para uma mulher grávida?

Ana Ceregatti: a alimentação vegetariana, essa escolha alimentar, é segura e adequada para todas as fases da vida, todas as condições de saúde, todos os tipos de pessoa. Então, sim, uma grávida vegana pode ter uma gestação super tranquila, como qualquer outra mulher. O que acontece é que a nossa alimentação básica, onívora, é em geral muito deficiente e as grávidas onívoras nem sempre fazem acompanhamento com nutricionista. Mas quando tira a carne, fica todo mundo preocupado, que vai faltar ferro, proteína, enfim.. isso ou aquilo, e a grávida vegana acaba vindo ao consultório. Mas os cuidados que eu tenho com uma grávida vegana e com uma grávida onívora são exatamente os mesmos, não tem nenhuma diferença.

ANDA: uma vegana precisa fazer alguma suplementação na gravidez além da que já é indicada para qualquer mulher grávida?

Ana Ceregatti: a suplementação é idêntica. A recomendação de ferro, de vitamina B12, de ômega 3, de cálcio, isso não muda. A grávida onívora precisa suplementar essas coisas e na grávida vegana nós vamos fazer exatamente a mesma suplementação. A gente tem assim um parâmetro que são as recomendações nutricionais. Mas eu, pessoalmente, não trabalho só com as recomendações nutricionais, porque, por exemplo, a recomendação de cálcio para uma mulher adulta em idade fértil, que são mil miligramas por dia, pode atender uma pessoa, pode ser excessiva em outra e ser carente em outra. Então junto com a recomendação básica, que é universal para mulheres, sejam onívoras ou vegetarianas ou veganas, eu olho os exames laboratoriais e aí cada organismo vai responder de uma forma diferente. Então farei isso com a onívora e com a vegana e vou suplementar de acordo com a necessidade dela, com o perfil dela. Não vou dar nada diferente para uma grávida vegana. Por exemplo, a vitamina B12, só as vegetarianas e veganas que se preocupam, está cheio de grávidas onívoras com carência de vitamina B12 e esses suplementos que os ginecologistas prescrevem, por exemplo, não têm uma quantidade de B12 adequada, não servem para onívoras e não servem para veganas. E quem é que descobre a carência? Só a vegana, porque geralmente só ela que faz acompanhamento da B12.

ANDA: um bebê ou uma criança podem ser veganos?

Ana Ceregatti: bebês e crianças podem ser veganos tranquilamente, sem nenhum prejuízo de crescimento. Eu atendo muito bebê vegano no consultório. A mãe vegana pariu, amamentou, seis meses de idade na fase de introdução alimentar, ela vem no consultório para fazer a introdução alimentar vegana e as curvas de crescimento dessas crianças são equiparadas. Então não tem prejuízo qualquer. Óbvio, se qualquer profissional vacilar na alimentação de um bebê onívoro ou vegano, ele terá prejuízos. Não é o fato de ele não consumir carne, ovos e laticínios que fará com que ele tenha prejuízos, qualquer bebê terá prejuízos se houver negligência ou dificuldades na alimentação dessa criança.

ANDA: como deve ser elaborada a alimentação de um bebê ou de uma criança vegana para que haja garantia de que a dieta será saudável?

Ana Ceregatti: da mesma forma que seria a de um onívoro. Só que no onívoro vai ter o grupo das carnes, dos ovos e dos laticínios – que, a proposito, a gente não introduz nada de lácteo para criança até um ano de vida, então mesmo se for onívora, teoricamente, não é para introduzir laticínios, devido às recomendações em termo de alergia e tudo mais. Agora, quando é um bebê vegano, vou garantir o aporte de proteína, a necessidade de proteína dele, oferecendo alimentos do grupo das leguminosas. Então tem que estar ali o grupo das leguminosas e tem que estar equilibrado em termos de energia. Se a criança receber a quantidade de energia vinda de boas fontes – cereais, tuberculosos, leguminosas, frutas, verduras e legumes -, essa criança não vai ter carência de proteína.

