EVANNA LYNCH

“Eu quero ajudar todas as pessoas a se conectarem com seu coração vegano”

Atriz de "Harry Potter" denuncia a crueldade da indústria agropecuária e cria podcast sobre veganismo

Foto: Toby Shaw
Foto: Toby Shaw

Conhecida principalmente por interpretar a querida e incomum personagem Luna Lovegood nos filmes de “Harry Potter”, Evanna Lynch, de 26 anos, é uma dedicada ativista que luta para conscientizar o público sobre os direitos animais. Além de participar de campanhas, a atriz irlandesa já narrou um vídeo de realidade virtual que denuncia a crueldade da indústria de laticínios e apresentou versões veganas de famosas guloseimas mostradas no universo de “Harry Potter”. Ela também é uma das quatro apresentadoras do podcast sobre veganismo The Chickpeeps, que estreou em novembro de 2017 e, desde então, realizou 25 programas. Nesta entrevista exclusiva à ANDA, Evanna fala sobre ativismo e mostra sua visão crítica sobre a indústria do cinema e de celebridades.

ANDA: Quando você se tornou vegana e quais foram suas motivações para isso?

Evanna Lynch – Eu me  tornei vegana no início de 2014 depois de ler o livro “Eating Animals” (Comer Animais), de Johnathan Safron Foer.  Olhando para trás para minhas duas décadas de vida não vegana, acho que sempre fui vegana em minha alma, eu concordava com todas as ideologias veganas, apenas não estava praticando-as porque eu não sabia o que estava ocorrendo com os animais implicações de consumi-los. Simplificando, não posso tolerar a violência e o fato de que um ato violento e cruel precisa ocorrer toda vez que você come um sanduíche de presunto – um sanduíche do qual eu rapidamente esqueceria, mas que custa uma vida preciosa – era intolerável para mim. Eu também diria que minhas motivações são espirituais. Acredito que a vida é sagrada e milagrosa e não temos o direito de tirar vidas de animais quando não tivemos participação na criação dessas vidas. As pessoas comem animais porque acham que somos mais evoluídos, mais inteligentes do que eles e, portanto, somos melhores e eu simplesmente não acredito nesse senso de domínio. Eu também não acho isso preciso. Se fôssemos tão inteligentes, encontraríamos maneiras de sobreviver sem derramar sangue e explorar seres inocentes e sencientes.

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Se pudéssemos assumir nossos papéis como cuidadores, ao invés de escravistas de animais, então usaríamos nosso status e nossas qualidades com sabedoria e de forma esclarecida. Acho que é isso o que os veganos estão se esforçando para fazer e é isso que eu rezo para que aconteça em grande escala. Sou uma vegana ética. Eu me tornei uma vegetariana ética a partir dos 11 anos e, depois de ler o “Eating Animals”, compreendi inconsistências em ser uma vegetariana ética e me comprometi a ser vegana. Não foi um processo fácil, mas demorou muito tempo e falhei muito, mas, depois de muita prática e repetidas tentativas, tornou-se mais fácil e agora é a minha vida.

ANDA: Você narrou um filme da organização Animal Equality sobre os abusos cometidos pela indústria de laticínios. Como foi essa experiência? De que forma você acredita que a realidade virtual pode ajudar na conscientização sobre direitos animais?

Evanna Lynch –  Eu estava tão relutante em passar por essa experiência. Como mencionei, eu sou um desastre quando se trata de violência. Às vezes, pergunto-me se os veganos possuem uma maior sensibilidade à violência que os outros não têm e talvez seja por isso que é mais fácil para algumas pessoas serem veganas quando têm essas imagens em mente. Porém, eu sabia que tinha que passar por isso para poder contar aos outros. Acho que como veganos muitas vezes pensamos que estamos livres de ver aquelas cenas em matadouros e eu acredito que você tem que moderar conscientemente o quanto disso você consome para não ter transtorno de estresse pós-traumático. Entretanto, como alguém que nunca assiste a isso, foi realmente útil ser capaz de educar os outros e falar com o coração e não com a cabeça, que acredito que é a maneira mais poderosa de comunicar e influenciar as pessoas.

