Altas temperaturas

Mudança climática afeta superfície dos Alpes franceses

Grandes cadeias montanhosas da França estão sofrendo recuos glaciais, o que coloca em perigo a prática de montanhismo na região

A paisagem do Mont Blanc, na França, está mudando rapidamente (Foto: The Guardian)

A mudança climática está, cada vez mais, mudando a paisagem do Mont Blanc, na França. Apreciada pelos passageiros das ruas e das esplanadas de Chamonix, além de montanhistas que se aventuram a escalar, a montanha mais alta dos Alpes é deslumbrante. Mas, infelizmente, está sofrendo consequências.

“A mudança climática global tem consequências sérias e diretamente observáveis ​​em altas montanhas”, diz Vincent Neirinck, da Mountain Wilderness, um grupo de campanha que trabalha para preservar ambientes montanhosos ao redor do mundo.

A paisagem do Mont Blanc, na França, está mudando rapidamente (Foto: The Guardian)

O contínuo recuo das geleiras é a principal consequência da mudança climática.

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“Nos Alpes, as superfícies glaciais encolheram pela metade entre 1900 e 2012 com uma forte aceleração dos processos de fusão desde os anos 80”, diz Jacques Mourey, um alpinista e cientista que está pesquisando o impacto da mudança climática nas montanhas acima de Chamonix.

A demonstração mais dramática do recuo glacial é mostrada pelo Mer de Glace, a maior geleira da França e um dos maiores pontos turísticos de Chamonix.

“O Mer de Glace está derretendo a uma taxa de 40 metros por ano e perdeu 80 metros em profundidade nos últimos 20 anos”, diz o glaciologista Luc Moreau.

Impactos da mudança climática

O derretimento do Mer de Glace fez com que cem metros de escadas fossem aparafusadas nas paredes de rocha verticais recém expostas, para que os montanhistas possam descer na geleira.

Escadas foram colocadas no Mer de Glace para que montanhistas tenham mais segurança (Foto: The Guardian)

Outra consequência da mudança climática nas montanhas é que ela está levando a um aumento no número de quedas de rochas: mais de 550 ocorreram no maciço do Monte Branco, entre 2007 e 2015.

A razão, explica Mourey, é que o permafrost (gelo permanente do subsolo) que está dentro de rachaduras de rochas e as cimenta, agora está derretendo.

“À medida que o permafrost derrete, trechos inteiros de rochas se tornam desestabilizados e mais propensos a entrar em colapso”.

O popular pilar Bonatti teve sua destruição por esse fenômeno. A enorme coluna de rocha, que era local de escalada, desmoronou no verão de 2005. Significativamente, a mudança climática está ocorrendo quase duas vezes mais rápido em altas montanhas em comparação com o resto do mundo.

“Embora existam muitas teorias sobre por que isso está acontecendo, não entendemos completamente o que é de verdade”, diz Mourey.

O que não é contestado, porém, é que muitas rotas de escalada foram drasticamente alteradas pelas mudanças climáticas. “Um manual de escalada e montanhismo dos anos 1970 para as 100 melhores rotas ao redor do Mont Blanc não é mais usado, já que a maioria das rotas mudou e não pode ser usada”, diz ele.

As trilhas para as cabanas de alta montanha ao redor do Mont Blanc, que são usadas por alpinistas, estão se tornando mais perigosas também, forçando as autoridades a se adaptarem e a agir.

Em 2012, a trilha para a cabana dos Conscrits foi considerada perigosa devido ao aumento do número de quedas de rochas, de modo que uma ponte suspensa de 60 metros foi construída para tornar o acesso à cabana mais seguro.

Outra proposta de deixar os montanhistas mais seguros foi implantada no local (Foto: The Guardian)

Uma trilha completamente nova, incluindo a instalação de escadas fixas, teve recentemente que ser construída na cabana de Charpoua após o derretimento das geleiras, o que tornou a trilha anterior muito difícil e perigosa.

O futuro de Chamonix

Dado o status de Chamonix como o berço do alpinismo moderno e atividades alpinas, as autoridades estão agora fazendo um esforço determinado para se adaptar a essas condições de mudança para garantir que a escalada possa continuar.

“Queremos apoiar a ideia de que o alpinismo e seus valores não estão mortos e devemos continuar subindo com segurança”, diz Claude Jacot, conselheiro de Chamonix e chefe de segurança nas montanhas da região.

Outros já discordam do posicionamento, alegando que o local está se tornando muito perigoso. Seria necessário uma estrutura e jeitos muito seguros para que a atividade seja feita.

“Este ano, reduzimos deliberadamente nossos programas no Mont Blanc, devido ao aumento de rochas causado por temperaturas mais altas nos últimos anos”, diz Ed Chard, da Jagged Globe, operadora de trekking.

Mourey está otimista de que o esporte ainda tenha um futuro nos Alpes, mas os futuros alpinistas terão que se adaptar.

“Você ainda poderá escalar no futuro, mas terá que mudar a maneira de subir”, diz ele. “Se alguém não acredita que a mudança climática existe, eles devem ir a Chamonix para ver por si mesmos”.