ANDA: sabendo dos prejuízos à saúde provocados pelos produtos de origem animal, comprovados por estudos, um bebê que cresce sendo alimentado apenas com alimentos de origem vegetal será mais saudável?

Ana Ceregatti: essa é uma pergunta bem complexa de responder. Porque se eu pegar um prato, vamos pensar em uma mulher adulta saudável, que para gente imaginar o prato fica mais fácil, um prato com arroz, feijão, metade do prato de uma salada extremamente colorida, com vegetais verdes escuros, legumes coloridos, legumes refogados e um pedaço de carne e pega o mesmo prato e tira o pedaço de carne. Essa pessoa que recebeu esse prato sem a carne, os estudos mostram que ela tem menos riscos de desenvolver determinadas doenças, como as cardiovasculares, diabetes e câncer, do que essa pessoa que recebeu o prato contendo a carne. Então, eu tenho que comparar as alimentações desde que as duas sejam saudáveis, porque eu posso ter um vegano extremamente “junk”, comendo arroz branco, pão francês, tomando refrigerante, comendo batata frita, tomando cerveja, essa pessoa jamais vai ter saúde.

Em relação à saúde das crianças.. Nesta fase da vida, crianças alimentadas de forma saudável dificilmente terão doenças crônicas, como câncer, diabetes e obesidade, por exemplo. Acho que não tem estudo ainda sobre isso, mas crianças que foram alimentadas com alimentos estritamente de origem vegetal, comparadas com crianças onívoras com alimentação saudável, quando elas tiverem 20, 30, 40 anos.. como vai ser essa saúde? Provavelmente melhor, mas ainda faltam dados científicos nessa linha.

ANDA: a alimentação vegetariana estrita possibilita que bebês veganos que mantêm a dieta vegetariana estrita durante toda a vida tenham menos riscos de desenvolver determinadas doenças quando adultos? 

Ana Ceregatti: Seria necessário acompanhar uma população desde quando ela nasceu até uma determinada idade na vida adulta. Mas arrisco dizer que pode ser que, sim, pessoas que têm, desde a infância, uma alimentação saudável de origem vegetal, podem ter menos chances de desenvolver determinadas doenças na vida adulta. Por outro lado, o fato da pessoa ter uma dieta extremamente saudável vegana, e sem nada de industrializado, não exime que ela tenha, por exemplo, um câncer. A chance da pessoa que é vegana desde sempre e mantém uma alimentação saudável não desenvolver determinados tipos de doença é maior, mas a gente tem outros fatores, como poluição, estresse, falta de exercício, genética, que também podem ser gatilhos para desenvolver doenças.

ANDA: você acredita que ainda existe preconceito e desinformação em relação ao veganismo? Ainda há pessoas que acreditam, por exemplo, que bebês e crianças não podem ser veganos?

Ana Ceregatti: se existe! Isso eu vejo no consultório todo dia. Já atendi criança vegana que a família queria de todo jeito fazê-la comer carne. É muito complicado. Tem muito preconceito e muita falta de informação a respeito do quanto a criança pode ser saudável e ter um desenvolvimento normal dentro de uma escolha alimentar que não coloca alimentos de origem animal na dieta.

ANDA: você já recebeu no consultório crianças que tiveram a iniciativa de se tornarem vegetarianas ou veganas mesmo pertencendo a famílias onívoras?

Ana Ceregatti:  já recebi sim e isso não é incomum. Me lembro de uma menina, com seis anos, que tinha escolhido não comer nada de origem animal. E a mãe se tornou vegana por causa da criança, mas era uma família onívora. Já atendi outras crianças que eram vegetarianas e os pais eram onívoros. Mas quando a família leva ao consultório é sinal de que ela já está mais aberta a aceitar a alimentação vegetariana ou vegana da criança.


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