Acredito que, se nós, como veganos, nos importamos tanto com os animais, devemos testemunhar o sofrimento deles para que possamos ser melhores defensores dos animais. Se estamos com muito medo de enfrentá-lo e as pessoas que não se importam com os animais não se incomodam em olhar para eles, então quem vai compartilhar essas histórias? Precisamos ensinar os outros como cuidar dos animais e o iAnimal funciona tão bem porque é uma experiência sensorial, você se torna o animal destinado à morte. Isso deixa de ser um conceito mental repugnante e você sente em seu corpo o quão real e terrível é. Você desenvolve compaixão pelo ser que passa por isso. E a compaixão é a faceta mais importante do veganismo e, de fato, do ativismo vegano.

ANDA: Como é o processo de fazer o podcast?

Evanna Lynch –  Sabe aquele lema que diz: “Comece antes que você esteja pronto”? Bem, nós definitivamente fizemos isso e eu realmente gostaria que estivéssemos um pouco mais prontos. Temos quatro apresentadores e planejamos a série com base no que acreditamos que são perguntas frequentes de novos veganos e abordamos um tópico por semana. Nós gravamos por cerca de duas horas entre segunda-feira e quarta-feira e eu passo os próximos dias confinada no meu apartamento editando, chorando sobre o quão tecnologicamente eu sou incompetente.

Cada passo do caminho tem sido um desafio, desde encontrar os coapresentadores certos, aprender a gravar, editar e distribuir podcasts, pesquisar cada convidado e encontrar a voz certa para cada tópico. É muito trabalhoso e não é remunerado, por isso tem sido um desafio para todos os coapresentadores trabalharem em torno dos nossos trabalhos diários. Mas o melhor de tudo é que cada um de nós é tão apaixonado por isso e gostamos de compartilhar ideias sobre esses tópicos para que a energia avance e agora eu tenho uma assistente maravilhosa, Lucy, que tem facilitado muito as coisas. O que me deixa mais feliz é que, com as pessoas que reunimos, entre os apresentadores, os convidados e nossos ouvintes, estou trabalhando com muitos dos meus ativistas favoritos que me inspiram a cada semana. Isso tem sido uma alegria e meu mundo vegano se expandiu enormemente a partir disso. Porém, é uma curva de aprendizado e aprendemos grandes lições toda semana.

ANDA: Uma das formas de exploração animal é como entretenimento embora existam recursos tecnológicos para fazer produções de alta qualidade sem animais.  Há diversos exemplos de filmes com animais e uma das polêmicas mais recentes envolveu o filme “A Dog’s Purpose”  (Quatro vidas de um cachorro) no qual um pastor alemão quase se afogou durante uma cena. Qual foi a sua reação a isso e por que acredita que animais continuam sendo explorados dessa forma?

Evanna Lynch –  Para ser sincera, não tenho uma grande reação a histórias como essa. Eles não me revoltam tanto quanto o público em geral. O abuso em massa de animais está acontecendo a cada minuto do dia. Eu não ando por aí pensando que a matança de animais que eu não vejo não está acontecendo. Quando vejo um hambúrguer, vejo uma vaca ensanguentada e morta, isso é o que o estudo da pecuária industrial faz com uma pessoa. Então, ouvir mais uma história de abuso não possui um efeito profundo em mim. Eu não me envolvo mais porque é uma vaca ou um cachorro ou uma pessoa e eu vou acabar ouvindo meu ativismo animal como o habitual porque eles são os que mais precisam de mim . Eu sei que é uma resposta ruim e sei que sou dessensibilizada.  Por outro lado, quando ouço essas histórias, eu me sinto esperançosa. Vendo a capacidade das pessoas de se preocupar com um cão que não conhecem e de defender ferozmente o seu bem-estar, sei que essas pessoas são veganas no coração e isso é um pensamento positivo.

Percebo que alguns veganos se irritam com a aparente hipocrisia das pessoas que cuidam de um cachorro e não de uma vaca, mas é muito mais útil enxergar isso como uma chave para seus corações e seu potencial para cuidar de todos os animais que são vítimas de abuso. Acredito que o uso de animais como entretenimento está se tornando cada vez mais um tabu e as imagens geradas por computadores evoluíram tanto que, com pressão pública e conscientização, os estúdios serão pressionados a usar apenas imagens geradas por computadores e, se eles são espertos, usarão isso como uma ferramenta de marketing para atrair seu público.  O absurdo do abuso de animais que ocorre no set de um filme feito para amantes de cães não pode ser ignorado pelos cineastas, isso é um negócio terrível. Entretanto, não posso deixar de pensar: “Eles provavelmente serviram carne todos os dias naquele filme e ninguém está provocando confusão sobre as condições em que esses animais foram mortos”. É por isso que não fico tão envolvida nessas histórias, mas sei que elas são úteis para ajudar as pessoas a fazer a conexão.

ANDA: Existe um número cada vez maior de celebridades que promovem o veganismo e atraem mais pessoas para a causa. Como uma atriz inserida nesta indústria, como você observa essa relação?

Evanna Lynch –  Eu definitivamente penso sobre a percepção de que o veganismo é um privilégio, de que é mais fácil para algumas pessoas, como celebridades do que para outras.  Eu me preocupo com a imagem que as celebridades estão dando ao veganismo. Tantas celebridades só promovem as bolsas veganas e os planos de refeição e pode parecer um estilo de vida de uma pessoa rica. Algumas pessoas realmente não podem comprar quinoa e o Burger King é o modo como elas alimentam suas famílias e temos que respeitar as diferenças de classe. Não que não haja uma maneira de ser vegano com um orçamento, com certeza há. Porém, infelizmente o veganismo é frequentemente mostrado apenas como uma dieta alimentar saudável. Não adianta negar ou tentar minimizar as bênçãos e vantagens  alguém na vida, então acho que as boas celebridades compartilham a mensagem. Eu só queria que elas estivessem mais bem informadas.

Quando as celebridades discutem sobre os benefícios para a saúde de uma dieta vegana em um dia, mas promovem uma campanha de marca de uma bolsa de couro no dia seguinte, elas enviam uma mensagem realmente confusa e fazem com que os veganos pareçam um pouco tolos. Eu não gosto de perfeccionismo e não gosto da sensação de que o veganismo é algum tipo de clube que você precisa trabalhar duro para fazer parte. Se você acredita em compaixão por todos os seres vivos e está trabalhando para viver assim, você é vegano no que me diz respeito.  No entanto, eu gostaria que algumas celebridades pesquisassem as causas com as quais se importam antes de falar publicamente sobre o assunto. Estes são meus sentimentos pessoais e eu sei que qualquer figura influente falando sobre o veganismo eleva sua imagem e deixa as pessoas curiosas e isso é algo positivo. Mas, para mim, pessoalmente, Beyonce não é um modelo vegano quando ela entra na Native Foods usando um casaco de pele. Quando as celebridades fazem isso corretamente, elas são incríveis. Pamela Anderson é uma das minhas ativistas favoritas. Ela admite seus erros anteriores, como tornar a Uggs (marca de calçados de origem animal) famosa, e então criou uma alternativa para seus fãs. Ela é educada, bem versada e apaixonada pelo veganismo. Ela é uma ativista muito poderosa e inspiradora e é o tipo de vegana a que aspiro a ser.

ANDA: Quais são seus objetivos como uma ativista pelos direitos animais? Possui algum plano que poderia nos contar?

Evanna Lynch –  Eu quero ajudar todas as pessoas a se conectarem com seu coração vegano. Sei que esta é uma afirmação ousada, mas faço o meu ativismo a partir de um lugar de crença de que todos são veganos no coração e eles apenas têm que ser condicionados para aceitar a exploração animal e o abuso como uma parte normal da vida. Não estou aqui para discutir sobre o veganismo com ninguém – sei que esse é o caminho certo para a humanidade, tanto quanto sei que amo minha família e me lembro desse fato toda vez que vejo um animal sentindo dor. Desistir de discutir com as pessoas sobre veganismo tornou minha vida muito melhor. Com isso em mente, só quero ajudar as pessoas que querem ser veganas, mas não sabem como. Pessoas que amam e cuidam dos animais e já aceitaram suas crenças, mas precisam de ajuda para colocá-las em prática. É o que espero conseguir com o podcast, apenas alcançar essas pessoas que precisam de uma comunidade, apoio e inspiração em suas jornadas veganas.

Eventualmente, quero escrever histórias fictícias sobre animais. Na minha experiência, não há melhor maneira de mudar os corações do que por meio da arte e de histórias. Essa é a única maneira que minha mente foi alterada. Eu assisti a filmes como “Babe”, “Charlotte’s Web” e “Dumbo” repetidamente quando era criança e todos esses filmes falaram diretamente ao meu coração e foram fundamentais para me ajudar a fazer a conexão com os animais. Eu me esforço para encontrar o equilíbrio entre minha arte e meu ativismo, mas esse é certamente um objetivo em longo prazo.